Nos primeiros anos da igreja cristã pouco se pensou num estado intermediário. A idéia de que Jesus logo voltaria como Juiz fazia o intervalo parecer pouco importante. O problema do estado intermediário surgiu quando se evidenciou que Jesus não voltaria de imediato. O verdadeiro problema que incomodava os chamados pais primitivos era sobre como conciliar o juízo e a retribuição na morte com o juízo geral e a retribuição após a ressurreição. Atribuir demasiada importância àqueles parecia privar estes da sua significação, e vice-versa. Não havia unanimidade entre os chamados pais primitivos da igreja, mas a maioria deles procurava resolver a dificuldade supondo um estado distinto e intermediário entre a morte e a ressurreição. Diz Addison: “Durante muitos séculos, foi geralmente aceita a conclusão geral de que num hades subterrâneo os justos gozam certa medida de recompensa, não igual ao seu futuro céu, e os ímpios sofrem certo grau de punição, não igual ao seu futuro inferno. Assim, o estado intermediário era uma versão ligeiramente reduzida da retribuição ultima”. Este conceito foi defendido, embora com algumas variantes, por homens como Justino Mártir, Irineu, Tertuliano, Novaciano, Orígenes, Gregório de Nyssa, Ambrósio e Agostinho. Na escola Alexandrina, a idéia do estado intermediário cedeu passo à de uma gradual purificação da alma, isto é, no transcurso do tempo, preparou o caminho para a doutrina católica romana do purgatório. Havia, porém, alguns que apoiavam a idéia de que, na morte, as almas dos justos entravam imediatamente no céu; entre eles estavam Gregório de Nazianzo, Eusébio e Gregório, o Grande.
Na Idade Média a doutrina de um estado intermediário foi conservada, e, em conexão com ela, a Igreja Católica Romana desenvolveu a doutrina do purgatório. A opinião dominante era que o inferno recebia imediatamente as almas dos ímpios, mas que somente as dos justos que estivessem livres de toda mácula do pecado eram admitidos imediatamente na bem-aventurança do céu, para desfrutarem o visio Dei (visão de Deus). Os mártires eram geralmente contados entre os poucos favorecidos. Os que precisavam de ulterior purificação eram, segundo o conceito predominante, detidos no purgatório por um menor ou maior período de tempo, conforme o exigisse o grau de pecado restante, e eram purgados do pecado por meio de um fogo purificador. Outra idéia, que também se desenvolveu em conexão com a noção do estado intermediário, era a do limbus patrum (limbo dos pais), onde os santos do Velho Testamento ficaram retidos até à ressurreição de Cristo. Os Reformadores, sem exceção, rejeitaram a doutrina do purgatório, e também toda a idéia de um real estado intermediário, que levava consigo a idéia de um lugar intermediário. Eles sustentavam que os que morriam no Senhor ingressavam imediatamente na bem-aventurança do céu, ao passo que os que morriam em seus pecados desciam imediatamente para o inferno. Contudo, alguns teólogos do período da Reforma admitiam uma diferença de grau entre a felicidade dos primeiros e o julgamento dos últimos, antes do juízo final, e sua felicidade e punição finais, depois do grande tribunal. Entre os socinianos e ao anabatistas houve alguns que reviveram a antiga doutrina, sustentada por alguns da Igreja Primitiva, de que a alma do homem dorme desde a hora da morte até à ressurreição. Calvino escreveu um tratado para combater essa idéia. A mesma noção é defendida por algumas seitas adventistas e pelos da aurora do milênio. Durante o século dezenove, vários teólogos, principalmente na Inglaterra, na Suíça e na Alemanha, abraçaram a idéia de que o estado intermediário é um estado de nova prova (ou de segunda oportunidade) para os que não aceitam a Cristo nesta vida. Este conceito é defendido por alguns até aos dias atuais, e é uma das doutrinas favoritas dos universalistas.
(Berkhof, L – Teologia Sistemática Pg 684)
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
A Construção Moderna da Doutrina do Sheol-Hades
1. EXPOSIÇÃO DA DOUTRINA. Há diversas representações da concepção bíblica do sheol-hades na teologia atual, e é deveras impossível considerar cada uma delas separadamente. Predomina no presente a idéia de que a concepção veterotestamentária do sheol, à qual se supõe que a do hades do Novo Testamento corresponde, foi copiada da noção gentílica do mundo subterrâneo. Afirma-se que, de acordo com o Velho Testamento, tanto os fiéis como os ímpios, ao morrerem, entram na lúgubre morada das sombras, na terra do esquecimento, onde estão condenados a uma existência que não passa de um fantasioso reflexo da vida na terra. O mundo subterrâneo não é, em si mesmo, um lugar de recompensa, nem de punição. Não está dividido em diferentes compartimentos para os bons e os maus, mas é uma região sem distinções morais. É um lugar de consciências enfraquecidas e sonolenta inatividade, onde a vida perdeu os seus interesses e a alegria da vida se transformou em tristeza. Alguns são de opinião que o Velho Testamento apresenta o sheol como habitação permanente de todos os homens, enquanto outros acham que ele oferece uma esperança de fuga aos fiéis. Ocasionalmente encontramos uma apresentação um tanto diversa da concepção veterotestamentária, na qual o sheol e descrito como dividido em dois compartimentos, quais sejam, o paraíso e a geena, aquele contendo todos os judeus, ou unicamente aqueles que observaram fielmente a lei, e esta abrangendo os gentios. Os judeus serão libertados do sheol quando da vinda do Messias, enquanto que os gentios permanecerão para sempre na habitação das trevas. A contraparte neotestamentária dessa concepção do sheol acha-se em sua descrição do hades. Não se afirma apenas que os hebreus agasalhavam a noção desse mundo subterrâneo, nem que os escritores bíblicos ocasionalmente se acomodavam formalmente, em suas exposições, aos conceitos dos gentios, a respeito dos quais falavam; mas, sim, que este é o conceito escriturístico do estado intermediário.
2. CRÍTICA DESSA APRESENTAÇÃO MODERNA. No abstrato é possível, naturalmente, que a idéia dessa localidade separada, que não é céu nem inferno, na qual os mortos são reunidos e onde permanecem, ou permanentemente, ou até que ocorra alguma ressurreição comunal, fosse mais ou menos corrente no pensamento popular hebraico, e pode ter dado surgimento a algumas descrições figuradas do estado dos mortos; mas, dificilmente isso pode ser considerado, pelos que crêem na inspiração plenária da Bíblia, como um elemento dos ensinos positivos da Escritura, desde que contradiz francamente a apresentação escriturística segundo a qual os justos entram imediatamente na glória, e os ímpios descem imediatamente para um lugar de punição eterna. Além disso, podem ser feitas as seguintes considerações contra essa idéia:
a. Surge a questão sobre se o conceito do sheol-hades¬, tão geralmente considerado agora como escriturístico, é fiel aos fatos ou não. Se foi fiel aos fatos na ocasião em que os livros da Bíblia foram escritos, mas não é mais fiel aos fatos atuais, levanta-se naturalmente a questão, Que foi que produziu a diferença? E se não foi fiel aos fatos, mas era um conceito decididamente falso – e esta é a opinião dominante – surge logo o problema de como essa idéia errônea pôde ser protegida e sancionada, e até ensinada positivamente pelos escritores inspirados da Escritura. O problema não é abrandado pela consideração, feita por alguns, de que a inspiração da Escritura não leva consigo a segurança de que os santos do Velho Testamento estavam certos quando diziam que, quando morrem, os homens entram num lugar subterrâneo, porque não somente esses santos, mas também os escritores inspirados da Escritura empregavam linguagem que, em si mesma e independentemente doutros ensinos claros da Escritura, podia ser interpretada dessa maneira, Nm 16.30; Sl 49.15, 16; 88.3; 89.48; Ec 9.10; Is 5.14; Os 13.14. Esses escritores inspirados laboravam em erro quando falaram que tanto os justos como os ímpios desciam para o sheol? Pode-se dizer que houve um desenvolvimento da revelação a respeito do destino do homem, e não temos motivos para duvidar de que neste ponto, como em muitos outros, aquilo era obscuro, aos poucos foi ganhando definição e clareza; mas certamente isto não significa que o verdadeiro resultou do desenvolvimento do falso. Como poderia? O Espírito Santo consideraria válido que o homem recebesse primeiro impressões falsas o obtivesse noções errôneas e depois, com o transcorrer do tempo, as trocasse por uma percepção correta da condição dos mortos?
b. Se, conforme a exposição bíblica, o sheol-hades é um lugar neutro, sem distinções morais, sem bem-aventurança por um lado, mas também sem positivo sofrimento por outro, lugar ao qual todos descem igualmente, como pode o Velho Testamento falar da descida dos ímpios ao sheol em termos de advertência, como o faz em diversas passagens, como Jó 21.13; Sl 9.17; Pv 5.5; 7.27; 9.18; 5.24; 23.4? Como pode a Bíblia falar da ira de Deus ardendo ali, Dt 32.22, e empregar o termo sheol como sinônimo de abaddon, isto é destruição, Jó 26.6; Pv 15.11; 27.20? Este termo é um forte, aplicado ao anjo do abismo em Ap 9.11. Alguns procuram escapar desta dificuldade concedendo o caráter neutro de sheol e supondo que este era concebido como um mundo subterrâneo com duas divisões, chamadas no Novo Testamento paraíso e geena, aquele sendo a habitação destinada aos justos, e esta, aos ímpios; mas essa tentativa só pode resultar em desapontamento; pois o Velho Testamento não contém nenhum vestígio de tal divisão, conquanto fale do sheol como um lugar de punição para os ímpios. Além disso, o Novo Testamento identifica claramente o paraíso como o céu em 2 Co 12.2, 4. E, finalmente, se hades é o designativo neotestamentário de sheol, e tudo converge para isto, em que fica a condenação especial de Cafarnaum, Mt 11.23, e como pode ele ser retratado como um lugar de tormento, Lc 16.23? Alguém poderia estar inclinado a dizer que as ameaças contidas nalgumas das passagens mencionadas se referem a uma rápida descida ao sheol, mas não há indicação dito o texto em nenhum lugar, exceto em Jó 21.13, onde a afirmação disto é explícita.
c. Se uma descida ao sheol fosse a sombria perspectiva do futuro, não somente dos ímpios mas também dos justos como poderíamos explicar as expressões de jubilosa expectativa, ou de alegria em face da morte, como as que vemos em Nm 23.10; Sl 1.9, 11; 17.15; 49.15; 73.24, 26; Is 25.8 (comp. 1 Co 15.54)? A expressão do Sl 49.15 pode ser interpretada no sentido de que Deus livrará o poeta do sheol ou do poder do sheol. Observe-se também o que o escritor de Hebreus diz dos heróis da fé veterotestamentários, em Hb 11.13-16. Naturalmente, o Novo Testamento fala muitas vezes da jubilosa perspectiva que os crentes têm do futuro, e ensina sobre a sua felicidade consciente no estado desencarnado, Lc 16.23, 25; 23.43; At 7.59; 2 Co 5.1, 6, 8; Fp 1.21,23; 1 Ts 5.10; Ef3.14, 15 (“família... no céu”, não no “hades”); Ap. 6.9, 11; 14.13. Em 2 Co 12.2, 4 “paraíso” é empregado como sinônimo de “terceiro céu”. Em conexão com esta clara apresentação dada pelo Novo Testamento, tem-se sugerido que os crentes neotestamentários são mais privilegiados que os veterotestamentários por terem acesso imediato à bem-aventurança do céu. Mas bem se pode perguntar: Qual a base para se pressupor essa diferença?
