O estado de uma igreja, de um grupo, uma empresa ou uma nação, reflete a qualidade de seus líderes. A falta de ação de um líder promove a morte lenta. As ações erradas resultam na desintegração, no conflito e na perda. A liderança efetiva promove o bem-estar e o progresso. Um líder bem intencionado precisa saber como liderar bem, e esperar que possa ganhar a aprovação que todos os homens de Deus esperam receber. John Gardner desenvolveu uma lista de nove atividades ou responsabilidades que um líder necessita fazer para liderar bem. Elas são aplicáveis a todos os tipos de sociedades, sejam elas cristãs ou não.
Visão
A primeira responsabilidade é focalizada na visão. O homem que Deus usa necessita ter uma visão do alvo e dos objetivos finais da organização. Ele precisa, em oração, olhar para o futuro com sua imaginação e perceber o propósito central que trouxe a igreja ou o grupo à existência. Ele vê claramente o final para o qual ela existe. Cada investimento em tempo, em dinheiro, em pessoas e em sacrifício necessitam mover na direção daquele objetivo.
Para líderes cristãos, a glória de Deus, refletida em seu Reino e em sua Justiça, será o alvo final de todo esforço e planejamento organizacional. A palavra "reino", como Jesus a usou nos evangelhos sinópticos, significa "reinar". "Deus conhecido, amado e sua vontade obedecida", seria outra forma de entender o que o Reino de Deus representa.
Robert Kennedy percebeu a importância de uma visão quando disse: "Você vê as coisas como elas são; e pergunto, por que? Mas eu sonho acerca de realidades que nunca existiram e pergunto, 'por que não"'? A famosa frase de Martin Luther King: "Eu tenho um sonho", foi um caminho memorável de se referir a essa visão.
A visão de um líder cristão do Reino precisa tornar-se suficientemente clara em sua mente para identificar os alvos e os marcadores específicos para realizar sua visão. Ele se surpreenderia com o comentário, "sempre fizemos assim", somente se estivesse convencido de que sua visão não poderia ser alcançada de uma forma mais eficiente.
Paulo foi um líder visionário. Ele se manteve fiel a uma visão de evangelização de uma parte do nordeste do Império Romano, mas não considerou somente aquela área. Quando ele decidiu prosseguir à Espanha, via Roma, ele o fez para completar a obra na qual a sua visão consistia (cf. Rm 15.23, "Mas, agora, não tendo já campo de atividade nestas regiões [...] penso em fazê-lo quando em viagem para a Espanha”). Provavelmente, a visão de Paulo incluíra a evangelização de toda a bacia mediterrânea, para que, o sucesso em uma região impelisse-o a outra.
O grandioso apóstolo não excluiu o gerenciamento de sua liderança. Ele trabalhara assiduamente para carregar o fardo das igrejas, da pregação, do ensino, do treinamento de anciãos (pastores) e ainda continuou com uma visão do quadro geral. O gerenciamento eficiente sem a liderança eficiente é, como um autor escreveu, "como arrumar cadeiras do convés no Titanic". "Muitas vezes, os pais são também presos na armadilha do paradigma do gerenciamento, pensando em controle, em eficiência e em regras, em vez de direção, de propósito e de sentimento familiar". A direção da família de Deus, muitas vezes, reflete uma visão semelhante, que é limitada.
Seria de grande proveito comparar as características do "homem que Deus usa" segundo Oswald Smith. "Ele tem somente um grande propósito na vida. Ele, pela graça de Deus, remove cada obstáculo de sua vida. Ele tem se colocado, totalmente, à disposição de Deus. Ele tem aprendido como prevalecer em oração. Ele é um aluno da Palavra. Ele tem uma mensagem viva para o mundo perdido. Ele é um homem de fé, que espera resultados. Ele trabalha com a unção do Espírito Santo".
Valores
O homem de Deus precisa liderar seus seguidores para elevar a estima dos valores do grupo. A vida de Moisés é um exemplo de tal liderança. Ele acreditou, de todo o seu coração, que a liberdade era melhor do que a escravidão. Paulo, clara e ruidosamente, proclamou a liberdade aos gálatas (Gl 5.1,13). A perda da importância da liberdade na vida cristã significava a perda de tudo. Significava estar escravizado aos pobres elementares espíritos do mundo, em vez do poderoso e glorioso Espírito de Deus (Gl 4.8,9). Os pastores e os professores de seminários necessitam diariamente lembrar à igreja aos valores cristãos que fazem dos crentes pessoas diferentes dos mundanos. Uma comunhão de amor não cresce automaticamente na igreja. É por isso que o Novo Testamento repetidamente exorta aos seus leitores aos atos mútuos de amor, de encorajamento e de perdão. Esses são apenas alguns dos valores mais altos que precisam ser continuamente afirmados pelos líderes na família de Deus.
Um líder precisa reafirmar os valores que identificam o grupo. Porque um guia competente sabe o caminho, ele faz com que a estrada certa pareça a mais natural e a melhor. Jesus convidou homens a segui-lo, contudo, não, cega ou ignorantemente. Os discípulos teriam que negar a si próprios, tomar sua cruz diariamente e seguir cuidadosamente nos passos de Jesus (Lc 9.23). O valor que os seus seguidores ganhariam, contudo, seria inquestionavelmente digno disso. Eles salvariam suas "vidas" (v. 24). Um bom líder necessita saber pelo que se é digno de viver ou de morrer. É por isso que Jesus convidou os cansados e os oprimidos para aceitar o seu jugo (Mt 11.28). Jesus modelou os valores centrais do Reino através de seu estilo de vida e de atitudes. Ele ainda chama líderes para "aprender dele" (v. 29).
Em Corinto, os pastores-líderes que assumiram a liderança após a partida de Paulo, de modo abismal, fracassaram. Manter a unidade, o respeito acima de tudo, o amor pelos irmãos e irmãs em Cristo não foram prioridades em suas agendas. Eles escolheram os nomes de líderes ausentes, como Pedro, Paulo e Apolo, para alcançar os interesses próprios. As ambições políticas dos líderes na igreja de Corinto foram aumentadas, enquanto a causa de Cristo foi deixada de lado. Os valores ilegítimos exaltavam à “sabedoria” e às manifestações sobrenaturais, tais como o dom de "línguas". Os indivíduos carismáticos atingiram um prestígio exagerado.
A afirmação de Paulo de amor agape, como o valor central da Igreja em 1 Coríntios 13, precisa de constante ênfase hoje. Sem o amor, outros valores são inúteis. Um líder piedoso poderá saber que a auto-importância carnal obscurece os fatos. Ela enterra o alicerce na areia, e portanto, a organização titubeia, mesmo antes da chegada da tempestade.
Motivação
Um líder estimula os membros do grupo a alcançar alvos e manter valores, que o grupo assegura como preciosos. Para ser um motivador, implica que um líder tenha a habilidade de despertar e mover as pessoas à ação e à realização, ao mesmo tempo em que, satisfaz às suas necessidades. Isso inclui a mobilização e o agrupamento de homens e de mulheres para aceitar a visão e o trabalho para o cumprimento da obra. O treinamento refere-se ao compartilhamento de conhecimento e de habilidades para a realização da visão da comunidade.
John Page, em uma tese de Ph.D. apresentada à Universidade de Nova York, em 1984, descreve o começo e o desenvolvimento de quatro igrejas em Rio Comprido, no Rio de Janeiro. O líder, pastor João, distingui-se como um motivador e um mobilizador natural. Qual seria a outra forma de alguém começar uma igreja motivando favelados a trocarem seu sistema de valores dando generosamente, do pouco que tinham, para construir seu templo? O entusiasmo carrega o dia quando fatores mais importantes, como, verdade doutrinária e amparo bíblico estão em escassez.
Uma que, um líder precisa convencer seus seguidores de que pode resolver seus problemas da melhor forma possível, isso implica que ele necessita motivar outros a "comprarem" sua visão. Não é suficiente anunciar os alvos; cada seguidor precisa ser altamente motivado. Para um líder motivar alguém, ele precisa transmitir sua visão tão persuasivamente, que seus seguidores irão "adotá-la”, alegremente investindo vida, energia, dinheiro e preocupação nela. Charlie Tremendous Jones, corretamente, entende que um líder tem que ser um entusiasta. Sua própria convicção da importância em realizar sua visão, o motiva. Pouco importa quão duro alguém trabalha. A questão é, o quão empolgado ele está por sua visão. O entusiasmo é contagioso.
Na realidade, é impossível alguém motivar outra pessoa pois, a motivação, é uma atitude gerada dentro do indivíduo. Ela surge da persuasão que convence os seguidores de que, os alvos claramente focalizados, são dignos de todo o esforço, que é necessário para alcançá-los.
Um líder normalmente controla os incentivos em uma organização secular. Ele estará de acordo com o nível de pagamento, com as expectativas trabalhistas e os benefícios. Porém, para uma igreja, em que os membros contribuem gratuitamente, em vez de receberem remuneração monetária, outros tipos de benefícios devem ser considerados.
Paulo identificou a graça como o elemento cristão motivador. Ela foi o fator persuasivo que levou os macedônios a dar generosamente, de sua opressiva pobreza (2Co 8.1). "No meio de muita prova de tribulação, manifestaram abundância de alegria, e a profunda pobreza deles superabundou em grande riqueza da sua generosidade" (2Co 8.2). Porque a graça motivadora raramente afeta as igrejas evangélicas de hoje? A graça não foi algum poder esotérico manipulado r que tomara conta dos cristãos da Macedônia e obscurecera seus melhores interesses. "Graça” refere-se a forma de ver que olha para o futuro e está em concordância com as palavras de Jesus: "Mais bem-aventurado é dar que receber"(At 20.35).
Essa graça motivadora brota no solo rico da fé, olhando, além do sacrifício imediato, para a alegre satisfação da eternidade. Embora ela regozije-se na antecipação do prazer futuro é necessário, para o líder persuasivo, convencer os membros a sacrificar, como os Macedônios. Um grande líder, neste caso, Paulo, é capaz de motivar outras pessoas mostrando o desprezo pelo custo presente. Através de palavras e ação, Paulo convenceu seus ouvintes de que investimentos no Céu têm um retorno superior a qualquer valor deste mundo (Mt 6.20, 21; 2Co 4.16,17).
O amor é o maior motivador de todos. "Acima de tudo isto, porém, esteja o amor, que é o vínculo da perfeição", escreveu Paulo (Cl 3.14). "Nós amamos porque ele nos amou primeiro" (1Jo 4.19). O amor de Cristo constrange (2Co 5.14), isto é, ele tem um poderoso incentivo constituído nele próprio. Paulo estava ciente de que o amor de Cristo não funcionava automaticamente como a batida de um coração. Dr. George Samuel, perito em medicina nuclear, motivador ardente e treinador de evangelistas para a Índia e o mundo, disse que: "Amor ágape tem um mínimo de emoções e um máximo de reconhecimento do valor e dignidade das pessoas". Paulo viu isso como uma atitude, que precisava ser "vestida” como uma capa. Quando esse amor ágape está faltando, nenhuma ação religiosa ou esforço espiritual é aceitável a Deus. "Ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará" (1 Co 13.3). O proveito nessa passagem é o prazer de Deus e a recompensa eterna do líder. Jamais poderá haver algum benefício eterno brotando da liderança cristã que exclua o amor como o seu ingrediente básico.
Administração
Um homem que Deus usa necessita organizar e administrar as atividades e ações de Deus na Terra. Ele precisa decidir o que será feito, e a seqüência de ações; ele planeja os acontecimentos, dando prioridade ao que é necessário. Empurra os eventos e as atividades desnecessárias para a periferia. O bom líder gasta pouco tempo apagando incêndios que irrompem na organização. Ele se esforça muito mais no ensejo de tomar decisões que previnam as tensões e os conflitos, do que nos problemas embrionários que poderão provocar incêndios.
O ministério de Paulo, em Éfeso, nos dá uma rápida percepção da administração que caracteriza a liderança preventiva, que difunde situações explosivas antes que estas destruam o trabalho de Deus. Durante os dois anos e meio que Paulo estava pastoreando a igreja naquela cidade cosmopolita, ele decidiu dar mais prioridade ao ensino. Em suas próprias palavras: "Portanto, eu vos protesto, no dia de hoje, que estou limpo do sangue de todos; porque jamais deixei de vos anunciar todo o desígnio de Deus" (At 20.26-27). Por detrás dessas palavras reveladoras, está a quantidade exaustiva de trabalho e de fadiga de expulsar os falsos professores ("lobos", v.29), que esperavam qualquer abertura na cerca para levar uma das ovelhas desprotegidas. "Todo o desígnio de Deus" tem que ser efetivamente transmitido aos pagãos para que a maturidade e o conhecimento espiritual pudesse ser indiscutível. Para esse fim, Paulo lembra os efésios como ele não cessou de admoestar cada um com lágrimas durante todo o tempo de seu ministério em Éfeso (v.31).
A boa liderança pressupõe que a pessoa em comando tenha uma habilidade organizacional. Saber onde começar, que passos tomar e qual é a melhor ordem na qual as ações precisam acontecer para atingirem bem seus objetivos desafia, muitas vezes, completamente a habilidade de um líder. A administração organiza o processo.
Mesmo a educação progride em pequenos passos. Quem poderia imaginar que seria possível ensinar geometria para uma criança de seis anos de idade? As crianças aprendem através da adição de cada novo passo ao conhecimento já adquirido. São necessários - para o sucesso de se atingir um alvo ou organizar um grande evento (o Geração 79 é um bom exemplo) - muitos passos planejados, em ordem, do princípio ao fim.
Os gráficos do "Pert" (Program Evaluation and Review Téchnique - Programa de Avaliação e Técnica de Revisão), podem oferecer uma ajuda valiosa para o planejamento. O Pert é "um instrumento de controle pela definição das partes de um trabalho, e pela reunião dessas partes em forma de cadeia, de maneira que a pessoa responsável por cada parte e o encarregado pela administração geral saibam o que deve acontecer e quando". O principal valor de um gráfico Pert é para ajudar um líder a desenvolver seu alvo de forma clara, e depois, planejar uma ordem para que todos os fatores que precisam ocorrer para que aquele alvo seja alcançado. O fracasso em administrar bem um programa, pode trazer à tona, uma das bem conhecidas leis de Murphy: "Tudo que pode sair errado, sairá errado"! Isto explica a causa da Bíblia Vida Nova ter levado quatorze anos para ser lançada, em vez dos três anos esperados. Todos os passos necessários para a realização do projeto não foram vistos antes do tempo, nem a ordem necessária dos eventos. Deus seja louvado que a Bíblia saiu da impressora, mesmo depois de muitas perdas desnecessárias e de barreiras vencidas.
Criação de uma Unidade Funcional
Esta tarefa do líder focaliza-se nos inter-relacionamentos que pessoas, em um grupo ou igreja, precisam manter para que funcione apropriadamente. A administração é relacionada com o planejamento e a organização. A unidade funcional integra as contribuições necessárias dos membros do grupo para que este funcione corretamente. É o líder que precisa fomentar essa interação positiva entre os componentes vivos, tanto quanto um engenheiro precisa produzir partes de uma máquina para que esta funcione como uma unidade.
Esta função complexa de uma igreja, como um "corpo", apóia o ensino de Paulo sobre os quatro ministérios de liderança da igreja, em Efésios 4. Apóstolos, profetas, evangelistas e pastores-mestres, todos eles, equipam ou treinam os membros da igreja para desenvolver seus diversos ministérios (diakonia, v. 12), sendo direcionados para a "edificação do corpo de Cristo". O ministério de preparação e o conseqüente "serviço" promovem a unidade da fé (v. 13). Essa, por sua vez, promove o crescimento da sabedoria do Filho de Deus e a maturidade na qual a "plenitude de Cristo" pode ser claramente vista.
O corpo (Igreja), como um todo, necessita estar bem ajustado c mantido unido, por aquilo que cada parte supre, caso cada uma funcione apropriadamente. Assim, o corpo cresce e aumenta a edificação de si mesmo em amor (v. 16).
Várias igrejas fracassam no crescimento porque os líderes não treinam seus membros para contribuir para o todo. A unidade funcional não é realizada. Os membros não cooperam em edificar uns aos outros. A rivalidade e a inveja tomam o lugar do amor, que é o ingrediente básico. Paulo descreve o oposto de "unidade funcional", quando projeta a monstruosidade do "corpo inteiro ser um olho" ou o pé falando: "Porque não sou mão, não sou do corpo" (1Co 12.14, 15, 17).
A unidade funcional une as pessoas no grupo de uma forma que enriquece a utilidade de seus dons para toda a comunidade. Dar e receber ajuda mutuamente dentro da igreja não ocorre sem ajuda, estímulo, humildade e amor. Embora seja muito mais fácil alinhar 100 pessoas nos bancos em frente do pregador, essa não é a maneira que a unidade funcional é criada. O ensino e o treinamento cuidadoso, possibilitando oportunidades e avaliando o desempenho, são fundamentais. Os elogios e as críticas não ofensivas, todos eles, contribuem para a unidade que leva a igreja a funcionar organicamente. Assim, ela cresce em tamanho, e amadurece na "estatura da plenitude de Cristo" (Ef 4.15). Uma sugestão excelente, sobre a integração de serviços variados dos diferentes componentes da vida de uma igreja para o crescimento e a unidade é o livro de Christian Schwartz, O Desenvolvimento Natural da Igreja (Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 1996).
Acompanhamento do Processo de Crescimento
Segundo Paulo, a contribuição de líderes em uma igreja, destina-se à formação de líderes secundários. Paulo também exortou Timóteo a procurar homens fiéis e capazes para instruir; homens que, por sua vez, seriam capazes de ensinar outros (2Tm 2.2). Primeiro, é necessário que o futuro líder seja fiel - uma virtude que se adquire com muito tempo. Ele, então, precisa de instrução, como a que Timóteo recebeu de Paulo. Tempo e paciência são necessários. Depois, esses homens precisam de testes - nunca feitos em um ou dois dias. A paciência e a perseverança são necessários para essa função de liderança.
Jesus pacientemente pastoreou seus discípulos pelo método de troca de foco, da vantagem pessoal deles, para os interesses do Reino. Jesus não tornou pescadores de homens e cobradores de impostos em ganhadores de almas do dia para à noite. Três anos de ensino e exemplo constantes foram apenas suficientes para lançá-los nas profundezas da responsabilidade da liderança.
Segundo, liderança exige a capacidade que depende do talento e da experiência de treinamento. Winston Churchill, certa vez, lamentou a tragédia de uma pessoa indicada para uma atividade importante, condizente com seus talentos, perfeitamente adequada para a oportunidade, mas sem treinamento e, portanto, desqualificada para aquilo que teria sido a sua melhor hora.
Os líderes bíblicos não podem ser neófitos, jovens despreparados ou inexperientes, mas, pessoas maduras. Paciência, talvez, é tudo o que se requer. Roma não foi construída em um dia, nem artesãos habilidosos construíram as catedrais da Europa, mundialmente conhecidas, em apenas um ano. A paciência não pode ser ignorada no desenvolvimento da liderança, nem quando um líder está fazendo de sua visão, uma realidade.
Explicando e Exemplificando
Uma pessoa que incorpora o caráter de uma organização, e identifica-se com sua pessoa e vida, cumpre a chave da função de liderança; Tome Hudson Taylor como um exemplo. Ele viveu intensamente, e deu vida à Missão no Interior da China, não só como fundador, mas como o missionário que exemplificou tudo que o caracterizava a Missão. É claro, ele não estava fazendo mais do que Jesus tinha feito. Jesus, completamente, identificara-se com o movimento que liderou, e líderes do Sinédrio puderam ver claramente que Pedro e João, pescadores comuns, estavam de alguma forma moldados pelo caráter dele (At 4.13).
Paulo escreveu aos Filipenses que o cristão ideal é aquele que tem adotado a mente de Jesus, que, como o mais atraente de todos os mestres, deixara uma imagem clara para ser imitada. Um líder incorpora o grupo que lidera de forma semelhante a que a cabeça se incorpora ao corpo. Os gálatas foram excluindo a si mesmos de Cristo para seguirem ensinos judaizantes e tornarem-se legalistas. Para Paulo, isso significou que necessitava dar nascimento a eles outra vez para que neles Cristo fosse formado (Gl 4.19).
Representação
Da forma que um pai representa sua família, o líder, enquanto homem de Deus, responsavelmente garante o resultado, que ele e seus seguidores tem buscado. Jesus cumpriu sua função indo à Jerusalém antes de seus discípulos. "Depois de fazer sair todas as (ovelhas) que lhe pertencem, vai adiante delas, e elas o seguem, porque lhe reconhecem a voz" (Jo 10.4). Ele garantiu o presente do Reino para aqueles que fossem incluídos em seu pequeno rebanho (Lc 12.32). Ele não falharia em confessar os seus nomes diante de Deus, o Pai (Mt 10.32). Ele não pediria a seus seguidores para carregar-Ihes a cruz, a menos que, ele carregasse a sua própria cruz (Mc 8.34). Jesus defendeu seus discípulos, quando os acusadores os culparam (Lc 6.1-5).
Renovação
Um líder, nas mãos de Deus, precisa superar a inércia e as forças reacionárias que solidificam a tradição que começou a se formar nas mentes dos membros do grupo desde o primeiro dia que se reuniram. Métodos e técnicas tornam-se sagradas para a Igreja e instituições, fazendo com que mudanças saudáveis tornem-se difíceis ou até impossíveis. "A forma que sempre foi feita” pode sufocar o gênio de mentes criativas. Toda invenção útil tem tido que substituir as metodologias desgastadas e as vacas sagradas; uma mudança de paradigma é necessária para que um automóvel substitua um cavalo.
A tradição não é necessariamente má. Sem as rotinas e os hábitos, as pessoas caem na apatia e na confusão. Muito pouco pode ser realizado sem uma rotina. Contudo, quanto melhor é um líder, maior serão as chances dele ouvir e encorajar as idéias inovadoras que surgirão nas organizações.
Tempos atrás a melhor forma de se evangelizar era pelos encontros nas ruas. Hoje, o rádio e a televisão quase tornaram o evangelismo de rua algo obsoleto. Nossa cultura ocidental, muda rápida e abruptamente para práticas ineficientes. Com isso, as formas interessantes e criativas de se resolver problemas e de se alcançarem alvos, são muito bem-vindas. É o líder que determina responsavelmente o tom da organização. Ou ele encoraja a inovação ou desencoraja a mudança, mesmo quando ela não ameaça os valores centrais do grupo. O líder precisa de novas idéias, e da sabedoria de Salomão, para avaliar as forças sufocantes reacionárias e distingui-las dos ventos devastadores da mudança que promete melhoramentos e eficiência (cf. Ef 4.14).
(O líder que Deus usa – Russel Shedd. Pg.36)
quinta-feira, 5 de junho de 2014
IMPEDIMENTOS À LIDERANÇA EFETIVA
Qualquer líder que tenha tentado organizar e dirigir uma instituição para Deus, ou implementar um programa, tem descoberto que forças opostas resistem ao progresso que ele vislumbra. Todo movimento inicial na Terra, para ser levado à frente, encontra resistência. Somente no vácuo é que objetos podem seguir adiante sem obstáculos ou oposições. Um líder eficiente planeja cuidadosamente como superar a resistência e tornar a oposição em algo vantajoso para ele.
Incredulidade
Na maioria das vezes que um líder procurar implementar uma visão mais abrangente nas mentes de seus seguidores, encontrará atitudes de pessoas que exclamam: "Isso não pode ser feito". O entusiasmo pode ser baixo e a falta de motivação pior ainda, ambos componentes criam uma parede de resistência alta e espessa. A maioria dos indivíduos tem um passado de derrotas e de fracassos crônicos. O acerto de alvos não tem sido um ponto forte na vida deles. Eles observam o entusiasmo do líder, tentando passar sua visão de uma grande obra para Deus, e decidem silenciosamente que serão expectadores ou participantes sem compromisso ativo. É comum encontrar a falta de entusiasmo e de motivação. A conseqüência é um muro espesso e alto.
Jesus ficou indignado diante da incredulidade de seus seguidores. "Ó geração incrédula, até quando estarei convosco? Até quando vos sofrerei?" (Mc 9.19). A resistência do demônio controlando o menino, nessa história dramática, fez com que os discípulos diminuíssem suas expectativas. Eles tinham feito tudo que eles sabiam fazer, mas o espírito imundo não tinha saído do garoto. A impotência dos discípulos exerceu um efeito negativo no pai. Quando Jesus desceu do monte, o pai trouxe o jovem para Jesus, mas, por pouco, sua esperança havia sido destruída. As palavras do pai, "mas, se tu podes alguma coisa, tem compaixão de nós e ajuda-nos" (v.22), provocou a exclamação de Jesus: "Se podes! Tudo é possível ao que crê" (v.23).
Essas palavras de Jesus devem ficar gravadas no coração de todos os candidatos à liderança piedosa. Quer sua visão exija a implementação de grupos pequenos, que efetivamente cuidem de cada um de seus membros e alcancem a vizinhança com zelo evangelístico; ou, a transformação de panelinhas na igreja em um "corpo" genuíno, repleto do amor e da ajuda mútua, o líder precisará de grandes dosagens de fé.
Inconstância
Tiago alerta-nos de que o homem inconstante é instável em todos os seus caminhos (Tg 1.8). Esse termo pode ter mais de um significado. Ele pode referir-se à pessoa que não é sempre honesta e sincera. Ela talvez diga uma coisa na presença de uma pessoa, mas outra coisa na sua ausência, "o que é arruinado r para relacionamentos harmoniosos".
Quando a inconstância refere-se a um compromisso ela significa negar, na prática, aquilo que uma pessoa professa com os lábios. Alguns líderes são inconfiáveis; e alguns seguidores são inconstantes. Eles não estão dispostos a pagar o preço do envolvimento. O compromisso com Deus e o seu serviço se tornam esporádicos e passageiros.