d. Se a palavra sheol sempre denota a sombra região na qual descem os mortos, e nunca tem outro significado, então o Velho Testamento, enquanto tem uma palavra para indicar o céu como a bendita habitação de Deus e dos santos anjos, não tem uma palavra referente ao inferno, o lugar de destruição e de castigo eterno. Mas é somente com base no pressuposto de que nalgumas passagens sheol designa um lugar de punição para onde os ímpios vão, em distinção dos justos, que as advertências anotadas no item (b) têm alguma razão de ser. De fato, sheol às vezes é contrastado com shamayim (céus), como em Jó 11.8; Sl 139.8; Am 9.2. A Escritura fala também do sheol mais profundo ou inferior em Dt 32.22. A mesma expressão se acha também no Sl 86.13, mas é evidente que nesta passagem é empregada figuradamente.
e. Finalmente, deve-se notar que havia diferenças de opinião entre os eruditos quanto ao sujeito exato da descida ao sheol e, de alguma forma obscura, continua a sua existência num mundo de sombras, onde as relações da vida ainda refletem as da terra. Esta descrição parece estar em maior harmonia com as afirmações da Escritura, Gn 37.35; Jó 7.9; 14.13; 21.13; Sl 139.8; Ec 9.10. Há alguns que assinalam o fato de que o corpo está incluído. Há perigo de que as “cãs” de Jacó sejam baixadas ao sheol, Gn 42.38; 44.29, 31; Samuel é visto subir como um ancião envolto numa capa, 1 Sm 28.14; e as “cãs” de Simei deverão ser baixadas ao sheol, 1 Rs 2.6,9. Mas, se o sheol é um lugar para onde vão todos os mortos, corpo e alma, o que então é posto no túmulo, que se supõe ser outro lugar? Esta dificuldade é evitada por aqueles eruditos que afirmam que somente as almas descem ao sheol, mas dificilmente se pode dizer que isso está em harmonia com as descrições do Velho Testamento. É verdade que há umas poucas passagens que falam de almas indo para o sheol ou estando lá, Sl 16.10; 30.3; 86.13; 89.48; Pv 23.14, mas é um fato bem conhecido que em hebraico a palavra nephesh (alma), com o sufixo pronominal, é muitas vezes equivalente ao pronome pessoal, principalmente na linguagem poética. Alguns teólogos conservadores adotaram esta elaboração da apresentação veterotestamentária, e encontraram nela um ponto de apoio para a sua idéia de que as almas dos homens estão nalgum lugar intermediário (todavia, um lugar com distinções morais e divisões separadas), até o dia da ressurreição.
3. INTERPRETAÇÃO DE SHEOL-HADES AQUI SUGERIDA. De maneira nenhuma é fácil interpretar estes termos, e, ao sugerir uma interpretação, não queremos dar a impressão de que estamos falando com absoluta segurança. Um estudo indutivo das passagens nas quais se encontram, logo dissipa a noção de que os termos sheol e hades são empregados sempre no mesmo sentido e em todos os casos podem ser traduzidos pela mesma palavra, seja mundo inferior, estado dos mortos, sepultura ou inferno. Isso também se reflete claramente nas várias traduções da Bíblia. A Versão de Holland traduz o termo sheol por sepultura nalgumas passagens, e por inferno noutras. A Versão do Rei Tiago, ou Versão Autorizada (King James ou Authorized Version) emprega três palavras para a sua tradução, a saber, sepultura, inferno e cova (grave, hell e pit). Os revisores ingleses, deveras incoerentemente, conservaram sepultura ou cova no texto dos livros históricos, colocando sheol na margem. Mantiveram somente em Is 14. Os revisores americanos evitaram a dificuldade simplesmente mantendo os vocábulos originais sheol e hades em sua tradução.* Embora tenha alcançado ampla circulação a opinião de que o sheol é simplesmente o mundo inferior ao qual os homens descem, de modo nenhum esta idéia é unânime. Alguns dos eruditos mais antigos identificavam o sheol com a sepultura; há outros que o consideram como o lugar onde são retidas as almas dos mortos; e ainda outros, dentre os quais podemos mencionar Shedd, Vos, Aalders e De Bondt, afirmam que a palavra sheol nem sempre tem o mesmo sentido. Parece-nos que esta ultima opinião merece preferência, e que se pode dizer o seguinte, a respeito dos seus diferentes sentidos:
a. Nem sempre as palavras sheol e hades denotam uma localidade, na Escritura, mas muitas vezes são empregadas num sentido abstrato, para designar o estado de morte, o estado de separação de corpo e alma. Com freqüência, este estado é concebido localmente como constituindo os domínios da morte, e às vezes é retratado como uma fortaleza guarnecida de portas que somente quem lhes possui as chaves pode fechar e abrir, Mt 16.18; Ap. 1.18. Com toda a probabilidade, esta descrição local se baseia numa generalização da idéia do sepulcro, ao qual o homem desce quando entra no estado de morte. Desde que tanto os crentes como os descrentes, ao término da sua vida, entram no estado de morte, bem se pode dizer, figuradamente, que eles estão, sem distinção, no sheol ou no hades. Estão igualmente no estado de morte. O paralelismo demonstra claramente o que se quer dizer numa passagem como 1 Sm 2.6: “O Senhor é o que tira a vida, e a dá; faz descer à sepultura (ao sheol), e faz subir”. CF. também Jó 14.13, 14; 17.13, 14; Sl 89.48; Os 13.14, e várias outras passagens. Evidentemente, a palavra hades é empregada mais de uma vez no sentido não local de estado dos mortos no Novo Testamento, At 2.27, 31; Ap. 6.8; 20.28. Nestas duas ultimas passagens temos uma personificação. Visto que os termos podem denotar o estado de morte, não é necessário provar que nunca se referem a algo concernente igualmente aos justos e aos ímpios, mas somente que não denotam um lugar onde as almas de uns e de outros são reunidas. De Bondt chama a atenção para o fato de que em muitas passagens o termo sheol é empregado no sentido abstrato de morte, poder da morte e perigo da morte.
b. Quando sheol e hades designam uma localidade no sentido literal da palavra, referem-se, ou àquilo que geralmente denominamos inferno, ou à sepultura. A descida ao sheol é apresentada como uma ameaça de perigo e como um castigo para os ímpios, Sl 9.17; 49.14; 55.15; Pv 15.11; 15.24; Lc 16.23 (hades). A advertência e a ameaça contidas nestas passagens ficarão completamente anuladas, se se conhecer sheol como um lugar neutro para onde todos vão. Destas passagens também se infere que não pode ser considerado como um lugar de duas divisões. A idéia de um tal sheol dividido é copiada da concepção gentílica do mundo subterrâneo e não encontra suporte na Escritura. É somente do sheol como estado de morte que podemos falar que tem duas divisões, mas então falamos figuradamente. Mesmo o Velho Testamento atesta que os que morrem no Senhor entram num gozo mais completo das bênçãos da salvação e, portanto, não descem a nenhum mundo subterrâneo, no sentido literal da palavra, Nm 23.5, 10; Sl 16.11; 17.15; 73.24; Pv 14.32. Enoque e Elias foram levados para cima, e não desceram a algum mundo inferior, Hb 11.5 e segtes. Ademais, sheol, não meramente como um estado, mas também como um lugar, é considerado como estando na mais estreita relação com a morte. Se a concepção bíblica da morte for compreendida em sua significação profunda, em sua significação espiritual, prontamente se verá que o sheol não pode ser a morada das almas dos que morrem no Senhor, Pv 5.5; 15.11; 27.20.
Há também diversas passagens nas quais sheol e hades parecem designar a sepultura. Nem sempre é fácil determinar, porém, se as palavras se referem à sepultura ou ao estado dos mortos. As seguintes passagens são algumas das que entram em consideração aqui: Gn 37.25; 42.38; 44.29; 29.31; 1 Rs 2.6, 9; Jó 14.13; 17.13; 21.13; Sl 6.5; 88.3; Ec 9.10. Mas, embora o nome sheol também seja empregado para sepultura, não se segue necessariamente que este é o sentido original da palavra, do qual o seu emprego para designar o inferno é copiado. Com toda a probabilidade, a verdade é o oposto. A sepultura é chamada sheol porque simboliza a ida para baixo, que é relacionada com a idéia de destruição. Quanto aos crentes, o simbolismo bíblico é mudado pela própria Escritura. Paulo afirma que eles são sepultados quando morrem, como uma semente é semeada na terra, da qual brota uma vida nova, mais abundante, mais gloriosa.
No Velho Testamento a palavra sheol é utilizada mais freqüentemente no sentido de sepultura e menos no de inferno, enquanto que no uso correspondente de hades no Novo Testamento dá-se o contrário.
(Berkhof, L – Teologia Sistemática Pg689)
2. CRÍTICA DESSA APRESENTAÇÃO MODERNA. No abstrato é possível, naturalmente, que a idéia dessa localidade separada, que não é céu nem inferno, na qual os mortos são reunidos e onde permanecem, ou permanentemente, ou até que ocorra alguma ressurreição comunal, fosse mais ou menos corrente no pensamento popular hebraico, e pode ter dado surgimento a algumas descrições figuradas do estado dos mortos; mas, dificilmente isso pode ser considerado, pelos que crêem na inspiração plenária da Bíblia, como um elemento dos ensinos positivos da Escritura, desde que contradiz francamente a apresentação escriturística segundo a qual os justos entram imediatamente na glória, e os ímpios descem imediatamente para um lugar de punição eterna. Além disso, podem ser feitas as seguintes considerações contra essa idéia:
a. Surge a questão sobre se o conceito do sheol-hades¬, tão geralmente considerado agora como escriturístico, é fiel aos fatos ou não. Se foi fiel aos fatos na ocasião em que os livros da Bíblia foram escritos, mas não é mais fiel aos fatos atuais, levanta-se naturalmente a questão, Que foi que produziu a diferença? E se não foi fiel aos fatos, mas era um conceito decididamente falso – e esta é a opinião dominante – surge logo o problema de como essa idéia errônea pôde ser protegida e sancionada, e até ensinada positivamente pelos escritores inspirados da Escritura. O problema não é abrandado pela consideração, feita por alguns, de que a inspiração da Escritura não leva consigo a segurança de que os santos do Velho Testamento estavam certos quando diziam que, quando morrem, os homens entram num lugar subterrâneo, porque não somente esses santos, mas também os escritores inspirados da Escritura empregavam linguagem que, em si mesma e independentemente doutros ensinos claros da Escritura, podia ser interpretada dessa maneira, Nm 16.30; Sl 49.15, 16; 88.3; 89.48; Ec 9.10; Is 5.14; Os 13.14. Esses escritores inspirados laboravam em erro quando falaram que tanto os justos como os ímpios desciam para o sheol? Pode-se dizer que houve um desenvolvimento da revelação a respeito do destino do homem, e não temos motivos para duvidar de que neste ponto, como em muitos outros, aquilo era obscuro, aos poucos foi ganhando definição e clareza; mas certamente isto não significa que o verdadeiro resultou do desenvolvimento do falso. Como poderia? O Espírito Santo consideraria válido que o homem recebesse primeiro impressões falsas o obtivesse noções errôneas e depois, com o transcorrer do tempo, as trocasse por uma percepção correta da condição dos mortos?