Saul, o primeiro rei de Israel, oferece um exemplo desse fracasso torpe na liderança. Primeiramente, ele parecia aceitar a ordem do Senhor para destruir totalmente os amalequitas e suas posses. Porém, quando chegou o momento crucial de submissão à ordem do Senhor, ele fez o oposto (1Sm 15). Saul ponderou sua decisão, assumindo que sacrificando algumas das ovelhas perfeitas e dos bois que o povo tinha capturado (v.15), agradaria a Deus; assim, ele se apossaria do melhor do despojo. Provavelmente, ele queria obedecer a Deus, mas ele também quis agradar ao povo, permitindo que eles guardassem parte do despojo. Saul provocou a ira de Deus e perdeu o reino. "O SENHOR rasgou, hoje, de ti o reino de Israel e o deu ao teu próximo, que é melhor do que tU. Também a Glória de Israel não mente, nem se arrepende, porquanto não é homem, para que se arrependa” (1Sm 15.28,29).
O amor por Deus e o amor pelo mundo são incompatíveis (1Jo 2.15). Total compromisso com Deus e com Mamom, o deus do dinheiro, é impossível (Mt 6.24). Um líder piedoso deve colocar Deus e seu Reino como prioridade em sua vida. Nós precisamos caminhar resolutamente nessa direção, se queremos fugir da armadilha da inconstância. A ordem bíblica chama líderes para purificar seus corações da inconstância (Tg 4.8).
Desânimo
Entre as barreiras negativas que um líder precisa superar está o desânimo: aquela atitude de apatia e entrega a um negativismo prevalecente. O desânimo, como é sugerido etimologicamente, significa a perda de ânimo, uma carência de esperança e de algo que possa motivar a pessoa a continuar se esforçando se faz presente. A coragem para continuar exige alguma esperança do sucesso, mas, quando os seguidores perdem a esperança aparece o desânimo, transformando o futuro em cinzas e decadência. Os líderes têm a função de injetar a esperança. Eles mesmos precisam ter esperança, como Moisés quando implorou a Deus que não destruísse Israel depois do episódio do bezerro de ouro, que virara objeto de idolatria. Como podemos ver em Êxodo 32, talvez pudéssemos facilmente concluir que Deus houvesse se desanimado mais com Israel do que o próprio Moisés. Realmente, esse foi um teste que esse líder notável passou sem vacilar. Ele não permitiu que a ambição pessoal distorcesse a sua perspectiva. Não permitiu também que a dura cerviz do povo destruísse a sua esperança. Essa é a razão que ele suplicou para que Deus não acendesse sua ira contra o povo (Ex 32.11-13).
Paulo muitas vezes teve que vencer a atitude avassaladora do desânimo. Ele enfrentou toda razão imaginável para o desespero. Considere as igrejas da Gálacia, abraçando a idéia falsa de salvação baseada na circuncisão e no cumprimento da lei.
Pense no relacionamento de Paulo com a igreja de Corinto. A divisão, a imoralidade, a idolatria, a visão distorcida dos dons do Espírito, a incredulidade da realidade da ressurreição, os comentários acusando Paulo de mentira, o desprezo por sua presença física em Corinto (2Co 10.10) e a desobediência. Contudo, o apóstolo lutou contra a repugnante serpente do desânimo. A frase chave, "ouk engkakoumen" (2Co 4.1,16) significa "nós não desanimamos" ou "nós não desfalecemos". Ele afirma aos coríntios que: "temos [...] sempre bom ânimo" (5.6), porque ele podia acreditar que todas as tribulações nesta vida são temporárias e de curta duração (4.17), enquanto que a recompensa pela fidelidade tem eterno peso de glória.
Deus escolhera não dar alívio a Paulo de seu espinho na carne, contudo, este não cedeu à depressão, mesmo quando é provável que a tentação ainda continuasse tenazmente em seus passos. Embora completamente inocente da culpa, ele foi forçado a gastar quatro anos em prisões. O desânimo certamente bramiu para ele como um cão bravo ou um "leão rugindo" (1Pe 5.8).
O desânimo e a depressão são as maiores ameaças para qualquer grupo ou igreja que esteja passando por perseguições ou tribulações. Os cristãos judeus, para quem fora escrito a carta aos Hebreus, estavam à beira do retorno ao judaísmo. O autor escreveu: "Não abandoneis, portanto, a vossa confiança; ela tem grande galardão" (Hb 10.35).
Pedro escreveu para os cristãos perseguidos da Ásia menor com palavras animadoras: "Amados, não estranheis o fogo ardente que surge no meio de vós, destinado a provar-vos, como se alguma coisa extraordinária vos estivesse acontecendo; pelo contrário, alegrai-vos na medida em que sois co-participantes dos sofrimentos de Cristo, para que também, na revelação de sua glória, vos alegreis exultando" (I Pe 4.12-13). Quando enfrentamos circunstâncias que criam desânimo, a Bíblia nos dirige para o nosso Senhor que sofreu infinitamente mais do que qualquer um de nós. Isso também ergue nossas cabeças para contemplar o futuro glorioso dos filhos de Deus (Rm 8.17).
Estagnação
Howard Hendricks, professor do Seminário de Dallas, escreveu sobre seus primeiros dias como um aluno em uma faculdade cristã. Indo trabalhar às 5h30, ele passava em frente da casa de um professor. A luz acesa do seu escritório significava que ele estaria estudando. Quando ele retomava da biblioteca às 22h30, lá estava a mesma luz acesa brilhando. Aquele professor estava sempre estudando atentamente seus livros. Um dia, Hendricks convidou-o para um lanche. Ele interrogou o professor: "O que o mantêm estudando; parece-me que você nunca pára”? "Filho", ele replicou, "eu prefiro ter meus alunos bebendo de uma corrente de água em vez de uma piscina estagnada".
Como pode um líder, que está tão certo de seu conhecimento e experiência que não lê livros ou freqüenta palestras, escapar à estagnação? Um líder precisa manter renovado o seu vigor nas Escrituras, no seu caminhar com o Senhor e na sua área de perícia. Do contrário, ele perderá a credibilidade com os seguidores que também tenham acesso à fontes boas de informação. Quando um membro jovem de uma igreja em São Paulo reclamou que ele não estava sendo "alimentado" pelo seu pastor, eu sabia a razão. Aquele líder não estava estudando atentamente sua Bíblia ou seus livros. Ele não estava com sede do conhecimento e de habilidades que modificariam outras pessoas. Sua influência, em vez de crescer constantemente, diminuiu.
Inveja
Este mal muitas vezes surge em organizações onde a honra e os privilégios do líder são proporcionalmente maiores do que as exigências de suas tarefas. Pode até parecer para alguns seguidores que a recompensa da liderança é mais vantajosa do que o preço que seu líder está pagando. A cobiça será a conseqüência natural. É completamente possível que alguém venha pensar que ele poderia fazer melhor aquele serviço. Assim, a inveja poderá manifestar suas garras dentro da organização.
Tiago e João, discípulos líderes na embrionária Igreja de Jesus, solicitaram as posições mais elevadas no reino para quando Jesus entrasse em sua glória (Mc 10.37). Jesus os informou que eles não sabiam o que estavam pedindo. O custo seria participar no batismo de Jesus, e o beber do cálice, que Jesus beberia. Mesmo assim, eles não poderiam garantir o privilégio de sentar-se à direita ou à esquerda do Rei. A reação natural dos outros discípulos por causa do pedido dos filhos de Zebedeu foi a inveja indignada. O erro inicial que Tiago e João cometeram ao pedir pelas posições mais elevadas de honra no Reino levantou a seguinte questão: "Porque eles deveriam receber mais glória e poder do que as outras pessoas"?
Uma conferência missionária há alguns anos, em Curitiba, reuniu vários obreiros de diversas localidades do Paraná. Uma das perguntas que eles precisavam comentar era: "Qual é o pecado que você está mais propenso a cair"? A maioria escolheu a cobiça e a inveja como a tentação mais sedutora que eles tinham que enfrentar.
A cobiça tem um efeito nocivo na comunidade porque aqueles que são afetados por ela não podem fazer outra coisa, senão, expressar seus sentimentos e arruinar a autoridade do líder. As pessoas invejosas são críticas. Quem sabe, talvez, o líder caia, e eles poderão tomar o seu lugar? A queda de Satanás foi ocasionada pela cobiça. Os cristãos são encorajados a por de lado toda a cobiça (1Pe 2.1). Isso, porém, não significa que não será um problema. Podemos somente admirar o exemplo de Barnabé por seu espírito humilde quando Paulo assumiu a liderança na primeira viagem missionária. Evidentemente, este homem magnífico conquistou a inveja.
Trate da cobiça ajudando os seus seguidores a entender que ela tem suas raízes na carne. Tal tentação destruidora necessita ser conquistada de forma efetiva caso a organização esteja disposta a alcançar as suas metas e a cumprir a sua missão. Os seguidores lembrarão que nenhum líder é perfeito, nem livre de erros. Tiago diz que "a língua é fogo; é mundo de iniqüidade[...] é posta ela mesma em chamas pelo inferno" (3.6). Esse deve ser o alerta necessário para evitar "que se ponha fogo na organização" devido às fofocas e aos comentários depreciativos.
Soberba
A liderança, infelizmente, é suscetível à soberba; um impedimento que é muito mais sério do que a maioria das pessoas pensam. Ela é muitas vezes fatal. Um líder soberbo raramente ouve a voz do grupo que lidera, pois é auto confiante. Ele pensa que sabe, acima de todos, como dirigir o grupo. A soberba faz com que seja impossível de uma verdadeira dependência de Deus e o ouvir sua voz. Sem a direção divina, um líder soberbo será impetuoso e tomará decisões sem a reflexão necessária ou a troca de idéias. Há boas razões para a Bíblia declarar que a soberba vem antes da queda. Uma vez que a liderança inclui a exaltação e a decisão, a atitude de coronelismo acaba acontecendo naturalmente. Os procedimentos democráticos não se encaixam bem com homens soberbos que os apóiam com a boca, mas preferem dirigir unilateralmente. Eles não reivindicam o título de "rei", mas a auto-estima deles incorpora uma atitude de "soberania".
Os líderes soberbos aprendem pouco com os seus erros. Muito obsessivos com a necessidade de defender as suas decisões, por pior que sejam as conseqüências, eles aproveitam pouquíssimo das experiências negativas. Não tendo ouvidos abertos para os conselhos, eles marcham adiante, esperando que irão provar que são os melhores. Eles seguem os passos do apostador obsessivo que mantém a sua confiança de que vencerá na próxima vez, embora ele tenha perdido fortunas inteiras.
Jamais poderíamos negar que Pedro foi um líder. Porém, qual a razão de sua impetuosidade? Talvez seja possível detectar alguns traços de soberba que o empurraram a falar, antes mesmo que ele pudesse ter pensado o que deveria ter falado. Ele corretamente confessou que Jesus era o Cristo, o Filho do Deus vivo, mas, logo em seguida, foi advertido pelo Senhor devido ao seu pecado (Mt 16.16). Na sua confissão, ele repetiu as palavras que Deus, o Pai, tinha-lhe revelado. Mais tarde foi repreendido, pois permitira que idéias satânicas se infiltrassem em sua mente e soberbamente dependera de interesses humanos, em vez de interesses divinos (vv.17,23).
Pedro superou a sua soberba, mas não sem a ajuda de Deus. Quando ele sugeriu o levantar de três tendas no monte da Transfiguração, Deus o repreendeu. Quando pisou fora do barco na tempestade no mar da Galiléia, começou a afundar, até que o Senhor estendeu-lhe a mão. Confiante, declarara sua lealdade, mas, três vezes negando a Jesus com pragas, ajudaram-no imensamente a reconhecer sua fraqueza e a depender mais seriamente do Senhor (note as frases: "Tu sabes todas as coisas, tu sabes que eu te amo" (Jo 21.17). Pedro, em sua idade avançada, escreveu: "Humilhai-vos, portanto, sob a poderosa mão de Deus, para que ele, em tempo oportuno, vos exalte" (1Pe 5.6). A tradição informa-nos que Pedro morreu crucificado em Roma. Em sua humildade, ele rejeitou ser crucificado como o seu Senhor tinha sido, então, ele pediu o direito de morrer na cruz de cabeça para baixo.
Deus se opõe aos líderes soberbos (Tg 4.6). Ele dá graça e assiste aos humildes. Portanto, o caminho mais efetivo para aprender a humildade para a liderança é dar as boas-vindas à humilhação e à repreensão. O Senhor convidou os seus seguidores para aprenderem a humildade na sua companhia (Mt 11.28,29). Charles Simeon, um homem que Deus usara tão efetivamente para evangelizar alunos em Cambridge e encorajar o início do movimento missionário inglês no começo do século XIX, criou raízes na humilhação para produzir os frutos suculentos da humildade.
Falsidade
O líder que mente, que exagera ou que esconde a verdade não tem direito algum de controlar a vida de outros. O homem que mantém-se fiel à verdade em todas as circunstâncias faz com que seja fácil para alguém confiar nele. Em todos os relacionamentos humanos, a mentira, a decepção, as promessas falsas e os contratos não cumpridos, promovem, todos, à desconfiança. E a desconfiança, no topo da organização, é como uma rachadura em uma parede ou uma fenda em uma represa. Uma rachadura simboliza o perigo que pode levar ao desmoronamento da casa. A água vazando através do açude significa que a enchente logo inundará o vale. Poderia uma esposa confiar totalmente em um marido que a tenha traído? Poderia um marido compartilhar tudo com uma esposa que tenha sido pega em adultério? Os votos do casamento são os mais solenes de todas as promessas. Qualquer um que quebrar essa seriíssima promessa dá o direito da dúvida em relação à sua veracidade. Por isso, o relacionamento do líder com os obreiros ou membros é muitas vezes um processo de confiança a longo prazo. A falsidade e a hipocrisia despedaçam os alicerces de um relacionamento de confiança duradouro.