b. Se, conforme a exposição bíblica, o sheol-hades é um lugar neutro, sem distinções morais, sem bem-aventurança por um lado, mas também sem positivo sofrimento por outro, lugar ao qual todos descem igualmente, como pode o Velho Testamento falar da descida dos ímpios ao sheol em termos de advertência, como o faz em diversas passagens, como Jó 21.13; Sl 9.17; Pv 5.5; 7.27; 9.18; 5.24; 23.4? Como pode a Bíblia falar da ira de Deus ardendo ali, Dt 32.22, e empregar o termo sheol como sinônimo de abaddon, isto é destruição, Jó 26.6; Pv 15.11; 27.20? Este termo é um forte, aplicado ao anjo do abismo em Ap 9.11. Alguns procuram escapar desta dificuldade concedendo o caráter neutro de sheol e supondo que este era concebido como um mundo subterrâneo com duas divisões, chamadas no Novo Testamento paraíso e geena, aquele sendo a habitação destinada aos justos, e esta, aos ímpios; mas essa tentativa só pode resultar em desapontamento; pois o Velho Testamento não contém nenhum vestígio de tal divisão, conquanto fale do sheol como um lugar de punição para os ímpios. Além disso, o Novo Testamento identifica claramente o paraíso como o céu em 2 Co 12.2, 4. E, finalmente, se hades é o designativo neotestamentário de sheol, e tudo converge para isto, em que fica a condenação especial de Cafarnaum, Mt 11.23, e como pode ele ser retratado como um lugar de tormento, Lc 16.23? Alguém poderia estar inclinado a dizer que as ameaças contidas nalgumas das passagens mencionadas se referem a uma rápida descida ao sheol, mas não há indicação dito o texto em nenhum lugar, exceto em Jó 21.13, onde a afirmação disto é explícita.
c. Se uma descida ao sheol fosse a sombria perspectiva do futuro, não somente dos ímpios mas também dos justos como poderíamos explicar as expressões de jubilosa expectativa, ou de alegria em face da morte, como as que vemos em Nm 23.10; Sl 1.9, 11; 17.15; 49.15; 73.24, 26; Is 25.8 (comp. 1 Co 15.54)? A expressão do Sl 49.15 pode ser interpretada no sentido de que Deus livrará o poeta do sheol ou do poder do sheol. Observe-se também o que o escritor de Hebreus diz dos heróis da fé veterotestamentários, em Hb 11.13-16. Naturalmente, o Novo Testamento fala muitas vezes da jubilosa perspectiva que os crentes têm do futuro, e ensina sobre a sua felicidade consciente no estado desencarnado, Lc 16.23, 25; 23.43; At 7.59; 2 Co 5.1, 6, 8; Fp 1.21,23; 1 Ts 5.10; Ef3.14, 15 (“família... no céu”, não no “hades”); Ap. 6.9, 11; 14.13. Em 2 Co 12.2, 4 “paraíso” é empregado como sinônimo de “terceiro céu”. Em conexão com esta clara apresentação dada pelo Novo Testamento, tem-se sugerido que os crentes neotestamentários são mais privilegiados que os veterotestamentários por terem acesso imediato à bem-aventurança do céu. Mas bem se pode perguntar: Qual a base para se pressupor essa diferença?
d. Se a palavra sheol sempre denota a sombra região na qual descem os mortos, e nunca tem outro significado, então o Velho Testamento, enquanto tem uma palavra para indicar o céu como a bendita habitação de Deus e dos santos anjos, não tem uma palavra referente ao inferno, o lugar de destruição e de castigo eterno. Mas é somente com base no pressuposto de que nalgumas passagens sheol designa um lugar de punição para onde os ímpios vão, em distinção dos justos, que as advertências anotadas no item (b) têm alguma razão de ser. De fato, sheol às vezes é contrastado com shamayim (céus), como em Jó 11.8; Sl 139.8; Am 9.2. A Escritura fala também do sheol mais profundo ou inferior em Dt 32.22. A mesma expressão se acha também no Sl 86.13, mas é evidente que nesta passagem é empregada figuradamente.
e. Finalmente, deve-se notar que havia diferenças de opinião entre os eruditos quanto ao sujeito exato da descida ao sheol e, de alguma forma obscura, continua a sua existência num mundo de sombras, onde as relações da vida ainda refletem as da terra. Esta descrição parece estar em maior harmonia com as afirmações da Escritura, Gn 37.35; Jó 7.9; 14.13; 21.13; Sl 139.8; Ec 9.10. Há alguns que assinalam o fato de que o corpo está incluído. Há perigo de que as “cãs” de Jacó sejam baixadas ao sheol, Gn 42.38; 44.29, 31; Samuel é visto subir como um ancião envolto numa capa, 1 Sm 28.14; e as “cãs” de Simei deverão ser baixadas ao sheol, 1 Rs 2.6,9. Mas, se o sheol é um lugar para onde vão todos os mortos, corpo e alma, o que então é posto no túmulo, que se supõe ser outro lugar? Esta dificuldade é evitada por aqueles eruditos que afirmam que somente as almas descem ao sheol, mas dificilmente se pode dizer que isso está em harmonia com as descrições do Velho Testamento. É verdade que há umas poucas passagens que falam de almas indo para o sheol ou estando lá, Sl 16.10; 30.3; 86.13; 89.48; Pv 23.14, mas é um fato bem conhecido que em hebraico a palavra nephesh (alma), com o sufixo pronominal, é muitas vezes equivalente ao pronome pessoal, principalmente na linguagem poética. Alguns teólogos conservadores adotaram esta elaboração da apresentação veterotestamentária, e encontraram nela um ponto de apoio para a sua idéia de que as almas dos homens estão nalgum lugar intermediário (todavia, um lugar com distinções morais e divisões separadas), até o dia da ressurreição.
3. INTERPRETAÇÃO DE SHEOL-HADES AQUI SUGERIDA. De maneira nenhuma é fácil interpretar estes termos, e, ao sugerir uma interpretação, não queremos dar a impressão de que estamos falando com absoluta segurança. Um estudo indutivo das passagens nas quais se encontram, logo dissipa a noção de que os termos sheol e hades são empregados sempre no mesmo sentido e em todos os casos podem ser traduzidos pela mesma palavra, seja mundo inferior, estado dos mortos, sepultura ou inferno. Isso também se reflete claramente nas várias traduções da Bíblia. A Versão de Holland traduz o termo sheol por sepultura nalgumas passagens, e por inferno noutras. A Versão do Rei Tiago, ou Versão Autorizada (King James ou Authorized Version) emprega três palavras para a sua tradução, a saber, sepultura, inferno e cova (grave, hell e pit). Os revisores ingleses, deveras incoerentemente, conservaram sepultura ou cova no texto dos livros históricos, colocando sheol na margem. Mantiveram somente em Is 14. Os revisores americanos evitaram a dificuldade simplesmente mantendo os vocábulos originais sheol e hades em sua tradução.* Embora tenha alcançado ampla circulação a opinião de que o sheol é simplesmente o mundo inferior ao qual os homens descem, de modo nenhum esta idéia é unânime. Alguns dos eruditos mais antigos identificavam o sheol com a sepultura; há outros que o consideram como o lugar onde são retidas as almas dos mortos; e ainda outros, dentre os quais podemos mencionar Shedd, Vos, Aalders e De Bondt, afirmam que a palavra sheol nem sempre tem o mesmo sentido. Parece-nos que esta ultima opinião merece preferência, e que se pode dizer o seguinte, a respeito dos seus diferentes sentidos:
a. Nem sempre as palavras sheol e hades denotam uma localidade, na Escritura, mas muitas vezes são empregadas num sentido abstrato, para designar o estado de morte, o estado de separação de corpo e alma. Com freqüência, este estado é concebido localmente como constituindo os domínios da morte, e às vezes é retratado como uma fortaleza guarnecida de portas que somente quem lhes possui as chaves pode fechar e abrir, Mt 16.18; Ap. 1.18. Com toda a probabilidade, esta descrição local se baseia numa generalização da idéia do sepulcro, ao qual o homem desce quando entra no estado de morte. Desde que tanto os crentes como os descrentes, ao término da sua vida, entram no estado de morte, bem se pode dizer, figuradamente, que eles estão, sem distinção, no sheol ou no hades. Estão igualmente no estado de morte. O paralelismo demonstra claramente o que se quer dizer numa passagem como 1 Sm 2.6: “O Senhor é o que tira a vida, e a dá; faz descer à sepultura (ao sheol), e faz subir”. CF. também Jó 14.13, 14; 17.13, 14; Sl 89.48; Os 13.14, e várias outras passagens. Evidentemente, a palavra hades é empregada mais de uma vez no sentido não local de estado dos mortos no Novo Testamento, At 2.27, 31; Ap. 6.8; 20.28. Nestas duas ultimas passagens temos uma personificação. Visto que os termos podem denotar o estado de morte, não é necessário provar que nunca se referem a algo concernente igualmente aos justos e aos ímpios, mas somente que não denotam um lugar onde as almas de uns e de outros são reunidas. De Bondt chama a atenção para o fato de que em muitas passagens o termo sheol é empregado no sentido abstrato de morte, poder da morte e perigo da morte.
b. Quando sheol e hades designam uma localidade no sentido literal da palavra, referem-se, ou àquilo que geralmente denominamos inferno, ou à sepultura. A descida ao sheol é apresentada como uma ameaça de perigo e como um castigo para os ímpios, Sl 9.17; 49.14; 55.15; Pv 15.11; 15.24; Lc 16.23 (hades). A advertência e a ameaça contidas nestas passagens ficarão completamente anuladas, se se conhecer sheol como um lugar neutro para onde todos vão. Destas passagens também se infere que não pode ser considerado como um lugar de duas divisões. A idéia de um tal sheol dividido é copiada da concepção gentílica do mundo subterrâneo e não encontra suporte na Escritura. É somente do sheol como estado de morte que podemos falar que tem duas divisões, mas então falamos figuradamente. Mesmo o Velho Testamento atesta que os que morrem no Senhor entram num gozo mais completo das bênçãos da salvação e, portanto, não descem a nenhum mundo subterrâneo, no sentido literal da palavra, Nm 23.5, 10; Sl 16.11; 17.15; 73.24; Pv 14.32. Enoque e Elias foram levados para cima, e não desceram a algum mundo inferior, Hb 11.5 e segtes. Ademais, sheol, não meramente como um estado, mas também como um lugar, é considerado como estando na mais estreita relação com a morte. Se a concepção bíblica da morte for compreendida em sua significação profunda, em sua significação espiritual, prontamente se verá que o sheol não pode ser a morada das almas dos que morrem no Senhor, Pv 5.5; 15.11; 27.20.
Há também diversas passagens nas quais sheol e hades parecem designar a sepultura. Nem sempre é fácil determinar, porém, se as palavras se referem à sepultura ou ao estado dos mortos. As seguintes passagens são algumas das que entram em consideração aqui: Gn 37.25; 42.38; 44.29; 29.31; 1 Rs 2.6, 9; Jó 14.13; 17.13; 21.13; Sl 6.5; 88.3; Ec 9.10. Mas, embora o nome sheol também seja empregado para sepultura, não se segue necessariamente que este é o sentido original da palavra, do qual o seu emprego para designar o inferno é copiado. Com toda a probabilidade, a verdade é o oposto. A sepultura é chamada sheol porque simboliza a ida para baixo, que é relacionada com a idéia de destruição. Quanto aos crentes, o simbolismo bíblico é mudado pela própria Escritura. Paulo afirma que eles são sepultados quando morrem, como uma semente é semeada na terra, da qual brota uma vida nova, mais abundante, mais gloriosa.
No Velho Testamento a palavra sheol é utilizada mais freqüentemente no sentido de sepultura e menos no de inferno, enquanto que no uso correspondente de hades no Novo Testamento dá-se o contrário.
(Berkhof, L – Teologia Sistemática Pg689)
A Doutrina Católica Romana a Respeito do Domicilio da Alma Depois da Morte
1. PURGATÓRIO. De acordo com a igreja de Roma, as almas dos que são perfeitamente puros por ocasião da morte são imediatamente admitidos no céu ou na visão beatífica de Deus, Mt 25.46; Fp 1.23; mas os que não se acham perfeitamente purificados, que ainda levam sobre si a culpa de pecados veniais e não sofreram o castigo temporal devido aos seus pecados – e esta é a condição da maioria dos fiéis quando morrem – têm que se submeter a um processo de purificação, antes de poderem entrar nas supremas alegrias e bem-aventurança do céu. Em vez de entrarem imediatamente no céu, entram no purgatório.
O purgatório não é um lugar de prova (ou de segunda oportunidade), mas de purificação e de preparação para as almas dos crentes que têm a segurança de uma entrada final no céu, mas ainda não estão prontas para apossar-se da felicidade da visão beatífica. Durante a estada dessas almas no purgatório, elas sofrem a dor da perda, isto é, a angústia resultante do fato de que estão excluídas da bendita visão de Deus, e também padecem “castigo dos sentidos”, isto é, sofrem dores positivas, que afligem a alma. A extensão da sua permanência no purgatório não pode ser determinada de antemão. A duração, como também a intensidade dos seus sofrimentos, variam de acordo com o grau de purificação ainda necessitado. Elas podem ser abreviadas e aliviadas pelas orações e boas obras dos fiéis na terra, e especialmente pelo sacrifício da missa. É possível que alguém fique no purgatório até ao dia do juízo final. Supõe-se que o papa tem jurisdição sobre o purgatório. É sua prerrogativa peculiar conceder indulgências, abrandar os sofrimentos purgatoriais e até acabar com eles.
O principal apoio para esta doutrina acha-se em 2 Macabeus 12.42-45, e, portanto, num livro não reconhecido como canônico pelos protestantes.* Mas esta passagem prova demais, isto é, mais do que os próprios católicos romanos podem admitir coerentemente, a saber, a possível libertação do purgatório, de soldados que tinham morrido no pecado mortal da idolatria.
Também se supõe que certas passagens favorecem essa doutrina, como Is 4.4; Mq 7.8; Zc 9.11; Ml 3.2, 3; Mt 12.32; 1 Co 3.13-15; 15.29. Contudo, é mais que evidente que essas passagens só podem ser levadas a dar suporte à doutrina do purgatório mediante uma exegese forçada. A doutrina não acha suporte nenhum na Escritura, e, além disso, firma-se em várias premissas falsas, tais como: (a) que devemos acrescentar algo à obra realizada por Cristo; (b) que as nossas boas obras são meritórias no sentido estrito da palavra; (c) que podemos realizar obras de supererrogação, obras que excedem o que o dever manda; e (d) que o poder das chaves, que a igreja detém, é absoluto, num sentido judicial. Segundo esse poder, a igreja pode encurtar, suavizar e até mesmo terminar os sofrimentos do purgatório.
2. O LIMBUS PATRUM. A palavra latina limbus (orla, borda) era empregada na Idade Média para denotar dois lugares na orla ou na borda do inferno, a saber, o limbus patrum (dos pais) e o limbus infantum (das crianças). Aquele era o lugar onde, segundo os ensinos de Roma, as almas dos santos do Velho Testamento ficaram detidos, num estado de expectativa, até a ressurreição do Senhor dentre os mortos. Supõe-se que, após Sua morte na cruz, Cristo desceu ao lugar de habitação dos pais para livra-los do seu confinamento temporário e levá-los em triunfo para o céu. Esta é a interpretação católica romana da descida de Cristo ao hades. O hades é considerado como o lugar de habitação dos espíritos dos mortos, tendo duas divisões, uma para os justos e a outra para os ímpios. A divisão habitada pelos espíritos dos justos era o limbus patrum, que os judeus conheciam como seio de Abraão, Lc 16.23, e paraíso, Lc 23.43. Afirma-se que o céu não foi aberto para nenhum homem, enquanto Cristo não realizou a propiciação pelo pecado do mundo.
3. O LIMBUS INFANTUM. Este é o lugar de habitação das almas de todas as crianças não batizadas, independentemente de sua descendência, que de pagãos, quer de cristãos. De acordo com a Igreja Católica Romana, as crianças não batizadas não podem ser admitidas no céu, não podem entrar no reino de Deus, Jo 3.5. Sempre houve natural repugnância, porém, pela idéia de que essas crianças devem ser torturadas no inferno, e os teólogos católicos romanos procuraram um meio de escapar da dificuldade. Alguns achavam que tais crianças talvez sejam salvas pela fé dos pais, e outros, que Deus pode comissionar os anjos para batiza-las. Mas a opinião predominante é que, embora excluídas do céu, é-lhes destinado um lugar situado nas bordas do inferno, aonde não chegam as chamas terríveis. Elas permanecem nesse lugar para sempre, sem nenhuma esperança de livramento. A igreja de Roma jamais definiu a doutrina do limbus infantum, e as opiniões dos teólogos variam quanto às precisas condições das crianças ali confinadas. Todavia prevalece a opinião de que elas não sofrem nenhuma punição positiva, nenhuma “dor dos sentidos”, mas simplesmente estão excluídas das bênçãos do céu. Elas conhecem e amam a Deus pelo uso das suas faculdades naturais, e gozam completa felicidade natural.
(Berkhof, L – Teologia Sistemática Pg 691)
O purgatório não é um lugar de prova (ou de segunda oportunidade), mas de purificação e de preparação para as almas dos crentes que têm a segurança de uma entrada final no céu, mas ainda não estão prontas para apossar-se da felicidade da visão beatífica. Durante a estada dessas almas no purgatório, elas sofrem a dor da perda, isto é, a angústia resultante do fato de que estão excluídas da bendita visão de Deus, e também padecem “castigo dos sentidos”, isto é, sofrem dores positivas, que afligem a alma. A extensão da sua permanência no purgatório não pode ser determinada de antemão. A duração, como também a intensidade dos seus sofrimentos, variam de acordo com o grau de purificação ainda necessitado. Elas podem ser abreviadas e aliviadas pelas orações e boas obras dos fiéis na terra, e especialmente pelo sacrifício da missa. É possível que alguém fique no purgatório até ao dia do juízo final. Supõe-se que o papa tem jurisdição sobre o purgatório. É sua prerrogativa peculiar conceder indulgências, abrandar os sofrimentos purgatoriais e até acabar com eles.
O principal apoio para esta doutrina acha-se em 2 Macabeus 12.42-45, e, portanto, num livro não reconhecido como canônico pelos protestantes.* Mas esta passagem prova demais, isto é, mais do que os próprios católicos romanos podem admitir coerentemente, a saber, a possível libertação do purgatório, de soldados que tinham morrido no pecado mortal da idolatria.
Também se supõe que certas passagens favorecem essa doutrina, como Is 4.4; Mq 7.8; Zc 9.11; Ml 3.2, 3; Mt 12.32; 1 Co 3.13-15; 15.29. Contudo, é mais que evidente que essas passagens só podem ser levadas a dar suporte à doutrina do purgatório mediante uma exegese forçada. A doutrina não acha suporte nenhum na Escritura, e, além disso, firma-se em várias premissas falsas, tais como: (a) que devemos acrescentar algo à obra realizada por Cristo; (b) que as nossas boas obras são meritórias no sentido estrito da palavra; (c) que podemos realizar obras de supererrogação, obras que excedem o que o dever manda; e (d) que o poder das chaves, que a igreja detém, é absoluto, num sentido judicial. Segundo esse poder, a igreja pode encurtar, suavizar e até mesmo terminar os sofrimentos do purgatório.
2. O LIMBUS PATRUM. A palavra latina limbus (orla, borda) era empregada na Idade Média para denotar dois lugares na orla ou na borda do inferno, a saber, o limbus patrum (dos pais) e o limbus infantum (das crianças). Aquele era o lugar onde, segundo os ensinos de Roma, as almas dos santos do Velho Testamento ficaram detidos, num estado de expectativa, até a ressurreição do Senhor dentre os mortos. Supõe-se que, após Sua morte na cruz, Cristo desceu ao lugar de habitação dos pais para livra-los do seu confinamento temporário e levá-los em triunfo para o céu. Esta é a interpretação católica romana da descida de Cristo ao hades. O hades é considerado como o lugar de habitação dos espíritos dos mortos, tendo duas divisões, uma para os justos e a outra para os ímpios. A divisão habitada pelos espíritos dos justos era o limbus patrum, que os judeus conheciam como seio de Abraão, Lc 16.23, e paraíso, Lc 23.43. Afirma-se que o céu não foi aberto para nenhum homem, enquanto Cristo não realizou a propiciação pelo pecado do mundo.
3. O LIMBUS INFANTUM. Este é o lugar de habitação das almas de todas as crianças não batizadas, independentemente de sua descendência, que de pagãos, quer de cristãos. De acordo com a Igreja Católica Romana, as crianças não batizadas não podem ser admitidas no céu, não podem entrar no reino de Deus, Jo 3.5. Sempre houve natural repugnância, porém, pela idéia de que essas crianças devem ser torturadas no inferno, e os teólogos católicos romanos procuraram um meio de escapar da dificuldade. Alguns achavam que tais crianças talvez sejam salvas pela fé dos pais, e outros, que Deus pode comissionar os anjos para batiza-las. Mas a opinião predominante é que, embora excluídas do céu, é-lhes destinado um lugar situado nas bordas do inferno, aonde não chegam as chamas terríveis. Elas permanecem nesse lugar para sempre, sem nenhuma esperança de livramento. A igreja de Roma jamais definiu a doutrina do limbus infantum, e as opiniões dos teólogos variam quanto às precisas condições das crianças ali confinadas. Todavia prevalece a opinião de que elas não sofrem nenhuma punição positiva, nenhuma “dor dos sentidos”, mas simplesmente estão excluídas das bênçãos do céu. Elas conhecem e amam a Deus pelo uso das suas faculdades naturais, e gozam completa felicidade natural.