Davi pode nos ensinar muito a respeito da falsidade. Ele experimentou os resíduos amargos do seu pecado de adultério com Bate¬Seba. Primeiramente, ele agiu com falsidade, tentando fazer com que todos pensassem que a gravidez de Bate-Seba era fruto do seu relacionamento legítimo com seu marido. Quando Urias recusou deitar¬se com sua esposa (2Sm 11.13), Davi procurou cobrir sua transgressão, planejando a morte de Urias pela ação do inimigo (2Sm 11.15). A liderança de Davi sobre sua família tinha sido comprometida.
O filho de Davi, Amnom, mais tarde, violentou sua meia irmã, Tamar, um ato que culminara em uma tentativa de manter tudo em segredo. Absalão, então, secretamente planejou vingar-se da morte de sua irmã, matando Amnom. A hipocrisia e a ignorância governou os relacionamentos familiares de Davi. Logo em seguida, Absalão viria secretamente ganhar o coração do povo para apoderar-se do trono de seu pai. Ele tinha aprendido, pela observação e pela imitação, o lado negativo da liderança de Davi. Esse lado que pode até vencer pequenas vitórias pela pretensão e pela hipocrisia, mas que certamente perderá as grandes guerras. Absalão, mesmo, fora assassinado por Joabe, contra a vontade expressa de Davi, que chorou amargamente a sua morte. E esses são os resíduos amargos da falsidade.
Os líderes fazem contratos com os seus seguidores. As concordâncias podem ser verbais ou escritas. Elas talvez sejam expectativas não expressas mantidas no fundo do coração dos líderes e dos seguidores. Porém, quando a promessa não é mantida, a fé é partida. A confiança só poderá ser restaurada com grande esforço e paciência. Quando as expectativas acabam em decepção, um líder só poderá avivá-las pagando um alto preço.
Conclusão
Esses sete pecados contra a liderança piedosa servirão apenas de amostra das formas variadas que um líder poderá fracassar. Para outros exemplos de erros que prejudicam a liderança, recomendamos o livro de Hans Finzel, Dez Erros Um Líder Não Pode Cometer (São Paulo: Ed. Vida Nova, 1998).
(O líder que Deus usa – Russel Shedd. Pg.42)
Incredulidade
Na maioria das vezes que um líder procurar implementar uma visão mais abrangente nas mentes de seus seguidores, encontrará atitudes de pessoas que exclamam: "Isso não pode ser feito". O entusiasmo pode ser baixo e a falta de motivação pior ainda, ambos componentes criam uma parede de resistência alta e espessa. A maioria dos indivíduos tem um passado de derrotas e de fracassos crônicos. O acerto de alvos não tem sido um ponto forte na vida deles. Eles observam o entusiasmo do líder, tentando passar sua visão de uma grande obra para Deus, e decidem silenciosamente que serão expectadores ou participantes sem compromisso ativo. É comum encontrar a falta de entusiasmo e de motivação. A conseqüência é um muro espesso e alto.
Jesus ficou indignado diante da incredulidade de seus seguidores. "Ó geração incrédula, até quando estarei convosco? Até quando vos sofrerei?" (Mc 9.19). A resistência do demônio controlando o menino, nessa história dramática, fez com que os discípulos diminuíssem suas expectativas. Eles tinham feito tudo que eles sabiam fazer, mas o espírito imundo não tinha saído do garoto. A impotência dos discípulos exerceu um efeito negativo no pai. Quando Jesus desceu do monte, o pai trouxe o jovem para Jesus, mas, por pouco, sua esperança havia sido destruída. As palavras do pai, "mas, se tu podes alguma coisa, tem compaixão de nós e ajuda-nos" (v.22), provocou a exclamação de Jesus: "Se podes! Tudo é possível ao que crê" (v.23).
Essas palavras de Jesus devem ficar gravadas no coração de todos os candidatos à liderança piedosa. Quer sua visão exija a implementação de grupos pequenos, que efetivamente cuidem de cada um de seus membros e alcancem a vizinhança com zelo evangelístico; ou, a transformação de panelinhas na igreja em um "corpo" genuíno, repleto do amor e da ajuda mútua, o líder precisará de grandes dosagens de fé.
Inconstância
Tiago alerta-nos de que o homem inconstante é instável em todos os seus caminhos (Tg 1.8). Esse termo pode ter mais de um significado. Ele pode referir-se à pessoa que não é sempre honesta e sincera. Ela talvez diga uma coisa na presença de uma pessoa, mas outra coisa na sua ausência, "o que é arruinado r para relacionamentos harmoniosos".
Quando a inconstância refere-se a um compromisso ela significa negar, na prática, aquilo que uma pessoa professa com os lábios. Alguns líderes são inconfiáveis; e alguns seguidores são inconstantes. Eles não estão dispostos a pagar o preço do envolvimento. O compromisso com Deus e o seu serviço se tornam esporádicos e passageiros.
Saul, o primeiro rei de Israel, oferece um exemplo desse fracasso torpe na liderança. Primeiramente, ele parecia aceitar a ordem do Senhor para destruir totalmente os amalequitas e suas posses. Porém, quando chegou o momento crucial de submissão à ordem do Senhor, ele fez o oposto (1Sm 15). Saul ponderou sua decisão, assumindo que sacrificando algumas das ovelhas perfeitas e dos bois que o povo tinha capturado (v.15), agradaria a Deus; assim, ele se apossaria do melhor do despojo. Provavelmente, ele queria obedecer a Deus, mas ele também quis agradar ao povo, permitindo que eles guardassem parte do despojo. Saul provocou a ira de Deus e perdeu o reino. "O SENHOR rasgou, hoje, de ti o reino de Israel e o deu ao teu próximo, que é melhor do que tU. Também a Glória de Israel não mente, nem se arrepende, porquanto não é homem, para que se arrependa” (1Sm 15.28,29).
O amor por Deus e o amor pelo mundo são incompatíveis (1Jo 2.15). Total compromisso com Deus e com Mamom, o deus do dinheiro, é impossível (Mt 6.24). Um líder piedoso deve colocar Deus e seu Reino como prioridade em sua vida. Nós precisamos caminhar resolutamente nessa direção, se queremos fugir da armadilha da inconstância. A ordem bíblica chama líderes para purificar seus corações da inconstância (Tg 4.8).
Desânimo
Entre as barreiras negativas que um líder precisa superar está o desânimo: aquela atitude de apatia e entrega a um negativismo prevalecente. O desânimo, como é sugerido etimologicamente, significa a perda de ânimo, uma carência de esperança e de algo que possa motivar a pessoa a continuar se esforçando se faz presente. A coragem para continuar exige alguma esperança do sucesso, mas, quando os seguidores perdem a esperança aparece o desânimo, transformando o futuro em cinzas e decadência. Os líderes têm a função de injetar a esperança. Eles mesmos precisam ter esperança, como Moisés quando implorou a Deus que não destruísse Israel depois do episódio do bezerro de ouro, que virara objeto de idolatria. Como podemos ver em Êxodo 32, talvez pudéssemos facilmente concluir que Deus houvesse se desanimado mais com Israel do que o próprio Moisés. Realmente, esse foi um teste que esse líder notável passou sem vacilar. Ele não permitiu que a ambição pessoal distorcesse a sua perspectiva. Não permitiu também que a dura cerviz do povo destruísse a sua esperança. Essa é a razão que ele suplicou para que Deus não acendesse sua ira contra o povo (Ex 32.11-13).
Paulo muitas vezes teve que vencer a atitude avassaladora do desânimo. Ele enfrentou toda razão imaginável para o desespero. Considere as igrejas da Gálacia, abraçando a idéia falsa de salvação baseada na circuncisão e no cumprimento da lei.
Pense no relacionamento de Paulo com a igreja de Corinto. A divisão, a imoralidade, a idolatria, a visão distorcida dos dons do Espírito, a incredulidade da realidade da ressurreição, os comentários acusando Paulo de mentira, o desprezo por sua presença física em Corinto (2Co 10.10) e a desobediência. Contudo, o apóstolo lutou contra a repugnante serpente do desânimo. A frase chave, "ouk engkakoumen" (2Co 4.1,16) significa "nós não desanimamos" ou "nós não desfalecemos". Ele afirma aos coríntios que: "temos [...] sempre bom ânimo" (5.6), porque ele podia acreditar que todas as tribulações nesta vida são temporárias e de curta duração (4.17), enquanto que a recompensa pela fidelidade tem eterno peso de glória.
Deus escolhera não dar alívio a Paulo de seu espinho na carne, contudo, este não cedeu à depressão, mesmo quando é provável que a tentação ainda continuasse tenazmente em seus passos. Embora completamente inocente da culpa, ele foi forçado a gastar quatro anos em prisões. O desânimo certamente bramiu para ele como um cão bravo ou um "leão rugindo" (1Pe 5.8).
O desânimo e a depressão são as maiores ameaças para qualquer grupo ou igreja que esteja passando por perseguições ou tribulações. Os cristãos judeus, para quem fora escrito a carta aos Hebreus, estavam à beira do retorno ao judaísmo. O autor escreveu: "Não abandoneis, portanto, a vossa confiança; ela tem grande galardão" (Hb 10.35).
Pedro escreveu para os cristãos perseguidos da Ásia menor com palavras animadoras: "Amados, não estranheis o fogo ardente que surge no meio de vós, destinado a provar-vos, como se alguma coisa extraordinária vos estivesse acontecendo; pelo contrário, alegrai-vos na medida em que sois co-participantes dos sofrimentos de Cristo, para que também, na revelação de sua glória, vos alegreis exultando" (I Pe 4.12-13). Quando enfrentamos circunstâncias que criam desânimo, a Bíblia nos dirige para o nosso Senhor que sofreu infinitamente mais do que qualquer um de nós. Isso também ergue nossas cabeças para contemplar o futuro glorioso dos filhos de Deus (Rm 8.17).
Estagnação
Howard Hendricks, professor do Seminário de Dallas, escreveu sobre seus primeiros dias como um aluno em uma faculdade cristã. Indo trabalhar às 5h30, ele passava em frente da casa de um professor. A luz acesa do seu escritório significava que ele estaria estudando. Quando ele retomava da biblioteca às 22h30, lá estava a mesma luz acesa brilhando. Aquele professor estava sempre estudando atentamente seus livros. Um dia, Hendricks convidou-o para um lanche. Ele interrogou o professor: "O que o mantêm estudando; parece-me que você nunca pára”? "Filho", ele replicou, "eu prefiro ter meus alunos bebendo de uma corrente de água em vez de uma piscina estagnada".
Como pode um líder, que está tão certo de seu conhecimento e experiência que não lê livros ou freqüenta palestras, escapar à estagnação? Um líder precisa manter renovado o seu vigor nas Escrituras, no seu caminhar com o Senhor e na sua área de perícia. Do contrário, ele perderá a credibilidade com os seguidores que também tenham acesso à fontes boas de informação. Quando um membro jovem de uma igreja em São Paulo reclamou que ele não estava sendo "alimentado" pelo seu pastor, eu sabia a razão. Aquele líder não estava estudando atentamente sua Bíblia ou seus livros. Ele não estava com sede do conhecimento e de habilidades que modificariam outras pessoas. Sua influência, em vez de crescer constantemente, diminuiu.
Inveja
Este mal muitas vezes surge em organizações onde a honra e os privilégios do líder são proporcionalmente maiores do que as exigências de suas tarefas. Pode até parecer para alguns seguidores que a recompensa da liderança é mais vantajosa do que o preço que seu líder está pagando. A cobiça será a conseqüência natural. É completamente possível que alguém venha pensar que ele poderia fazer melhor aquele serviço. Assim, a inveja poderá manifestar suas garras dentro da organização.
Tiago e João, discípulos líderes na embrionária Igreja de Jesus, solicitaram as posições mais elevadas no reino para quando Jesus entrasse em sua glória (Mc 10.37). Jesus os informou que eles não sabiam o que estavam pedindo. O custo seria participar no batismo de Jesus, e o beber do cálice, que Jesus beberia. Mesmo assim, eles não poderiam garantir o privilégio de sentar-se à direita ou à esquerda do Rei. A reação natural dos outros discípulos por causa do pedido dos filhos de Zebedeu foi a inveja indignada. O erro inicial que Tiago e João cometeram ao pedir pelas posições mais elevadas de honra no Reino levantou a seguinte questão: "Porque eles deveriam receber mais glória e poder do que as outras pessoas"?
Uma conferência missionária há alguns anos, em Curitiba, reuniu vários obreiros de diversas localidades do Paraná. Uma das perguntas que eles precisavam comentar era: "Qual é o pecado que você está mais propenso a cair"? A maioria escolheu a cobiça e a inveja como a tentação mais sedutora que eles tinham que enfrentar.
A cobiça tem um efeito nocivo na comunidade porque aqueles que são afetados por ela não podem fazer outra coisa, senão, expressar seus sentimentos e arruinar a autoridade do líder. As pessoas invejosas são críticas. Quem sabe, talvez, o líder caia, e eles poderão tomar o seu lugar? A queda de Satanás foi ocasionada pela cobiça. Os cristãos são encorajados a por de lado toda a cobiça (1Pe 2.1). Isso, porém, não significa que não será um problema. Podemos somente admirar o exemplo de Barnabé por seu espírito humilde quando Paulo assumiu a liderança na primeira viagem missionária. Evidentemente, este homem magnífico conquistou a inveja.