(Berkhof, L – Teologia Sistemática Pg 691)
PURGATÓRIO
De acordo com a igreja de Roma, as almas dos que são perfeitamente puros por ocasião da morte são imediatamente admitidos no céu ou na visão beatífica de Deus, Mt 25.46; Fp 1.23; mas os que não se acham perfeitamente purificados, que ainda levam sobre si a culpa de pecados veniais e não sofreram o castigo temporal devido aos seus pecados – e esta é a condição da maioria dos fiéis quando morrem – têm que se submeter a um processo de purificação, antes de poderem entrar nas supremas alegrias e bem-aventurança do céu. Em vez de entrarem imediatamente no céu, entram no purgatório.
O purgatório não é um lugar de prova (ou de segunda oportunidade), mas de purificação e de preparação para as almas dos crentes que têm a segurança de uma entrada final no céu, mas ainda não estão prontas para apossar-se da felicidade da visão beatífica. Durante a estada dessas almas no purgatório, elas sofrem a dor da perda, isto é, a angústia resultante do fato de que estão excluídas da bendita visão de Deus, e também padecem “castigo dos sentidos”, isto é, sofrem dores positivas, que afligem a alma. A extensão da sua permanência no purgatório não pode ser determinada de antemão. A duração, como também a intensidade dos seus sofrimentos, variam de acordo com o grau de purificação ainda necessitado. Elas podem ser abreviadas e aliviadas pelas orações e boas obras dos fiéis na terra, e especialmente pelo sacrifício da missa. É possível que alguém fique no purgatório até ao dia do juízo final. Supõe-se que o papa tem jurisdição sobre o purgatório. É sua prerrogativa peculiar conceder indulgências, abrandar os sofrimentos purgatoriais e até acabar com eles.
O principal apoio para esta doutrina acha-se em 2 Macabeus 12.42-45, e, portanto, num livro não reconhecido como canônico pelos protestantes.* Mas esta passagem prova demais, isto é, mais do que os próprios católicos romanos podem admitir coerentemente, a saber, a possível libertação do purgatório, de soldados que tinham morrido no pecado mortal da idolatria.
Também se supõe que certas passagens favorecem essa doutrina, como Is 4.4; Mq 7.8; Zc 9.11; Ml 3.2, 3; Mt 12.32; 1 Co 3.13-15; 15.29. Contudo, é mais que evidente que essas passagens só podem ser levadas a dar suporte à doutrina do purgatório mediante uma exegese forçada. A doutrina não acha suporte nenhum na Escritura, e, além disso, firma-se em várias premissas falsas, tais como: (a) que devemos acrescentar algo à obra realizada por Cristo; (b) que as nossas boas obras são meritórias no sentido estrito da palavra; (c) que podemos realizar obras de supererrogação, obras que excedem o que o dever manda; e (d) que o poder das chaves, que a igreja detém, é absoluto, num sentido judicial. Segundo esse poder, a igreja pode encurtar, suavizar e até mesmo terminar os sofrimentos do purgatório.
(Berkhof, L – Teologia Sistemática Pg 690)
O purgatório não é um lugar de prova (ou de segunda oportunidade), mas de purificação e de preparação para as almas dos crentes que têm a segurança de uma entrada final no céu, mas ainda não estão prontas para apossar-se da felicidade da visão beatífica. Durante a estada dessas almas no purgatório, elas sofrem a dor da perda, isto é, a angústia resultante do fato de que estão excluídas da bendita visão de Deus, e também padecem “castigo dos sentidos”, isto é, sofrem dores positivas, que afligem a alma. A extensão da sua permanência no purgatório não pode ser determinada de antemão. A duração, como também a intensidade dos seus sofrimentos, variam de acordo com o grau de purificação ainda necessitado. Elas podem ser abreviadas e aliviadas pelas orações e boas obras dos fiéis na terra, e especialmente pelo sacrifício da missa. É possível que alguém fique no purgatório até ao dia do juízo final. Supõe-se que o papa tem jurisdição sobre o purgatório. É sua prerrogativa peculiar conceder indulgências, abrandar os sofrimentos purgatoriais e até acabar com eles.
O principal apoio para esta doutrina acha-se em 2 Macabeus 12.42-45, e, portanto, num livro não reconhecido como canônico pelos protestantes.* Mas esta passagem prova demais, isto é, mais do que os próprios católicos romanos podem admitir coerentemente, a saber, a possível libertação do purgatório, de soldados que tinham morrido no pecado mortal da idolatria.
Também se supõe que certas passagens favorecem essa doutrina, como Is 4.4; Mq 7.8; Zc 9.11; Ml 3.2, 3; Mt 12.32; 1 Co 3.13-15; 15.29. Contudo, é mais que evidente que essas passagens só podem ser levadas a dar suporte à doutrina do purgatório mediante uma exegese forçada. A doutrina não acha suporte nenhum na Escritura, e, além disso, firma-se em várias premissas falsas, tais como: (a) que devemos acrescentar algo à obra realizada por Cristo; (b) que as nossas boas obras são meritórias no sentido estrito da palavra; (c) que podemos realizar obras de supererrogação, obras que excedem o que o dever manda; e (d) que o poder das chaves, que a igreja detém, é absoluto, num sentido judicial. Segundo esse poder, a igreja pode encurtar, suavizar e até mesmo terminar os sofrimentos do purgatório.
(Berkhof, L – Teologia Sistemática Pg 690)
O LIMBUS PATRUM
A palavra latina limbus (orla, borda) era empregada na Idade Média para denotar dois lugares na orla ou na borda do inferno, a saber, o limbus patrum (dos pais) e o limbus infantum (das crianças). Aquele era o lugar onde, segundo os ensinos de Roma, as almas dos santos do Velho Testamento ficaram detidos, num estado de expectativa, até a ressurreição do Senhor dentre os mortos. Supõe-se que, após Sua morte na cruz, Cristo desceu ao lugar de habitação dos pais para livra-los do seu confinamento temporário e levá-los em triunfo para o céu. Esta é a interpretação católica romana da descida de Cristo ao hades. O hades é considerado como o lugar de habitação dos espíritos dos mortos, tendo duas divisões, uma para os justos e a outra para os ímpios. A divisão habitada pelos espíritos dos justos era o limbus patrum, que os judeus conheciam como seio de Abraão, Lc 16.23, e paraíso, Lc 23.43. Afirma-se que o céu não foi aberto para nenhum homem, enquanto Cristo não realizou a propiciação pelo pecado do mundo.
(Berkhof, L – Teologia Sistemática Pg 690)
(Berkhof, L – Teologia Sistemática Pg 690)
O LIMBUS INFANTUM
Este é o lugar de habitação das almas de todas as crianças não batizadas, independentemente de sua descendência, que de pagãos, quer de cristãos. De acordo com a Igreja Católica Romana, as crianças não batizadas não podem ser admitidas no céu, não podem entrar no reino de Deus, Jo 3.5. Sempre houve natural repugnância, porém, pela idéia de que essas crianças devem ser torturadas no inferno, e os teólogos católicos romanos procuraram um meio de escapar da dificuldade. Alguns achavam que tais crianças talvez sejam salvas pela fé dos pais, e outros, que Deus pode comissionar os anjos para batiza-las. Mas a opinião predominante é que, embora excluídas do céu, é-lhes destinado um lugar situado nas bordas do inferno, aonde não chegam as chamas terríveis. Elas permanecem nesse lugar para sempre, sem nenhuma esperança de livramento. A igreja de Roma jamais definiu a doutrina do limbus infantum, e as opiniões dos teólogos variam quanto às precisas condições das crianças ali confinadas. Todavia prevalece a opinião de que elas não sofrem nenhuma punição positiva, nenhuma “dor dos sentidos”, mas simplesmente estão excluídas das bênçãos do céu. Elas conhecem e amam a Deus pelo uso das suas faculdades naturais, e gozam completa felicidade natural.
(Berkhof, L – Teologia Sistemática Pg 691)
(Berkhof, L – Teologia Sistemática Pg 691)
O Estado da Alma Depois da Morte, Um Estado de Existência Consciente
1. O ENSINO DA ESCRITURA SOBRE ESTE PONTO. Tem-se levantado a questão dobre se, após a morte, a alma continua ativamente consciente e é capaz de ação racional e religiosa. Por vezes isso tem sido negado, sobre a base geral de que a alma, em sua atividade consciente, depende do cérebro e, portanto, não pode continuar a funcionar quando o cérebro é destruído. Mas, como já foi assinalado anteriormente (III.D), a validade desse argumento pode ser posta em dúvida. “Ele se baseia”, para usar as palavras de Dahle, “no erro de confundir o operário com a sua máquina”. Do fato de que a consciência humana, na presente vida, transmite os seus efeitos pelo cérebro, não se segue necessariamente que não possa agir de nenhum outro modo. Ao argumentarmos a favor da existência consciente da alma depois da morte, não nos apoiamos nos fenômenos do espiritismo dos dias atuais, e nem mesmo dependemos de argumentos filosóficos, embora estes não sejam destituídos de força. Buscamos nossas provas na Palavra de Deus, e particularmente no Novo Testamento. O rico e Lázaro participam de uma conversação, Lc 16.19-31. Paulo descreve o estado desencarnado como “habitar com o Senhor”, e como uma coisa preferível à vida presente, 2 Co 5.6-9; Fp 1.23. Decerto que dificilmente ele falaria dessa maneira acerca de uma existência inconsciente, que seria uma virtual não existência. Em Hb 12.23 se diz que os crentes têm chegado “aos espíritos dos justos aperfeiçoados”, o que certamente implica sua existência consciente. Além disso, os espíritos debaixo do altar clamam por vingança contra os perseguidores da igreja, Ap 6.9, e se afirma que as almas dos mártires reinam com Cristo, Ap 20.4. Esta verdade da existência consciente da alma depois da morte tem sido negada em mais de uma forma.
(Berkhof, L – Teologia Sistemática Pg 691)
(Berkhof, L – Teologia Sistemática Pg 691)
A DOUTRINA DO SONO DA ALMA (PSICOPANIQUIA)
a. Exposição da doutrina. Esta é uma das formas em que a existência consciente da alma depois da morte é negada. Ela afirma que, depois da morte, a alma continua a existir como um ser espiritual individual, mas num estado de repouso inconsciente. Eusébio faz menção de uma pequena seita da Arábia que tinha esse conceito. Durante a Idade Média havia bem poucos dos chamados psicopaniquianos, e na época da Reforma esse erro era defendido por alguns anabatistas. Calvino chegou a escrever um tratado contra eles, intitulado Psychopanychia. No século dezenove esta doutrina era propugnada por alguns dos irvingitas* da Inglaterra, e nos nossos dias é uma das doutrinas favoritas dos russelitas ou dos sectários da aurora do milênio nos Estados Unidos. Segundo estes últimos, o corpo e a alma descem à sepultura, a alma num estado de sono que de fato equivale a um estado de não existência. O que é chamado ressurreição, na realidade é uma nova criação. Durante o milênio os ímpios terão uma segunda oportunidade, mas, se eles não mostrarem um assinalado melhoramento durante os cem primeiros anos, serão aniquilados. Se nesse período evidenciarem alguma correção da vida, continuarão em prova, mas somente para acabar na aniquilação, se permanecerem impenitentes. Não existe inferno, não existe nenhum lugar de tormento eterno. A doutrina do sono da alma parece exercer peculiar fascínio sobre os que acham difícil acreditar na continuidade da vida consciente fora do organismo corpóreo.