Trate da cobiça ajudando os seus seguidores a entender que ela tem suas raízes na carne. Tal tentação destruidora necessita ser conquistada de forma efetiva caso a organização esteja disposta a alcançar as suas metas e a cumprir a sua missão. Os seguidores lembrarão que nenhum líder é perfeito, nem livre de erros. Tiago diz que "a língua é fogo; é mundo de iniqüidade[...] é posta ela mesma em chamas pelo inferno" (3.6). Esse deve ser o alerta necessário para evitar "que se ponha fogo na organização" devido às fofocas e aos comentários depreciativos.
Soberba
A liderança, infelizmente, é suscetível à soberba; um impedimento que é muito mais sério do que a maioria das pessoas pensam. Ela é muitas vezes fatal. Um líder soberbo raramente ouve a voz do grupo que lidera, pois é auto confiante. Ele pensa que sabe, acima de todos, como dirigir o grupo. A soberba faz com que seja impossível de uma verdadeira dependência de Deus e o ouvir sua voz. Sem a direção divina, um líder soberbo será impetuoso e tomará decisões sem a reflexão necessária ou a troca de idéias. Há boas razões para a Bíblia declarar que a soberba vem antes da queda. Uma vez que a liderança inclui a exaltação e a decisão, a atitude de coronelismo acaba acontecendo naturalmente. Os procedimentos democráticos não se encaixam bem com homens soberbos que os apóiam com a boca, mas preferem dirigir unilateralmente. Eles não reivindicam o título de "rei", mas a auto-estima deles incorpora uma atitude de "soberania".
Os líderes soberbos aprendem pouco com os seus erros. Muito obsessivos com a necessidade de defender as suas decisões, por pior que sejam as conseqüências, eles aproveitam pouquíssimo das experiências negativas. Não tendo ouvidos abertos para os conselhos, eles marcham adiante, esperando que irão provar que são os melhores. Eles seguem os passos do apostador obsessivo que mantém a sua confiança de que vencerá na próxima vez, embora ele tenha perdido fortunas inteiras.
Jamais poderíamos negar que Pedro foi um líder. Porém, qual a razão de sua impetuosidade? Talvez seja possível detectar alguns traços de soberba que o empurraram a falar, antes mesmo que ele pudesse ter pensado o que deveria ter falado. Ele corretamente confessou que Jesus era o Cristo, o Filho do Deus vivo, mas, logo em seguida, foi advertido pelo Senhor devido ao seu pecado (Mt 16.16). Na sua confissão, ele repetiu as palavras que Deus, o Pai, tinha-lhe revelado. Mais tarde foi repreendido, pois permitira que idéias satânicas se infiltrassem em sua mente e soberbamente dependera de interesses humanos, em vez de interesses divinos (vv.17,23).
Pedro superou a sua soberba, mas não sem a ajuda de Deus. Quando ele sugeriu o levantar de três tendas no monte da Transfiguração, Deus o repreendeu. Quando pisou fora do barco na tempestade no mar da Galiléia, começou a afundar, até que o Senhor estendeu-lhe a mão. Confiante, declarara sua lealdade, mas, três vezes negando a Jesus com pragas, ajudaram-no imensamente a reconhecer sua fraqueza e a depender mais seriamente do Senhor (note as frases: "Tu sabes todas as coisas, tu sabes que eu te amo" (Jo 21.17). Pedro, em sua idade avançada, escreveu: "Humilhai-vos, portanto, sob a poderosa mão de Deus, para que ele, em tempo oportuno, vos exalte" (1Pe 5.6). A tradição informa-nos que Pedro morreu crucificado em Roma. Em sua humildade, ele rejeitou ser crucificado como o seu Senhor tinha sido, então, ele pediu o direito de morrer na cruz de cabeça para baixo.
Deus se opõe aos líderes soberbos (Tg 4.6). Ele dá graça e assiste aos humildes. Portanto, o caminho mais efetivo para aprender a humildade para a liderança é dar as boas-vindas à humilhação e à repreensão. O Senhor convidou os seus seguidores para aprenderem a humildade na sua companhia (Mt 11.28,29). Charles Simeon, um homem que Deus usara tão efetivamente para evangelizar alunos em Cambridge e encorajar o início do movimento missionário inglês no começo do século XIX, criou raízes na humilhação para produzir os frutos suculentos da humildade.
Falsidade
O líder que mente, que exagera ou que esconde a verdade não tem direito algum de controlar a vida de outros. O homem que mantém-se fiel à verdade em todas as circunstâncias faz com que seja fácil para alguém confiar nele. Em todos os relacionamentos humanos, a mentira, a decepção, as promessas falsas e os contratos não cumpridos, promovem, todos, à desconfiança. E a desconfiança, no topo da organização, é como uma rachadura em uma parede ou uma fenda em uma represa. Uma rachadura simboliza o perigo que pode levar ao desmoronamento da casa. A água vazando através do açude significa que a enchente logo inundará o vale. Poderia uma esposa confiar totalmente em um marido que a tenha traído? Poderia um marido compartilhar tudo com uma esposa que tenha sido pega em adultério? Os votos do casamento são os mais solenes de todas as promessas. Qualquer um que quebrar essa seriíssima promessa dá o direito da dúvida em relação à sua veracidade. Por isso, o relacionamento do líder com os obreiros ou membros é muitas vezes um processo de confiança a longo prazo. A falsidade e a hipocrisia despedaçam os alicerces de um relacionamento de confiança duradouro.
Davi pode nos ensinar muito a respeito da falsidade. Ele experimentou os resíduos amargos do seu pecado de adultério com Bate¬Seba. Primeiramente, ele agiu com falsidade, tentando fazer com que todos pensassem que a gravidez de Bate-Seba era fruto do seu relacionamento legítimo com seu marido. Quando Urias recusou deitar¬se com sua esposa (2Sm 11.13), Davi procurou cobrir sua transgressão, planejando a morte de Urias pela ação do inimigo (2Sm 11.15). A liderança de Davi sobre sua família tinha sido comprometida.
O filho de Davi, Amnom, mais tarde, violentou sua meia irmã, Tamar, um ato que culminara em uma tentativa de manter tudo em segredo. Absalão, então, secretamente planejou vingar-se da morte de sua irmã, matando Amnom. A hipocrisia e a ignorância governou os relacionamentos familiares de Davi. Logo em seguida, Absalão viria secretamente ganhar o coração do povo para apoderar-se do trono de seu pai. Ele tinha aprendido, pela observação e pela imitação, o lado negativo da liderança de Davi. Esse lado que pode até vencer pequenas vitórias pela pretensão e pela hipocrisia, mas que certamente perderá as grandes guerras. Absalão, mesmo, fora assassinado por Joabe, contra a vontade expressa de Davi, que chorou amargamente a sua morte. E esses são os resíduos amargos da falsidade.
Os líderes fazem contratos com os seus seguidores. As concordâncias podem ser verbais ou escritas. Elas talvez sejam expectativas não expressas mantidas no fundo do coração dos líderes e dos seguidores. Porém, quando a promessa não é mantida, a fé é partida. A confiança só poderá ser restaurada com grande esforço e paciência. Quando as expectativas acabam em decepção, um líder só poderá avivá-las pagando um alto preço.
Conclusão
Esses sete pecados contra a liderança piedosa servirão apenas de amostra das formas variadas que um líder poderá fracassar. Para outros exemplos de erros que prejudicam a liderança, recomendamos o livro de Hans Finzel, Dez Erros Um Líder Não Pode Cometer (São Paulo: Ed. Vida Nova, 1998).
(O líder que Deus usa – Russel Shedd. Pg.42)
EQUILÍBRIO NA LIDERANÇA DE ESTILO
Um líder precisa de equilíbrio para produzir influência positiva em seu grupo. Examine o fracasso de uma liderança e há grande possibilidade de se constatar que o extremismo fatal de um líder tenha trazido a organização para baixo. A navegação tranqüila na corrente da vida é tão importante para um líder quanto para um barco navegando no rio Amazonas. Em uma manhã de 1953, o S. S. North American estava navegando o rio Sioux Saint Marie, que divide as fronteiras do Canada e dos Estados Unidos. O barco desviou-se do centro. As marcas do canal claramente mostravam onde o centro do rio estava, mas o timoneiro ignorou as bóias. Em poucos minutos, o barco de 2.000 toneladas emperrou-se na lama. Eu estava naquele barco. Embora não entendesse de navegação, pude prever corretamente o que aconteceria quando o navio desviou-se do canal marcado no meio do rio.
O que acontece no mundo da navegação aplica-se à liderança. Um líder que não evita extremos, quase que certamente, tropeçará, e fracassará. Há dezenas de possíveis extremos que ameaçam a liderança. McDermott escreveu que a vida do santo "[...] não tem o tremendo desequilíbrio que em geral caracteriza a espiritualidade falsa". O equilíbrio cristão deve unir a alegria pela salvação, a tristeza pelos pecados, o amor por Deus e pelos outros, o amor pelo pr6ximo e pela família, o amor pelo corpo e alma, a preocupação pelos pecados pr6prios juntamente com a que se tem pelos pecados dos outros e, finalmente, o culto público e o pessoal.
Os exemplos que seguem foram escolhidos para destacar os perigos que ameaçam a vida desequilibrada de um líder. Algumas ilustrações bíblicas nos ajudarão lembrar as conseqüências benéficas do equilíbrio e os perigos de desviar-se do centro.
Observe a Linha Divisória entre a Determinação e a Teimosia
A rigidez em um líder não é benéfica, tanto quanto uma montanha não é benéfica para um grupo de construção de estrada, ou uma parede de granito para uma furadeira. Ninguém poderia ter acusado William Carey de ter sido desorientado ou sem determinação. Ele usou-se do seguinte lema: "Espere coisas grandes de Deus; e aspire fazer coisas grandes para Deus". Essa determinação, diante de constantes dificuldades e oposições, é aquilo que compõe o verdadeiro líder, e não a teimosia.
O rei Roboão, por outro lado, caiu no erro da teimosia recusando-se aliviar o jugo pesado do povo. Por isso, ele perdeu a maior parte do seu reino (lRs 12). A divisão do reino provocou a tragédia de guerras futuras que enfraqueceram ambos os reinos. Acima de tudo ela desviou o reino do norte da adoração a Deus, em Jerusalém, sob a liderança de reis que, antes, andavam no caminho do Senhor. Um líder sábio anda na linha que separa a determinação da teimosia; uma linha crucial para uma liderança bem-sucedida.
Escolha o Meio Termo entre a Flexibilidade e a Indecisão
A adaptabilidade a face de mudanças rápidas é a marca niveladora da liderança de qualidade. O profeta Jeremias teve que se adaptar às mudanças radicais que ocorreram durante a sua vida. Por quarenta anos, ele profetizou sob o reinado de um bom rei, como Josias, e péssimos reis, como Jeoaquim, Joaquim e Zedequias. Jeremias se opôs à política desses reis, que, por sua vez, perseguiram o profeta. Durante todas as calamidades da má liderança no trono, em liberdade e cativeiro, esse homem de Deus vivera sob a direção de Deus, e profetizara sua Palavra (23.28-32). A flexibilidade tornou-se a característica necessária de sua vida, mas sem ter abandonado seus princípios.
Em contraste, considere Balaão, o adivinho. Ele disse que s6 poderia falar aquilo que o Senhor o permitisse, todavia, tempos depois o encontramos montado em seu jumento, na esperança de amaldiçoar a Israel e de receber uma recompensa valiosa. Passados alguns dias, ele encontra¬se com o Senhor como o seu adversário, e não como fonte de bênçãos (Nm 22.32). Balaão ganhou a reputação daquele que induziu Israel a pecar, embora de sua boca, ele tenha pronunciado uma bênção sobre o povo escolhido (Nm 23,24). Tiago questionou se seria possível de uma "única fome jorrar tanto o que é doce como o que é amargoso" (Tg 3.11). A inconsistência em um líder, como uma parede construída de lama e de pedra, não poderá durar por muito tempo ou beneficiar uma organização.
Seja Firme em vez de Prepotente
Davi demonstrou equilíbrio navegando no centro entre o poder de limitação pr6pria e o despotismo. "Um homem de verdade como Davi é raro de ser encontrado na Igreja. Ele intimidaria demais as pessoas. Davi tinha sido um homem severo que podia sobreviver sozinho em uma região rústica de Judá. Fora forte o suficiente para matar um leão, e valente o bastante para confrontar e derrubar Golias". Por diversas vezes podemos ver esse homem escolhendo o curso médio, evitando o abuso do poder para a gratificação pessoal. É necessário ser um homem valente para confessar o pecado do adultério e do assassinato. Não foi um ditador prepotente que escreveu: "Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito inabalável" (SI 51.10). O homem de estado, Davi, viveu na prática o equilíbrio raro entre a força própria e a confiança no Senhor. Ele nunca agiu como um déspota. Imagine Alexandre, o Grande, ou Napoleão, despejando a água que os valentes de Davi lhe trouxeram do poço de Belém. Foi o seu temor piedoso do Senhor que fez toda a diferença. Ouça suas palavras: "Longe de mim, ó SENHOR, fazer tal coisa; beberia eu o sangue dos homens que lá foram com perigo de sua vida"? (2Sm 23.17).
Perdoe o Pecado sem Desculpá-lo
Jesus ensinou a surpreendente exigência de se perdoar pecados setenta vezes sete (Mt 18.22). Ele disse aos acusadores da mulher adúltera, que consideravam-se justos, que eles tinham sua permissão para apedrejá-la caso não tivessem nenhum pecado. Ele deixou-a partir sem acusações com a seguinte palavra: "Ninguém te condenou? [...] Nem eu tampouco te condeno; vai e não peques mais" (Jo 8.10,11).
Porém, foi Jesus que também chamou os líderes espirituais de seus dias: "Serpentes, raça de víboras! Como escapareis da condenação do inferno"? (Mt 23.33). É evidente que nosso Senhor escolheu o curso médio entre condenar os hipócritas e perdoar os arrependidos.
Paulo exortou os efésios a perdoarem-se uns aos outros, "como também Deus, em Cristo, vos perdoou" (Ef 4.32). Porém, ele também mandou os coríntios entregarem o escandaloso pecador a Satanás para a destruição da carne (1Co 5.5). Esses casos, e muitos outros na Escritura, encorajam o perdão e a disciplina. Ambas as atitudes, mantidas em tensão, são essenciais para o bem-estar da Igreja e o sucesso da organização.
Seja Humilde em vez de Bajulador ou Tímido
Samuel demonstrou o equilíbrio entre esses dois horizontes. Desde sua infância sob a tutela de Eli até a sua morte, esse servo do Senhor apresentou força com humildade. A má notícia que o Senhor lhe dera para passar a Eli foi entregue de forma relutante, mas fielmente. "Então, Samuel lhe referiu tudo e nada lhe encobriu. E disse Eli: É o SENHOR; faça o que bem lhe aprouver. Crescia Samuel, e o SENHOR era com ele, e nenhuma de todas as suas palavras deixou cair em terra” (1Sm 3.18,19).
Timóteo, com sua tendência natural à timidez e à insegurança emocional, precisou se lembrar de que Deus não nos tem dado um espírito de covardia, mas de poder, de amor e moderação (2Tm 1.7). Ele deveria fortificar-se na graça que está em Cristo Jesus (2.1). Não deveria permitir que as pessoas lhe intimidassem ou desprezassem pela sua mocidade (1 Tm 4.12). Ninguém poderia deixar de notar a humildade de Timóteo, expressa de forma tão maravilhosa por Paulo: "Porque a ninguém tenho de igual sentimento que, sinceramente, cuide dos vossos interesses; pois todos eles buscam o que é seu próprio, não o que é de Cristo Jesus. E conheceis o seu caráter provado, pois serviu ao evangelho, junto comigo, como filho ao pai" (Fp 2.20-22). Apesar do acanhamento natural de Timóteo, Paulo lhe escolhera para confrontar os coríntios antes mesmo de Paulo encontrar-se com eles (1Co 4.17).
Seja Decisivo em vez de Independente
Um líder piedoso precisa manter-se firme à sua visão, lançando fora todas as ações e os desvios estranhos ou prejudiciais. Os objetivos de uma organização são centrais. Elias se sobressai como o exemplo bíblico de decisão. Se Deus lhe falasse para viver ao longo da torrente de Queribe que lentamente secava e que dependesse de corvos para alimentar-se, isso era o que Elias faria. Não houve hesitação, reclamação ou dúvidas. Se alguém precisava desafiar todos os profetas de Baal e a rainha pagã Jezabel, Elias era o homem qualificado para isso. Será que existiu outro homem de decisão como Elias?
Foi o mesmo homem, Elias, que ouviu o cicio tranqüilo e suave (1Rs 19.12) que lhe deu diretrizes para a continuação de seu ministério em Israel. Os líderes qualificados necessitam do discernimento para saber quando a decisão é necessária e quando as boas sugestões devem ser adotadas. O tempo excessivo desperdiçado em comissões e infinitos encontros podem paralisar uma organização. As decisões sem ouvir as opiniões contrárias pode afundar todo o propósito de existência do grupo. A independência de ação pode cortar um pastor de sua base de suporte, deixando-o como uma árvore em uma barragem depois do rio ter lavado o solo de suas raízes.
Promova Seguidores Leais em vez de Homens de "Sim"
A lealdade de Daniel ao rei o colocou na posição da pessoa favorita do monarca. Dário, o medo, podia contar com Daniel para conselhos e apoio. Porém, quando o rei assinara o decreto que tinha como intuito cessar suas orações diárias, Daniel não demonstrou hesitação alguma em desobedecer a ordem que poderia ter-lhe custado a própria vida. O andar íntimo de Daniel com Deus fez com que a sua liderança fosse equilibrada. Alguns líderes podem facilmente cair na armadilha de acreditar que um seguidor que fala a verdade é desleal. Muito melhor do que cercar-se com homens que somente falam para seus líderes o que eles querem ouvir é o rei ou o pastor que tem conselheiros leais que lhe dizem a verdade.
É importante discernir a diferença entre poder e autoridade. O poder é a habilidade de forçar outras pessoas a fazer a sua vontade, mesmo que eles não queiram fazê-la. Autoridade, por outro lado, é a habilidade de se agrupar pessoas para fazer aquilo que você quer porque estas reconhecem que isso é o certo. Pilatos tinha o poder, mas Jesus tinha a autoridade (cf. Mt 28.18).
Seja Manso em vez de Fatalista
Jesus chamou seguidores para aprenderem dele a mansidão (Mt 11.28,29). Sua mansidão na presença de seus atormentadores dá um exemplo que o mundo inteiro deve imitar. Contudo, o nosso Senhor não era um fatalista. Ele foi completamente manso na presença do mal que o cercava, mas aquilo nunca o fez apático. Ele foi emocionalmente e espiritualmente comprometido com o Reino do Pai, para que ele não pudesse aceitar o mal em sua volta como algo inevitável. Fé não é a mesma coisa que resignação. Kierkegaard foi claro nisso. Uma vez que perdemos a fé, resignação é tudo que resta. Através da fé, a mansidão pode suportar longos anos de aprisionamento com esperança e expectativa.
Jesus orou por Pedro antes que este o negasse três vezes. Ele encorajou Pedro a fortalecer seus irmãos uma vez que tivera seu majestoso retorno (conversão). Não houve fatalismo em seu tratamento para com esse discípulo.
O tratamento de Jesus para com Judas demonstra o equilíbrio notável entre a mansidão excessiva e a apatia. Jesus não sentiu necessidade de informar aos outros discípulos do defeito fatal de Judas. Evidentemente, os colegas não suspeitaram que Judas era um ladrão. Parece que até próximo do fim, Jesus tratara o seguidor desleal como alguém igual a qualquer outro. Ninguém poderia ter imaginado que Judas estava além de qualquer esperança. Contudo, Jesus sabia que Judas o trairia, então, ele finalmente revela o fato (Mt 26.20-25).
Procure o Curso Médio entre a Mesquinhez e o Desperdício
Abraão reconheceu a voz de Deus quando este mandou que levasse seu único filho, Isaque, e o sacrificasse no monte Moriá. O seu amor e o seu compromisso com o Senhor foi tamanho que ele não hesitou em cumprir aquela missão impossível. Abraão bem sabia que não podia agarrar-se a seu filho. As crianças são apenas emprestadas aos pais. Seu almejo de obedecer a Deus estava temperado com a certeza de que Deus era suficientemente "poderoso até para ressuscitá-Io dentre os mortos, de onde também, figuradamente, o recobrou" (Hb 11.19). Abraão recusou a alimentar-se de pensamentos de que o sacrifício de Isaque poderia tornar-se em tal desperdício de partir o coração. Ele tampouco segurou-se a Isaque com uma possessão pecaminosa. Assim, Abraão antecipou o presente de Deus à humanidade na pessoa de seu Filho, Jesus (Rm 8.32).
Jefté, por outro lado, ofereceu como sacrifício sua filha como um tipo de pagamento a Deus pela vitória que ele esperava que Deus lhe daria. Seu voto (Jz 11.30,31) foi planejado para pressionar Deus a fazer aquilo que ele queria. Porém, não há qualquer indício de que Deus deseja sacrifícios humanos. O seu sacrifício foi um desperdício lamentável. O compromisso sacrificador ao Senhor é uma norma bíblica. "Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me" (Mc 8.34). Mas o suicídio, o homicídio ou algum outro exemplo de oferta desperdiçada, não agradam a Deus.
Muitas organizações têm deixado de existir devido ao fracasso de encontrar o curso médio entre a mesquinhez e o desperdício. Especialmente comuns, são aqueles casos onde o dinheiro é despejado em um projeto digno sem um cuidadoso controle de orçamento que poderia evitar a vergonha de contas não pagas e de uma montanha de dívidas. Por outro lado, muita preocupação com assuntos financeiros pode indicar falta de fé. Se o progresso de uma organização pode ser feito através de investimentos em pessoas e dinheiro, eles devem ser feitos com muita oração e um planejamento cuidadoso.
Mantenha o Equilíbrio entre o Amor e a Verdade
Os líderes piedosos lembram que a verdade é tão importante quanto o amor. Se a verdade é reprimida pelo interesse de proteger uma ação pecaminosa, o amor será sacrificado junto com a verdade. A confrontação é um atributo necessário da verdade. Jesus é a verdade. Ele não tolera a hipocrisia. Ele é o herói daqueles que reconhecem o valor da confrontação e de se falar a verdade em amor.
Jesus, como a Verdade Viva de Deus, foi também o exemplo máximo de amor. Ele ofereceu o melhor exemplo de curso médio entre o amor e a verdade. O que se pode ganhar em confrontar o jovem rico sem amor (Mc 10.21)? Acompanhada de amor, a verdade pode conseguir uma resposta positiva mais tarde. O jovem rico pode ter se tornado um seguidor do Senhor após sua morte e ressurreição.
O amor sem a verdade pode destruir o futuro de uma criança. Pais, que continuamente, encorajam suas crianças falando como elas são comportadas e inteligentes, mas fracassam em impressioná-las com a gravidade de seus fracassos e a falta de disciplina, não são os candidatos a ter filhos obedientes e bem comportados. O mesmo se aplica ao líder que esconde a verdade apenas elogiando os membros de sua igreja ou sua organização. Os pais piedosos fazem a combinação do amor com a verdade.
Mantenha a Visão sem Ser Visionário
O equilíbrio entre a visão e a praticabilidade não deve ser perdida. Um líder que tem grandes sonhos, mas não tem seus pés no chão, tem pouco valor para a Igreja hoje. Que benefício há em se desenhar uma igreja imensa, ou um orfanato, ou um projeto de evangelização da cidade de São Paulo, mas não ter alvos mensuráveis para tornar a visão em realidade? A pessoa visionária tem boas idéias, mas carece os meios de realizá-las no tempo e no espaço.
Jesus viu 5000 homens com fome, sem contar as mulheres e as crianças. Quando ele disse a seus discípulos para dar-Ihes comida, eles ficaram perdidos, pois não sabiam o que fazer. André, porém, trouxe um menino a Jesus, e mostrou-lhe que, pelo menos, ali tinha um pequeno começo. Jesus completou a visão multiplicando o pequenino lanche em uma festa.
Jesus vislumbrava uma igreja que pudesse conquistar nações. Na realidade, isso foi um sonho, mas não um sonho sem planos práticos para agir. Ele escolheu doze e depois setenta discípulos para treinar. Mais tarde, ele comissionou-os para cumprir aquela visão. Os resultados hoje são visíveis em todo lugar.
Seja Corajoso em vez de Negligente
Gideão demonstra-nos o curso médio entre precaução e negligência. Pelos conhecidos testes com o orvalho (Jz 6.36-40), Gideão procurou a certeza de Deus de que seu poder zeloso traria vitória sobre os midianitas. Gideão, todavia, não foi tão cauteloso ao ponto de não poder agir, mesmo com o pequeno exército de 300 homens que Deus lhe arrumara para enfrentar a batalha.
A liderança de excelência não comprometerá os homens e os recursos em projetos que não tenham alguma garantia de sucesso. Jesus alertou contra o crente zeloso que decide segui-lo sem primeiro calcular o custo (Lc 14.28-33). Tal imprudência reveste o nome de Cristo de trapos nada atraentes. Também cobre com vergonha o candidato negligente do Reino de Deus. É bem melhor ser cauteloso e considerar o preço antes de mergulhar nas profundezas para nadar contra a corrente. É bem melhor pular no barco salva-vidas do que permanecer no Titanic que se afunda.
(O líder que Deus usa – Russel Shedd. Pg.)
O que acontece no mundo da navegação aplica-se à liderança. Um líder que não evita extremos, quase que certamente, tropeçará, e fracassará. Há dezenas de possíveis extremos que ameaçam a liderança. McDermott escreveu que a vida do santo "[...] não tem o tremendo desequilíbrio que em geral caracteriza a espiritualidade falsa". O equilíbrio cristão deve unir a alegria pela salvação, a tristeza pelos pecados, o amor por Deus e pelos outros, o amor pelo pr6ximo e pela família, o amor pelo corpo e alma, a preocupação pelos pecados pr6prios juntamente com a que se tem pelos pecados dos outros e, finalmente, o culto público e o pessoal.