b. Suposta base bíblica desta doutrina. A prova escriturística desta doutrina acha-se especialmente no seguinte: (1) Muitas vezes a Escritura descreve a morte como um sono, Mt 9.24; At 7.60; 1 Co 15.51; 1 Ts 4.13. Este sono, dizem, não pode ser sono do corpo, e, portanto, só pode ser sono da alma. (2) Certas passagens da Escritura ensinam que os mortos estão inconscientes, Sl 6.5; 30.9; 115.17; 146.4; Ec 9.10; Is 38.18, 19. Isto vai contra a idéia de que a alma continua sua existência consciente. (3) A Bíblia ensina que os destinos dos homens serão determinados por um julgamento final e que haverá surpresa para alguns. Conseqüentemente, é impossível imaginar que a alma entra em seu destino imediatamente após a morte, Mt 7.22, 23; 25.37-39, 44; Jo 5.29; 2 Co 5.10; Ap 20.12, 13. (4) nenhum dos que ressuscitaram dentre os mortos jamais deu algum relato das suas experiências. Pode-se entender melhor isso com a suposição de que as almas estavam inconscientes, em seu estado desencarnado.
c. Consideração dos argumentos apresentados. Os argumentos supra mencionados podem ser respondidos como segue, na ordem em que foram expostos: (1) Deve-se notar que a Bíblia nunca diz que a alma cai no sono, nem que o corpo cai no sono, mas somente que a pessoa que morre o faz. E esta descrição escriturística baseia-se simplesmente na similaridade existente entre um corpo e um corpo dormente. Não é improvável que a Escritura empregue esta expressão eufemística a fim de lembrar aos crentes a consoladora esperança da ressurreição. Além disso, a morte é um rompimento com a vida do mundo que nos rodeia e, neste sentido, é sono, é repouso. Finalmente, não devemos esquecer que a Bíblia retrata os crentes como desfrutando vida consciente na comunhão com Deus e com Jesus imediatamente após a morte, Lc 16.19-31; 23.43; At 7.59; 2 Co 5.8; Fp 1.23; Ap 6.9; 7.9; 20.4. (2) As passagens que parecem ensinar que os mortos estão inconscientes visam claramente a salientar o fato de que , no estado de morte, o homem não pode mais tomar parte nas atividades do presente mundo. Diz Hovey: “A obra do artista é interrompida, a voz do cantor é silenciada, o cetro do rei cai. O corpo volta ao pó, e o louvor de Deus neste mundo cessa para sempre”. (3) às vezes se faz descrição como se o destino eterno do homem dependesse de um julgamento no ultimo dia, mas evidentemente isso é um engano. O dia do juízo não é necessário para chegar-se a uma decisão a respeito da recompensa ou da punição de cada homem, mas somente para o solene anúncio da sentença, e para a revelação da justiça de Deus na presença dos homens e dos anjos. A surpresa evidenciada por algumas passagens tem que ver com a base sobre a qual o julgamento repousa, e não com o julgamento propriamente dito. (4) É verdade que não lemos que algum dos que ressuscitaram dentre os mortos alguma vez tenha contado as experiências pelas quais passou entre a sua morte e a sua ressurreição. Mas este é um simples argumento extraído do silêncio, argumento completamente sem valor neste caso, desde que a Bíblia ensina claramente a existência consciente dos mortos. Todavia, pode muito bem ser que as pessoas se mantivessem caladas acerca das experiências, mas isto pode ser prontamente explicado partindo-se do pressuposto de que não lhes foi permitido falar delas, ou que não podiam relatá-las com linguagem humana. Cf. 2 Co 12.4.
(Berkhof, L – Teologia Sistemática Pg 693)
b. Suposta base bíblica desta doutrina. A prova escriturística desta doutrina acha-se especialmente no seguinte: (1) Muitas vezes a Escritura descreve a morte como um sono, Mt 9.24; At 7.60; 1 Co 15.51; 1 Ts 4.13. Este sono, dizem, não pode ser sono do corpo, e, portanto, só pode ser sono da alma. (2) Certas passagens da Escritura ensinam que os mortos estão inconscientes, Sl 6.5; 30.9; 115.17; 146.4; Ec 9.10; Is 38.18, 19. Isto vai contra a idéia de que a alma continua sua existência consciente. (3) A Bíblia ensina que os destinos dos homens serão determinados por um julgamento final e que haverá surpresa para alguns. Conseqüentemente, é impossível imaginar que a alma entra em seu destino imediatamente após a morte, Mt 7.22, 23; 25.37-39, 44; Jo 5.29; 2 Co 5.10; Ap 20.12, 13. (4) nenhum dos que ressuscitaram dentre os mortos jamais deu algum relato das suas experiências. Pode-se entender melhor isso com a suposição de que as almas estavam inconscientes, em seu estado desencarnado.
c. Consideração dos argumentos apresentados. Os argumentos supra mencionados podem ser respondidos como segue, na ordem em que foram expostos: (1) Deve-se notar que a Bíblia nunca diz que a alma cai no sono, nem que o corpo cai no sono, mas somente que a pessoa que morre o faz. E esta descrição escriturística baseia-se simplesmente na similaridade existente entre um corpo e um corpo dormente. Não é improvável que a Escritura empregue esta expressão eufemística a fim de lembrar aos crentes a consoladora esperança da ressurreição. Além disso, a morte é um rompimento com a vida do mundo que nos rodeia e, neste sentido, é sono, é repouso. Finalmente, não devemos esquecer que a Bíblia retrata os crentes como desfrutando vida consciente na comunhão com Deus e com Jesus imediatamente após a morte, Lc 16.19-31; 23.43; At 7.59; 2 Co 5.8; Fp 1.23; Ap 6.9; 7.9; 20.4. (2) As passagens que parecem ensinar que os mortos estão inconscientes visam claramente a salientar o fato de que , no estado de morte, o homem não pode mais tomar parte nas atividades do presente mundo. Diz Hovey: “A obra do artista é interrompida, a voz do cantor é silenciada, o cetro do rei cai. O corpo volta ao pó, e o louvor de Deus neste mundo cessa para sempre”. (3) às vezes se faz descrição como se o destino eterno do homem dependesse de um julgamento no ultimo dia, mas evidentemente isso é um engano. O dia do juízo não é necessário para chegar-se a uma decisão a respeito da recompensa ou da punição de cada homem, mas somente para o solene anúncio da sentença, e para a revelação da justiça de Deus na presença dos homens e dos anjos. A surpresa evidenciada por algumas passagens tem que ver com a base sobre a qual o julgamento repousa, e não com o julgamento propriamente dito. (4) É verdade que não lemos que algum dos que ressuscitaram dentre os mortos alguma vez tenha contado as experiências pelas quais passou entre a sua morte e a sua ressurreição. Mas este é um simples argumento extraído do silêncio, argumento completamente sem valor neste caso, desde que a Bíblia ensina claramente a existência consciente dos mortos. Todavia, pode muito bem ser que as pessoas se mantivessem caladas acerca das experiências, mas isto pode ser prontamente explicado partindo-se do pressuposto de que não lhes foi permitido falar delas, ou que não podiam relatá-las com linguagem humana. Cf. 2 Co 12.4.
(Berkhof, L – Teologia Sistemática Pg 693)
AS DOUTRINAS DO EXTINCIONISMO E DA IMORTALIDADE CONDICIONAL
a. Exposição destas doutrinas. De acordo com estas doutrinas, não há existência consciente, se é que há alguma existência, dos ímpios após a morte. Ambas estão unidas em sua concepção do estado dos ímpios após a morte, mas divergem num par de pontos fundamentais. O extincionismo ensina que o homem foi criado imortal, mas que a alma, que continua em pecado, está privada, por um ato positivo de Deus, do dom da imortalidade e, finalmente, é destruída, ou (segundo alguns), para sempre é despojada da consciência, o que equivale praticamente a ser reduzida à não existência. Por outro lado, segundo a doutrina da imortalidade condicional, a imortalidade não é um dote natural da alma, mas um dom de Deus em Cristo aos que crêem. A alma que não aceita a Cristo, finalmente deixa de existir, ou perde toda a consciência. Alguns dos defensores destas doutrinas ensinam uma duração limitada de sofrimentos conscientes para os ímpios na vida futura, e, assim, conservam algo da idéia de punição positiva.
b. Estas doutrinas na história. A doutrina do extincionismo foi ensinada por Arnóbio e pelos primeiros socinianos, como também pelos filósofos Locke e Hobbes, mas não foi popular em sua forma originária. No século anterior ao nosso, porém, a antiga idéia da aniquilação foi revivida com algumas modificações, com o nome de imortalidade condicional, e em sua nova forma encontrou considerável apoio. Foi defendida por E. White, J. B. Heard, pelos prebendados Constable e Row, na Inglaterra, por Richard Rothe na Alemanha, por A. Sabatier em França, por E. Petavel e Ch. Secretan na Suíça, e por C. F. Hudson, W. R. Huntingon, L.C. Baker e L.W. Bacon em nosso país (Estados Unidos da América), e, portanto, merece atenção especial. Nem todos colocam a doutrina na mesma forma, mas todos concordam na posição fundamental de que o homem não é imortal em virtude da sua constituição original, mas é feito imortal por um ato ou dom especial da graça. No que se refere aos ímpios, alguns afirmam que eles conservam mera existência, embora com total perda da consciência, enquanto outros asseveram que eles perecem completamente, como os animais, conquanto isto possa ocorrer depois de períodos mais longos ou mais curtos de sofrimento.
c. Argumentos aduzidos em favor desta doutrina. Acha-se suporte para esta doutrina, em parte na linguagem de alguns dos chamados pais primitivos da igreja, que parece também nalgumas das mais recentes teorias da ciência, que negam que haja alguma prova científica da imortalidade da alma. Contudo, o principal suporte para ela é procurado na Escritura. O que se diz é que a Bíblia: (1) ensina que somente Deus é inerentemente imortal, 1 Tm 6.16; (2) nunca fala da imortalidade da alma em geral, mas apresenta a imortalidade como um dom de Deus aos que estão em Cristo Jesus, Jo 10.27, 28; 17.3; Rm 2.7; 6.22, 23; Gl 6.8; e (3) ameaça os pecadores com a “morte” e com “destruição”, afirmando que eles “perecerão”, termos que devem ser entendidos no sentido de que os descrentes serão reduzidos à não existência, Mt 7.13; 10.28; Jo 3.16; Rm 6.23; 8.13; 2 Ts 1.9.
d. Consideração destes argumentos. Não se pode dizer que os argumentos em favor desta doutrina são conclusivos. A linguagem dos chamados pais primitivos da igreja nem sempre é exata e coerente, e admite outra interpretação. E, no geral, o pensamento especulativo dos séculos tem sido favorável à doutrina da imortalidade da alma, ao passo que a ciência não tem sucesso ao reprová-la. Os argumentos escriturísticos podem ser respondidos em ordem, como segue: (1) Deus é de fato o único ser que tem imortalidade inerente. A imortalidade do homem é derivada, mas isto não é o mesmo que dizer que ele não a possui em virtude da sua criação. (2) No segundo argumento, a mera imortalidade ou existência continuada da alma é confundida com a vida eterna, quando esta constitui um conceito muito mais rico. A vida eterna é, na verdade, dom de Deus em Jesus Cristo, dom que os ímpios não recebem, mas isto não significa que eles não continuarão existindo. (3) O último argumento pressupõe arbitrariamente que os termos “morte”, “destruição” e “perecer” denotam uma redução à não existência. Só o literalismo mais cru pode afirmar isto, e, neste caso, unicamente em conexão com algumas das passagens citadas pelos defensores desta teoria.
e. Argumentos contra esta doutrina. A doutrina da imortalidade condicional é claramente contraditada pela Escritura onde esta ensina: (1) que os pecadores, como os santos, continuarão a existir para sempre, Ec 12.7; Mt 25.46; Rm 2.8-10; Ap 14.11; 20.10; (2) que os ímpios sofrerão punição eterna, o que significa que estarão para sempre cônscios de uma dor que reconhecerão como seu justo prêmio, e, portanto, não serão aniquilados, cf. as passagens recém-mencionadas; e (3) que haverá graus na punição dos ímpios, enquanto que a extinção do ser ou da consciência não admite graus, mas constitui uma punição igual para todos, Lc 12.47, 48; Rm 2.12
As seguintes ponderações também são decididamente opostas a esta doutrina particular: (1) A aniquilação seria contrária a toda analogia. Deus não aniquila a Sua obra, por mais que possa mudar-lhe a forma. A idéia bíblica da morte não tem nada em comum com a aniquilação ou extinção. A vida e a morte são opostos exatos na Escritura. Se a morte significasse a continuação destes; mas o fato é que significa muito mais que isso, cf. Rm 8.6; 1 Tm 4.8; 1 Jo 3.14. O termo tem uma conotação espiritual, o mesmo acontecendo com a palavra morte. O homem está espiritualmente morto antes de cair presa da morte física, mas isso não envolve perda do ser ou da consciência, Ef 2.1, 2; 1 Tm 5.6; Cl 2.13; Ap 3.1. (2) Dificilmente se pode dizer que a aniquilação é uma punição, desde que esta implica consciência de sofrimento e demérito, ao passo que, quando termina a existência, cessa também a consciência. Poder-se-ia dizer, no máximo, que o medo da aniquilação é uma punição, mas esta punição não seria proporcional à transgressão. E, naturalmente, o medo do homem que nunca teve dentro de si a centelha da imortalidade, jamais será igual ao daquele que tem a eternidade em seu coração, Ec 3.11. (3) Muitas vezes sucede que as pessoas consideram a extinção do ser e da consciência uma coisa muito desejável, quando se cansam da vida. Para elas, essa punição seria na realidade uma bênção.
(Berkhof, L – Teologia Sistemática Pg 695)
b. Estas doutrinas na história. A doutrina do extincionismo foi ensinada por Arnóbio e pelos primeiros socinianos, como também pelos filósofos Locke e Hobbes, mas não foi popular em sua forma originária. No século anterior ao nosso, porém, a antiga idéia da aniquilação foi revivida com algumas modificações, com o nome de imortalidade condicional, e em sua nova forma encontrou considerável apoio. Foi defendida por E. White, J. B. Heard, pelos prebendados Constable e Row, na Inglaterra, por Richard Rothe na Alemanha, por A. Sabatier em França, por E. Petavel e Ch. Secretan na Suíça, e por C. F. Hudson, W. R. Huntingon, L.C. Baker e L.W. Bacon em nosso país (Estados Unidos da América), e, portanto, merece atenção especial. Nem todos colocam a doutrina na mesma forma, mas todos concordam na posição fundamental de que o homem não é imortal em virtude da sua constituição original, mas é feito imortal por um ato ou dom especial da graça. No que se refere aos ímpios, alguns afirmam que eles conservam mera existência, embora com total perda da consciência, enquanto outros asseveram que eles perecem completamente, como os animais, conquanto isto possa ocorrer depois de períodos mais longos ou mais curtos de sofrimento.
c. Argumentos aduzidos em favor desta doutrina. Acha-se suporte para esta doutrina, em parte na linguagem de alguns dos chamados pais primitivos da igreja, que parece também nalgumas das mais recentes teorias da ciência, que negam que haja alguma prova científica da imortalidade da alma. Contudo, o principal suporte para ela é procurado na Escritura. O que se diz é que a Bíblia: (1) ensina que somente Deus é inerentemente imortal, 1 Tm 6.16; (2) nunca fala da imortalidade da alma em geral, mas apresenta a imortalidade como um dom de Deus aos que estão em Cristo Jesus, Jo 10.27, 28; 17.3; Rm 2.7; 6.22, 23; Gl 6.8; e (3) ameaça os pecadores com a “morte” e com “destruição”, afirmando que eles “perecerão”, termos que devem ser entendidos no sentido de que os descrentes serão reduzidos à não existência, Mt 7.13; 10.28; Jo 3.16; Rm 6.23; 8.13; 2 Ts 1.9.
d. Consideração destes argumentos. Não se pode dizer que os argumentos em favor desta doutrina são conclusivos. A linguagem dos chamados pais primitivos da igreja nem sempre é exata e coerente, e admite outra interpretação. E, no geral, o pensamento especulativo dos séculos tem sido favorável à doutrina da imortalidade da alma, ao passo que a ciência não tem sucesso ao reprová-la. Os argumentos escriturísticos podem ser respondidos em ordem, como segue: (1) Deus é de fato o único ser que tem imortalidade inerente. A imortalidade do homem é derivada, mas isto não é o mesmo que dizer que ele não a possui em virtude da sua criação. (2) No segundo argumento, a mera imortalidade ou existência continuada da alma é confundida com a vida eterna, quando esta constitui um conceito muito mais rico. A vida eterna é, na verdade, dom de Deus em Jesus Cristo, dom que os ímpios não recebem, mas isto não significa que eles não continuarão existindo. (3) O último argumento pressupõe arbitrariamente que os termos “morte”, “destruição” e “perecer” denotam uma redução à não existência. Só o literalismo mais cru pode afirmar isto, e, neste caso, unicamente em conexão com algumas das passagens citadas pelos defensores desta teoria.
e. Argumentos contra esta doutrina. A doutrina da imortalidade condicional é claramente contraditada pela Escritura onde esta ensina: (1) que os pecadores, como os santos, continuarão a existir para sempre, Ec 12.7; Mt 25.46; Rm 2.8-10; Ap 14.11; 20.10; (2) que os ímpios sofrerão punição eterna, o que significa que estarão para sempre cônscios de uma dor que reconhecerão como seu justo prêmio, e, portanto, não serão aniquilados, cf. as passagens recém-mencionadas; e (3) que haverá graus na punição dos ímpios, enquanto que a extinção do ser ou da consciência não admite graus, mas constitui uma punição igual para todos, Lc 12.47, 48; Rm 2.12
As seguintes ponderações também são decididamente opostas a esta doutrina particular: (1) A aniquilação seria contrária a toda analogia. Deus não aniquila a Sua obra, por mais que possa mudar-lhe a forma. A idéia bíblica da morte não tem nada em comum com a aniquilação ou extinção. A vida e a morte são opostos exatos na Escritura. Se a morte significasse a continuação destes; mas o fato é que significa muito mais que isso, cf. Rm 8.6; 1 Tm 4.8; 1 Jo 3.14. O termo tem uma conotação espiritual, o mesmo acontecendo com a palavra morte. O homem está espiritualmente morto antes de cair presa da morte física, mas isso não envolve perda do ser ou da consciência, Ef 2.1, 2; 1 Tm 5.6; Cl 2.13; Ap 3.1. (2) Dificilmente se pode dizer que a aniquilação é uma punição, desde que esta implica consciência de sofrimento e demérito, ao passo que, quando termina a existência, cessa também a consciência. Poder-se-ia dizer, no máximo, que o medo da aniquilação é uma punição, mas esta punição não seria proporcional à transgressão. E, naturalmente, o medo do homem que nunca teve dentro de si a centelha da imortalidade, jamais será igual ao daquele que tem a eternidade em seu coração, Ec 3.11. (3) Muitas vezes sucede que as pessoas consideram a extinção do ser e da consciência uma coisa muito desejável, quando se cansam da vida. Para elas, essa punição seria na realidade uma bênção.
(Berkhof, L – Teologia Sistemática Pg 695)
O Estado Intermediário não é um Estado de Provação ou Prova Posterior
1. EXPOSIÇÃO DA DOUTRINA. A teoria da “segunda prova”, assim chamada, encontrou considerável apoio no mundo teológico do século dezenove. Ela é defendida além de doutros, por Mueller, Dorner e Nitzsch na Alemanha, por Godet e Gretillat na Suíça, por Maurício, Farrar e Plumptre na Inglaterra, e por Newman Smythe, Munger, Cox, Jukes e vários outros teólogos de Andover nos Estados Unidos. Essa teoria pretende que a salvação mediante Cristo é possível no estado intermediário para certas classes de pessoas, ou talvez para todas; e que é oferecida nos mesmos termos como no presente, a saber, a fé em Cristo como Salvador. Cristo é dado a conhecer a todos os que ainda necessitam dele para a salvação, e todos são instados a aceita-lo. Ninguém é condenado sem ser submetido a esta prova, e só são condenados os que resistem a esta oferta da graça. O estado eterno do homem não será fixado irrevogavelmente enquanto não chegar o dia do juízo. A decisão tomada entre a morte e a ressurreição decidirá se a pessoa será salva ou não. O principio fundamental sobre o qual repousa essa teoria é que nenhum homem perecerá sem receber o oferecimento de uma oportunidade favorável para conhecer e aceitar a Jesus. O homem só é condenado por sua obstinada recusa a aceitar a salvação oferecida em Jesus Cristo. Contudo, as opiniões diferem quanto às pessoas às quais a graça divina oferecerá a oportunidade de aceitar a Cristo no estado intermediário. A opinião geral é que certamente será estendida a todas as crianças falecidas na infância e aos pagãos adultos que nesta vida não ouviram falar de Cristo. A maioria sustenta que será concedida até mesmo aos que, tendo vivido em terras cristãs, na presente vida nunca consideraram apropriadamente as reivindicações de Cristo. Há, ainda, grande diversidade de opiniões quanto à instrumentalidade e aos métodos pelos quais essa obra salvadora será levada a efeito no futuro. Além disso, enquanto alguns alimentam as maiores esperanças quanto aos resultados dessa ora, outros são menos entusiasmados em suas expectativas.
2. FUNDAMENTO EM QUE SE BASEIA ESTA DOUTRINA. Essa teoria se funda, em parte, em considerações gerais daquilo que se poderia esperar do amor e da justiça de Deus, e num desejo facilmente compreensível de dar à obra da graça de Cristo Jesus amplitude tão inclusiva quanto possível, e não nalgum sólido alicerce escriturístico. Sua principal base bíblica acha-se em 1 Pe 3.19 e 4.6, com o entendimento de que estas passagens ensinam que Cristo, no período compreendido entre a Sua morte e a Sua ressurreição, pregou aos espíritos no hades. Mas estas passagens dão um fundamento assaz precário, visto que permitem uma interpretação completamente diferente. E mesmo que estas passagens ensinassem que Cristo de fato foi ao mundo subterrâneo para pregar, Seu oferecimento de salvação se estenderia somente aos que tinham morrido antes da Sua crucificação. Eles se referem também a passagens que, em sua opinião, apresentam a incredulidade como a única base para a condenação, tais como, Jo 3.18, 36; Mc 16.15, 16; Rm 10.9-12; Ef 4.18; 2 Pe 2.3, 4; 1 Jo 4.3. Mas estas passagens só provam que a fé em Cristo é o único meio de salvação, o que de modo nenhum equivale a provar que uma consciente rejeição de Cristo é a única base da condenação. A incredulidade é, sem dúvida, um grande pecado, pecado que sobressai em proeminente destaque nas vidas daqueles a quem Cristo é pregado, mas não é a única forma de revolta contra Deus, nem a única base da condenação. Os homens já estão sob condenação quando Cristo lhes é oferecido. Outras passagens, como Mt 13.31, 32; 1 Co 14.24-28; Fp 2.9-11, são igualmente inconclusivas. Algumas delas provam demais e, portanto, nada provam.