Os exemplos que seguem foram escolhidos para destacar os perigos que ameaçam a vida desequilibrada de um líder. Algumas ilustrações bíblicas nos ajudarão lembrar as conseqüências benéficas do equilíbrio e os perigos de desviar-se do centro.
Observe a Linha Divisória entre a Determinação e a Teimosia
A rigidez em um líder não é benéfica, tanto quanto uma montanha não é benéfica para um grupo de construção de estrada, ou uma parede de granito para uma furadeira. Ninguém poderia ter acusado William Carey de ter sido desorientado ou sem determinação. Ele usou-se do seguinte lema: "Espere coisas grandes de Deus; e aspire fazer coisas grandes para Deus". Essa determinação, diante de constantes dificuldades e oposições, é aquilo que compõe o verdadeiro líder, e não a teimosia.
O rei Roboão, por outro lado, caiu no erro da teimosia recusando-se aliviar o jugo pesado do povo. Por isso, ele perdeu a maior parte do seu reino (lRs 12). A divisão do reino provocou a tragédia de guerras futuras que enfraqueceram ambos os reinos. Acima de tudo ela desviou o reino do norte da adoração a Deus, em Jerusalém, sob a liderança de reis que, antes, andavam no caminho do Senhor. Um líder sábio anda na linha que separa a determinação da teimosia; uma linha crucial para uma liderança bem-sucedida.
Escolha o Meio Termo entre a Flexibilidade e a Indecisão
A adaptabilidade a face de mudanças rápidas é a marca niveladora da liderança de qualidade. O profeta Jeremias teve que se adaptar às mudanças radicais que ocorreram durante a sua vida. Por quarenta anos, ele profetizou sob o reinado de um bom rei, como Josias, e péssimos reis, como Jeoaquim, Joaquim e Zedequias. Jeremias se opôs à política desses reis, que, por sua vez, perseguiram o profeta. Durante todas as calamidades da má liderança no trono, em liberdade e cativeiro, esse homem de Deus vivera sob a direção de Deus, e profetizara sua Palavra (23.28-32). A flexibilidade tornou-se a característica necessária de sua vida, mas sem ter abandonado seus princípios.
Em contraste, considere Balaão, o adivinho. Ele disse que s6 poderia falar aquilo que o Senhor o permitisse, todavia, tempos depois o encontramos montado em seu jumento, na esperança de amaldiçoar a Israel e de receber uma recompensa valiosa. Passados alguns dias, ele encontra¬se com o Senhor como o seu adversário, e não como fonte de bênçãos (Nm 22.32). Balaão ganhou a reputação daquele que induziu Israel a pecar, embora de sua boca, ele tenha pronunciado uma bênção sobre o povo escolhido (Nm 23,24). Tiago questionou se seria possível de uma "única fome jorrar tanto o que é doce como o que é amargoso" (Tg 3.11). A inconsistência em um líder, como uma parede construída de lama e de pedra, não poderá durar por muito tempo ou beneficiar uma organização.
Seja Firme em vez de Prepotente
Davi demonstrou equilíbrio navegando no centro entre o poder de limitação pr6pria e o despotismo. "Um homem de verdade como Davi é raro de ser encontrado na Igreja. Ele intimidaria demais as pessoas. Davi tinha sido um homem severo que podia sobreviver sozinho em uma região rústica de Judá. Fora forte o suficiente para matar um leão, e valente o bastante para confrontar e derrubar Golias". Por diversas vezes podemos ver esse homem escolhendo o curso médio, evitando o abuso do poder para a gratificação pessoal. É necessário ser um homem valente para confessar o pecado do adultério e do assassinato. Não foi um ditador prepotente que escreveu: "Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito inabalável" (SI 51.10). O homem de estado, Davi, viveu na prática o equilíbrio raro entre a força própria e a confiança no Senhor. Ele nunca agiu como um déspota. Imagine Alexandre, o Grande, ou Napoleão, despejando a água que os valentes de Davi lhe trouxeram do poço de Belém. Foi o seu temor piedoso do Senhor que fez toda a diferença. Ouça suas palavras: "Longe de mim, ó SENHOR, fazer tal coisa; beberia eu o sangue dos homens que lá foram com perigo de sua vida"? (2Sm 23.17).
Perdoe o Pecado sem Desculpá-lo
Jesus ensinou a surpreendente exigência de se perdoar pecados setenta vezes sete (Mt 18.22). Ele disse aos acusadores da mulher adúltera, que consideravam-se justos, que eles tinham sua permissão para apedrejá-la caso não tivessem nenhum pecado. Ele deixou-a partir sem acusações com a seguinte palavra: "Ninguém te condenou? [...] Nem eu tampouco te condeno; vai e não peques mais" (Jo 8.10,11).
Porém, foi Jesus que também chamou os líderes espirituais de seus dias: "Serpentes, raça de víboras! Como escapareis da condenação do inferno"? (Mt 23.33). É evidente que nosso Senhor escolheu o curso médio entre condenar os hipócritas e perdoar os arrependidos.
Paulo exortou os efésios a perdoarem-se uns aos outros, "como também Deus, em Cristo, vos perdoou" (Ef 4.32). Porém, ele também mandou os coríntios entregarem o escandaloso pecador a Satanás para a destruição da carne (1Co 5.5). Esses casos, e muitos outros na Escritura, encorajam o perdão e a disciplina. Ambas as atitudes, mantidas em tensão, são essenciais para o bem-estar da Igreja e o sucesso da organização.
Seja Humilde em vez de Bajulador ou Tímido
Samuel demonstrou o equilíbrio entre esses dois horizontes. Desde sua infância sob a tutela de Eli até a sua morte, esse servo do Senhor apresentou força com humildade. A má notícia que o Senhor lhe dera para passar a Eli foi entregue de forma relutante, mas fielmente. "Então, Samuel lhe referiu tudo e nada lhe encobriu. E disse Eli: É o SENHOR; faça o que bem lhe aprouver. Crescia Samuel, e o SENHOR era com ele, e nenhuma de todas as suas palavras deixou cair em terra” (1Sm 3.18,19).
Timóteo, com sua tendência natural à timidez e à insegurança emocional, precisou se lembrar de que Deus não nos tem dado um espírito de covardia, mas de poder, de amor e moderação (2Tm 1.7). Ele deveria fortificar-se na graça que está em Cristo Jesus (2.1). Não deveria permitir que as pessoas lhe intimidassem ou desprezassem pela sua mocidade (1 Tm 4.12). Ninguém poderia deixar de notar a humildade de Timóteo, expressa de forma tão maravilhosa por Paulo: "Porque a ninguém tenho de igual sentimento que, sinceramente, cuide dos vossos interesses; pois todos eles buscam o que é seu próprio, não o que é de Cristo Jesus. E conheceis o seu caráter provado, pois serviu ao evangelho, junto comigo, como filho ao pai" (Fp 2.20-22). Apesar do acanhamento natural de Timóteo, Paulo lhe escolhera para confrontar os coríntios antes mesmo de Paulo encontrar-se com eles (1Co 4.17).
Seja Decisivo em vez de Independente
Um líder piedoso precisa manter-se firme à sua visão, lançando fora todas as ações e os desvios estranhos ou prejudiciais. Os objetivos de uma organização são centrais. Elias se sobressai como o exemplo bíblico de decisão. Se Deus lhe falasse para viver ao longo da torrente de Queribe que lentamente secava e que dependesse de corvos para alimentar-se, isso era o que Elias faria. Não houve hesitação, reclamação ou dúvidas. Se alguém precisava desafiar todos os profetas de Baal e a rainha pagã Jezabel, Elias era o homem qualificado para isso. Será que existiu outro homem de decisão como Elias?
Foi o mesmo homem, Elias, que ouviu o cicio tranqüilo e suave (1Rs 19.12) que lhe deu diretrizes para a continuação de seu ministério em Israel. Os líderes qualificados necessitam do discernimento para saber quando a decisão é necessária e quando as boas sugestões devem ser adotadas. O tempo excessivo desperdiçado em comissões e infinitos encontros podem paralisar uma organização. As decisões sem ouvir as opiniões contrárias pode afundar todo o propósito de existência do grupo. A independência de ação pode cortar um pastor de sua base de suporte, deixando-o como uma árvore em uma barragem depois do rio ter lavado o solo de suas raízes.
Promova Seguidores Leais em vez de Homens de "Sim"
A lealdade de Daniel ao rei o colocou na posição da pessoa favorita do monarca. Dário, o medo, podia contar com Daniel para conselhos e apoio. Porém, quando o rei assinara o decreto que tinha como intuito cessar suas orações diárias, Daniel não demonstrou hesitação alguma em desobedecer a ordem que poderia ter-lhe custado a própria vida. O andar íntimo de Daniel com Deus fez com que a sua liderança fosse equilibrada. Alguns líderes podem facilmente cair na armadilha de acreditar que um seguidor que fala a verdade é desleal. Muito melhor do que cercar-se com homens que somente falam para seus líderes o que eles querem ouvir é o rei ou o pastor que tem conselheiros leais que lhe dizem a verdade.
É importante discernir a diferença entre poder e autoridade. O poder é a habilidade de forçar outras pessoas a fazer a sua vontade, mesmo que eles não queiram fazê-la. Autoridade, por outro lado, é a habilidade de se agrupar pessoas para fazer aquilo que você quer porque estas reconhecem que isso é o certo. Pilatos tinha o poder, mas Jesus tinha a autoridade (cf. Mt 28.18).
Seja Manso em vez de Fatalista
Jesus chamou seguidores para aprenderem dele a mansidão (Mt 11.28,29). Sua mansidão na presença de seus atormentadores dá um exemplo que o mundo inteiro deve imitar. Contudo, o nosso Senhor não era um fatalista. Ele foi completamente manso na presença do mal que o cercava, mas aquilo nunca o fez apático. Ele foi emocionalmente e espiritualmente comprometido com o Reino do Pai, para que ele não pudesse aceitar o mal em sua volta como algo inevitável. Fé não é a mesma coisa que resignação. Kierkegaard foi claro nisso. Uma vez que perdemos a fé, resignação é tudo que resta. Através da fé, a mansidão pode suportar longos anos de aprisionamento com esperança e expectativa.
Jesus orou por Pedro antes que este o negasse três vezes. Ele encorajou Pedro a fortalecer seus irmãos uma vez que tivera seu majestoso retorno (conversão). Não houve fatalismo em seu tratamento para com esse discípulo.
O tratamento de Jesus para com Judas demonstra o equilíbrio notável entre a mansidão excessiva e a apatia. Jesus não sentiu necessidade de informar aos outros discípulos do defeito fatal de Judas. Evidentemente, os colegas não suspeitaram que Judas era um ladrão. Parece que até próximo do fim, Jesus tratara o seguidor desleal como alguém igual a qualquer outro. Ninguém poderia ter imaginado que Judas estava além de qualquer esperança. Contudo, Jesus sabia que Judas o trairia, então, ele finalmente revela o fato (Mt 26.20-25).
Procure o Curso Médio entre a Mesquinhez e o Desperdício
Abraão reconheceu a voz de Deus quando este mandou que levasse seu único filho, Isaque, e o sacrificasse no monte Moriá. O seu amor e o seu compromisso com o Senhor foi tamanho que ele não hesitou em cumprir aquela missão impossível. Abraão bem sabia que não podia agarrar-se a seu filho. As crianças são apenas emprestadas aos pais. Seu almejo de obedecer a Deus estava temperado com a certeza de que Deus era suficientemente "poderoso até para ressuscitá-Io dentre os mortos, de onde também, figuradamente, o recobrou" (Hb 11.19). Abraão recusou a alimentar-se de pensamentos de que o sacrifício de Isaque poderia tornar-se em tal desperdício de partir o coração. Ele tampouco segurou-se a Isaque com uma possessão pecaminosa. Assim, Abraão antecipou o presente de Deus à humanidade na pessoa de seu Filho, Jesus (Rm 8.32).
Jefté, por outro lado, ofereceu como sacrifício sua filha como um tipo de pagamento a Deus pela vitória que ele esperava que Deus lhe daria. Seu voto (Jz 11.30,31) foi planejado para pressionar Deus a fazer aquilo que ele queria. Porém, não há qualquer indício de que Deus deseja sacrifícios humanos. O seu sacrifício foi um desperdício lamentável. O compromisso sacrificador ao Senhor é uma norma bíblica. "Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me" (Mc 8.34). Mas o suicídio, o homicídio ou algum outro exemplo de oferta desperdiçada, não agradam a Deus.
Muitas organizações têm deixado de existir devido ao fracasso de encontrar o curso médio entre a mesquinhez e o desperdício. Especialmente comuns, são aqueles casos onde o dinheiro é despejado em um projeto digno sem um cuidadoso controle de orçamento que poderia evitar a vergonha de contas não pagas e de uma montanha de dívidas. Por outro lado, muita preocupação com assuntos financeiros pode indicar falta de fé. Se o progresso de uma organização pode ser feito através de investimentos em pessoas e dinheiro, eles devem ser feitos com muita oração e um planejamento cuidadoso.