3. ARGUMENTOS CONTRA ESTA DOUTRINA. As seguintes considerações podem ser dirigidas contra essa teoria: (a) A Escritura descreve o estado dos descrentes após a morte como um estado fixo. A passagem mais importante a considerar aqui é Lc 16.19-31. Outras passagens são Ec 11.3 (de interpretação incerta); Jo 8,21, 24; 2 Pe 2.4, 9; Jd 7.13 (comp. 1 Pe 3.19). (b) Invariavelmente descreve também o juízo final vindouro como determinado pelas coisas feitas na carne, e nunca fala dele como de algum modo dependente do ocorrido no estado intermediário, Mt 7.22, 23; 10.32, 33; 25.34-46; Lc 12.47, 48; 2 Co 5.9, 10; Gl 6.7,8; 2 Ts 1.8; Hb 9.27. (c) o principio fundamental dessa teoria, segundo o qual unicamente a consciente rejeição de Cristo e Seu Evangelho leva os homens a perecerem, é antibíblico. O homem está perdido por natureza, e mesmo o peado original, bem como os pecados atuais, o torna digno de condenação. A rejeição de Cristo é, indubitavelmente, um grande pecado, mas nunca é apresentada como o único pecado que leva à destruição do pecador. (d) A Escritura nos ensina que os gentios perecem, Rm 1.32; 2.12; Ap. 21.8. Não há na Escritura nenhuma evidencia em que possamos basear a esperança de que gentios adultos, ou mesmo crianças gentílicas que não chegaram aos anos da discrição, serão salvos. (e) A teoria da prova futura leva à extinção de todo o fervor missionário. Se os gentios podem decidir quanto à aceitação de Cristo no futuro, isso só pode resultar num juízo mais rápido e maior para muitos, se são postos ante a escolha agora. Por que não deixa-los na ignorância pelo Maximo de tempo possível?
QUESTIONÁRIO PARA PESQUISA: 1. É sustentável a posição de que o sheol-hades sempre designa um mundo subterrâneo para onde vão todos os mortos? 2. Por que é objetável a crença em que a Bíblia, em suas afirmações sobre o sheol e hades, simplesmente reflete as noções populares da época? 3. Devemos supor que, por ocasião da morte, os justos e os ímpios entram nalguma habitação temporária e provisória, e não imediatamente em seu destino eterno? 4. Em que sentido o estado intermediário é apenas transitivo? 5. Como surgiu a noção do purgatório? 6. Como os católicos romanos concebem o fogo purgatorial? 7. Esse fogo é meramente purificador, ou também penal? 8. Que bom elemento alguns luteranos vêem na doutrina do purgatório? 9. Que mescla de heresias encontramos na seita conhecida como “aurora do milênio”? 10. O estado intermediário, de acordo com a Escritura, representa um terceiro aion entre o aion houtos e o aion ho mellon? 11. a ênfase escriturística ao presente como “o dia da salvação” está em harmonia com a doutrina de uma prova futura?
BIBLIOGRAFIA PARA CONSULTA: Bavinck, Geref. Dogm. , p. 655-711; Kuyper, Dict. Dogm., De Consummatione Saeculi, p. 25-116; Vos, Geref. Dogm. V, Eschatologie, p. 3-14; Hodge, Syst., Theol. III, p. 713-770; Shedd, Dogm. Theol. II, p. 591-640; Dabney, Syst. and Polem. Theol., p. 823-829; Litton, Introd. to Dogm. Theol., p. 548-569; Valentine, Chr. Theol. II, p. 392-407; Pieper, Christ. Dogm. III, p. 574-578; Miley, Syst. Theol. II, p. 430-439; Wilmers, Handbook of the Chr. Rel., p. 385-391; Schaff, Our Father’s Faith and Ours, p. 412-431; Row, Future Retribution, p. 348-404; Shedd, Doctrine of Endless Punishment, p. 19-117; King, Future Retribution; Morris, Is There Salvation After Death?; Hovey, Eschatology, p. 79-144; Dahle, Life After Death, p. 118-227; Salmond, Chr. Doct. Of Immortality, cf. Índice; Mackintosh, Immortality and the Future, p. 195-228; Addison, Life Beyond Death, p. 200-214; De Bondt, Wat Leert Het Oude Testament Aangaande Her Leven Na Dit Leven?, p. 40-129; Kliefoth, Christl. Eschatologie, p. 32-126.
(Berkhof, L – Teologia Sistemática Pg697)
2. FUNDAMENTO EM QUE SE BASEIA ESTA DOUTRINA. Essa teoria se funda, em parte, em considerações gerais daquilo que se poderia esperar do amor e da justiça de Deus, e num desejo facilmente compreensível de dar à obra da graça de Cristo Jesus amplitude tão inclusiva quanto possível, e não nalgum sólido alicerce escriturístico. Sua principal base bíblica acha-se em 1 Pe 3.19 e 4.6, com o entendimento de que estas passagens ensinam que Cristo, no período compreendido entre a Sua morte e a Sua ressurreição, pregou aos espíritos no hades. Mas estas passagens dão um fundamento assaz precário, visto que permitem uma interpretação completamente diferente. E mesmo que estas passagens ensinassem que Cristo de fato foi ao mundo subterrâneo para pregar, Seu oferecimento de salvação se estenderia somente aos que tinham morrido antes da Sua crucificação. Eles se referem também a passagens que, em sua opinião, apresentam a incredulidade como a única base para a condenação, tais como, Jo 3.18, 36; Mc 16.15, 16; Rm 10.9-12; Ef 4.18; 2 Pe 2.3, 4; 1 Jo 4.3. Mas estas passagens só provam que a fé em Cristo é o único meio de salvação, o que de modo nenhum equivale a provar que uma consciente rejeição de Cristo é a única base da condenação. A incredulidade é, sem dúvida, um grande pecado, pecado que sobressai em proeminente destaque nas vidas daqueles a quem Cristo é pregado, mas não é a única forma de revolta contra Deus, nem a única base da condenação. Os homens já estão sob condenação quando Cristo lhes é oferecido. Outras passagens, como Mt 13.31, 32; 1 Co 14.24-28; Fp 2.9-11, são igualmente inconclusivas. Algumas delas provam demais e, portanto, nada provam.
3. ARGUMENTOS CONTRA ESTA DOUTRINA. As seguintes considerações podem ser dirigidas contra essa teoria: (a) A Escritura descreve o estado dos descrentes após a morte como um estado fixo. A passagem mais importante a considerar aqui é Lc 16.19-31. Outras passagens são Ec 11.3 (de interpretação incerta); Jo 8,21, 24; 2 Pe 2.4, 9; Jd 7.13 (comp. 1 Pe 3.19). (b) Invariavelmente descreve também o juízo final vindouro como determinado pelas coisas feitas na carne, e nunca fala dele como de algum modo dependente do ocorrido no estado intermediário, Mt 7.22, 23; 10.32, 33; 25.34-46; Lc 12.47, 48; 2 Co 5.9, 10; Gl 6.7,8; 2 Ts 1.8; Hb 9.27. (c) o principio fundamental dessa teoria, segundo o qual unicamente a consciente rejeição de Cristo e Seu Evangelho leva os homens a perecerem, é antibíblico. O homem está perdido por natureza, e mesmo o peado original, bem como os pecados atuais, o torna digno de condenação. A rejeição de Cristo é, indubitavelmente, um grande pecado, mas nunca é apresentada como o único pecado que leva à destruição do pecador. (d) A Escritura nos ensina que os gentios perecem, Rm 1.32; 2.12; Ap. 21.8. Não há na Escritura nenhuma evidencia em que possamos basear a esperança de que gentios adultos, ou mesmo crianças gentílicas que não chegaram aos anos da discrição, serão salvos. (e) A teoria da prova futura leva à extinção de todo o fervor missionário. Se os gentios podem decidir quanto à aceitação de Cristo no futuro, isso só pode resultar num juízo mais rápido e maior para muitos, se são postos ante a escolha agora. Por que não deixa-los na ignorância pelo Maximo de tempo possível?
QUESTIONÁRIO PARA PESQUISA: 1. É sustentável a posição de que o sheol-hades sempre designa um mundo subterrâneo para onde vão todos os mortos? 2. Por que é objetável a crença em que a Bíblia, em suas afirmações sobre o sheol e hades, simplesmente reflete as noções populares da época? 3. Devemos supor que, por ocasião da morte, os justos e os ímpios entram nalguma habitação temporária e provisória, e não imediatamente em seu destino eterno? 4. Em que sentido o estado intermediário é apenas transitivo? 5. Como surgiu a noção do purgatório? 6. Como os católicos romanos concebem o fogo purgatorial? 7. Esse fogo é meramente purificador, ou também penal? 8. Que bom elemento alguns luteranos vêem na doutrina do purgatório? 9. Que mescla de heresias encontramos na seita conhecida como “aurora do milênio”? 10. O estado intermediário, de acordo com a Escritura, representa um terceiro aion entre o aion houtos e o aion ho mellon? 11. a ênfase escriturística ao presente como “o dia da salvação” está em harmonia com a doutrina de uma prova futura?
BIBLIOGRAFIA PARA CONSULTA: Bavinck, Geref. Dogm. , p. 655-711; Kuyper, Dict. Dogm., De Consummatione Saeculi, p. 25-116; Vos, Geref. Dogm. V, Eschatologie, p. 3-14; Hodge, Syst., Theol. III, p. 713-770; Shedd, Dogm. Theol. II, p. 591-640; Dabney, Syst. and Polem. Theol., p. 823-829; Litton, Introd. to Dogm. Theol., p. 548-569; Valentine, Chr. Theol. II, p. 392-407; Pieper, Christ. Dogm. III, p. 574-578; Miley, Syst. Theol. II, p. 430-439; Wilmers, Handbook of the Chr. Rel., p. 385-391; Schaff, Our Father’s Faith and Ours, p. 412-431; Row, Future Retribution, p. 348-404; Shedd, Doctrine of Endless Punishment, p. 19-117; King, Future Retribution; Morris, Is There Salvation After Death?; Hovey, Eschatology, p. 79-144; Dahle, Life After Death, p. 118-227; Salmond, Chr. Doct. Of Immortality, cf. Índice; Mackintosh, Immortality and the Future, p. 195-228; Addison, Life Beyond Death, p. 200-214; De Bondt, Wat Leert Het Oude Testament Aangaande Her Leven Na Dit Leven?, p. 40-129; Kliefoth, Christl. Eschatologie, p. 32-126.
(Berkhof, L – Teologia Sistemática Pg697)
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