Mantenha o Equilíbrio entre o Amor e a Verdade
Os líderes piedosos lembram que a verdade é tão importante quanto o amor. Se a verdade é reprimida pelo interesse de proteger uma ação pecaminosa, o amor será sacrificado junto com a verdade. A confrontação é um atributo necessário da verdade. Jesus é a verdade. Ele não tolera a hipocrisia. Ele é o herói daqueles que reconhecem o valor da confrontação e de se falar a verdade em amor.
Jesus, como a Verdade Viva de Deus, foi também o exemplo máximo de amor. Ele ofereceu o melhor exemplo de curso médio entre o amor e a verdade. O que se pode ganhar em confrontar o jovem rico sem amor (Mc 10.21)? Acompanhada de amor, a verdade pode conseguir uma resposta positiva mais tarde. O jovem rico pode ter se tornado um seguidor do Senhor após sua morte e ressurreição.
O amor sem a verdade pode destruir o futuro de uma criança. Pais, que continuamente, encorajam suas crianças falando como elas são comportadas e inteligentes, mas fracassam em impressioná-las com a gravidade de seus fracassos e a falta de disciplina, não são os candidatos a ter filhos obedientes e bem comportados. O mesmo se aplica ao líder que esconde a verdade apenas elogiando os membros de sua igreja ou sua organização. Os pais piedosos fazem a combinação do amor com a verdade.
Mantenha a Visão sem Ser Visionário
O equilíbrio entre a visão e a praticabilidade não deve ser perdida. Um líder que tem grandes sonhos, mas não tem seus pés no chão, tem pouco valor para a Igreja hoje. Que benefício há em se desenhar uma igreja imensa, ou um orfanato, ou um projeto de evangelização da cidade de São Paulo, mas não ter alvos mensuráveis para tornar a visão em realidade? A pessoa visionária tem boas idéias, mas carece os meios de realizá-las no tempo e no espaço.
Jesus viu 5000 homens com fome, sem contar as mulheres e as crianças. Quando ele disse a seus discípulos para dar-Ihes comida, eles ficaram perdidos, pois não sabiam o que fazer. André, porém, trouxe um menino a Jesus, e mostrou-lhe que, pelo menos, ali tinha um pequeno começo. Jesus completou a visão multiplicando o pequenino lanche em uma festa.
Jesus vislumbrava uma igreja que pudesse conquistar nações. Na realidade, isso foi um sonho, mas não um sonho sem planos práticos para agir. Ele escolheu doze e depois setenta discípulos para treinar. Mais tarde, ele comissionou-os para cumprir aquela visão. Os resultados hoje são visíveis em todo lugar.
Seja Corajoso em vez de Negligente
Gideão demonstra-nos o curso médio entre precaução e negligência. Pelos conhecidos testes com o orvalho (Jz 6.36-40), Gideão procurou a certeza de Deus de que seu poder zeloso traria vitória sobre os midianitas. Gideão, todavia, não foi tão cauteloso ao ponto de não poder agir, mesmo com o pequeno exército de 300 homens que Deus lhe arrumara para enfrentar a batalha.
A liderança de excelência não comprometerá os homens e os recursos em projetos que não tenham alguma garantia de sucesso. Jesus alertou contra o crente zeloso que decide segui-lo sem primeiro calcular o custo (Lc 14.28-33). Tal imprudência reveste o nome de Cristo de trapos nada atraentes. Também cobre com vergonha o candidato negligente do Reino de Deus. É bem melhor ser cauteloso e considerar o preço antes de mergulhar nas profundezas para nadar contra a corrente. É bem melhor pular no barco salva-vidas do que permanecer no Titanic que se afunda.
(O líder que Deus usa – Russel Shedd. Pg.)
ATITUDES QUE FAZEM A LIDERANÇA BíBLICA BEM-SUCEDIDA
Deus pode usar diversos tipos de personalidades para liderar outras pessoas. As páginas da história estão repletas de déspotas, governadores misericordiosos, desbravadores e conquistadores. As companhias multinacionais pagam aos seus presidentes e executivos somas mirabolantes.
É muito importante para nós considerarmos quais atitudes habituais produzem uma liderança piedosa. Algumas perspectivas bíblicas se sobressaem.
Gratidão
William Law, o famoso escritor do século XVIII, perguntou: "Você saberia qual é o maior santo no mundo? Não é aquele que ora mais ou jejua mais. Não é aquele que dá a maior soma de dinheiro [...] mas é aquele que é sempre grato a Deus, aquele que deseja tudo que Deus deseja, e aquele que recebe tudo como um exemplo da bondade de Deus e tem um coração sempre pronto para louvá-lo por ela”.
A gratidão tem um lugar chave nas cartas de Paulo. Um coração grato cumpre perfeitamente o desejo de Deus para os seus filhos. Veja esta exortação: "Em tudo, dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco" (1Ts 5.18). Esse é apenas um entre muitos dos textos que indicam a importância de uma atitude grata. Para um líder segundo o coração de Deus, ela é essencial.
O dom (charisma, formado por charis, "graça" e ma, "efeito") de liderança é dado por Deus (Rm 12.8, NVI). A palavra "gratidão" é formada da mesma radical, "graça" no latim. Como um dom da graça, esse carisma deve produzir uma reação de gratidão no coração de um líder, que, então, encoraja a mesma atitude nos seus seguidores. A gratidão deve ser a emoção que inunda o coração daquele que Deus tem selecionado para influenciar outros e mostrar-lhes o caminho para uma vida frutífera a Deus.
Paralelamente à gratidão encontra-se a injunção bíblica para "alegrar-se sempre no Senhor" (Fp 4.4). Assim como o corpo humano precisa de um coração batendo, a gratidão necessita da alegria. É impossível sentir a gratidão se o coração de uma pessoa está pesado e triste. Porém, quando uma pessoa vê claramente a bondade de Deus operando providencialmente em todas as circunstâncias para trazer glória a si mesmo, a gratidão se torna algo natural.
Através dos Salmos podem ser vistas múltiplas expressões da gratidão de Davi, o líder amado de Israel. Através de suas músicas e poesias, o rei procurou lembrar à nação que o louvor e a gratidão são respostas que cada um deve oferecer a Deus por toda a sua bondade e por suas obras magníficas.
Humildade
Os líderes cristãos não estão imunes à tentação de misturar a fama pessoal e a ambição com o desejo de fazer a diferença no mundo. "Soren Kierkegaard descreve um homem, ou mulher, segundo o próprio coração de Deus como alguém que é 'selecionado cedo e lentamente educado para a obra’. Moisés foi o instrumento escolhido por Deus para livrar o povo de Israel, mas ele aprendera humildade antes de Deus fazer dele um grande líder. Quarenta anos de experiência no deserto o prepararam para liderar".
Onde há falta de humildade será encontrado um espírito crítico. "Não julgueis, para que não sejais julgados" (Mt 7.1), disse o maior líder de todos os tempos. Muitos líderes são sarcasticamente críticos. ''A crítica é a parte da faculdade ordinária do homem; mas, no âmbito espiritual, nada é realizado pela crítica. O efeito da crítica é a divisão dos poderes daquele que é criticado; o Espírito Santo é o único na posição verdadeira de criticar; ele sozinho é capaz de mostrar o que está errado sem machucar ou ferir".
Um espírito humilde fomenta a unidade, pois evita a crítica e concentra-se no encorajamento. Sem a unidade, uma organização comete erros e desperdiça tempo e recursos com brigas internas.
Uma Disposição para Aprender
Os pastores-mestres, e líderes em geral, não somente precisam ser aptos para ensinar e mostrar o caminho, mas também precisam ser aptos para aprender. Qualquer líder que pensa ter aprendido tudo o que ele precisa saber, no seminário ou na faculdade, é como uma ostra com a cabeça enterrada na areia. Neste mundo em que tudo muda rapidamente, o aprendizado contínuo pode ser a chave para a liderança bem-sucedida. Charlie Jones enfatizou o seguinte: "Nunca diga 'eu aprendi', mas 'eu estou aprendendo'; pois qualquer que seja o fato que o líder tenha aprendido no passado, ele precisa ser melhorado e aperfeiçoado. Deixando de lado os livros que tenha lido e as pessoas que tenha encontrado, um líder será a mesma pessoa que era quando começou sua carreira.
Interesse no Reino
Um líder cristão, mais do que ninguém, deve entender como a sua visão e os seus objetivos satisfazem os interesses de Deus. Se os alvos de uma organização são orientados para os valores do mundo, um homem de Deus precisará mudá-los. Jesus disse a todos para procurar o Reino de Deus, pois, na verdade, isto significa que as questões eternas são o critério final para avaliar o sucesso.
"Portanto, se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus" (Cl 3.1). A morte e a ressurreição com Cristo, dramaticamente retratadas no batismo, significam que todo o propósito de vida de uma pessoa necessita ser dirigido por alvos celestiais. Não pode ser mais a quantidade de dinheiro que alguém ganha que conta, mas a quantidade de dinheiro que será colocada nas mãos de Deus para promover e manter o seu Reino. Jesus demonstrou essa realidade através da parábola do administrador infiel (Lc 16.1-13). O significado da parábola pode facilmente ser encontrado na própria explicação de Jesus: o trabalho secular e o dinheiro podem ser transformados em valores do Reino quando são usados para o benefício daqueles que deles necessitam. Não é o tamanho de uma igreja que importa, mas a dedicação de seus membros em cumprirem a Grande Comissão (Mt 28.19) e viverem o fruto do Espírito (Gl 5.22).
Da perspectiva de Deus no mundo, isto é, as atividades seculares que não têm nada a ver com o Reino de Deus, muito do que é realizado é mero desperdício de tempo e de esforço. "Vede prudentemente como andais, não como néscios, e sim como sábios, remindo o tempo, porque os dias são maus" (Ef 5.15,16). O não escolher dos alvos do Reino é estupidez, insensatez e má direção. Ser sábio significa fazer tudo para a glória de Deus, quer bebendo ou comendo, quer trabalhando ou brincando (1Co 10.31).
Todos os cristãos são chamados para servir a Deus em tempo integral. A diferença entre um líder religioso, tal como um pastor e um membro da igreja, e um empresário, não é que o "obreiro" serve Deus e o "leigo" a uma empresa secular. Se não há nenhuma ligação entre o trabalho de uma pessoa e o Reino, tal trabalho precisa ser abandonado. Paulo deixou bem claro que o servo cristão no primeiro século não somente servia ao seu mestre pagão, mas, na verdade, estava servindo ao Senhor e seria por ele recompensado (Ef 6.6-8). Na realidade não há nenhuma atividade secular para aqueles que põem o Reino em primeiro lugar e procuram os seus interesses acima de tudo. Tais trabalhadores "seculares" são colaboradores com Deus (1Co 3.9).
Otimismo
Dentre as mais importantes atitudes que um líder cristão pode adquirir encontra-se a habilidade de avaliar tudo o que acontece positivamente. Como um homem de fé, um líder adotará Romanos 8.28 como seu lenitivo. Pode até parecer que tudo que deveria sair errado vai provavelmente acontecer, mas isso não significa que o líder precise ficar desanimado. Deus, certamente, faz todas as coisas cooperarem para o bem daqueles que o amam e que são chamados segundo o seu propósito. Portanto, mesmo as decisões ruins e as pessoas más são forçadas pela onipotência de Deus a contribuir com algum bem para o propósito final de Deus.
Até a crucificação do nosso Senhor, o maior crime já cometido pelas mãos de iníquos, foi transformada por Deus na maior fonte de bênção para a humanidade. Paulo foi impedido de pregar a Palavra na Ásia e em Bitínia (At 16.6,7), mas isso não quis dizer que Deus não era capaz de fazer uma tremenda obra na Europa. Os aprisionamentos de Paulo foram o resultado das decisões tomadas por pessoas más, cheias de inveja e arrogância, mas isso, em hipótese alguma, significava que o sofrimento do apóstolo foi em vão. "[...] peço que não desfaleçais nas minhas tribulações por vós, pois nisso está a vossa glória" (Ef 3.13). É fácil para nós hoje vermos que aqueles aprisionamentos a Paulo ofereceram oportunidades para redigir cartas para cristãos de todas as gerações. Caso o apóstolo Paulo não tivesse sido encarcerado, é possível que Filipenses, Efésios, Colossenses, Filemom e 2 Timóteo não tivessem sido escritas. Com um Deus onipotente e soberano, não deve ser impossível ver algo positivo em tudo o que acontece ao nosso redor.
Oração Perseverante
Um líder que negligencia a oração provavelmente fracassará, enquanto aquele que faz da oração a sua atividade fundamental tem uma boa chance de alcançar o sucesso. Paulo recomendou aos líderes da igreja de Tessalônica "orar sem cessar" (1 Ts 5.19). Quando um líder perguntou ao famoso missionário e autor, J. Oswald Sanders, quais eram as melhores palavras de exortação que ele podia compartilhar, ele respondeu sem hesitação: "Vigie a sua vida devocional. Um ministério abençoado pelo Espírito é alicerçado em uma vida devocional solidária”. Dr. James Houston do Regent College, em Vancouver, no Canadá afirma audazmente que a oração é a vida do líder. Como o ar que respiramos, a oração é o ambiente que a liderança necessita para descobrir a vontade de Deus e realizar uma visão bíblica.
As decisões banhadas em orações são muito mais prováveis de serem corretas do que aquelas que são baseadas exclusivamente na inteligência humana. "Confia no SENHOR de todo o teu coração e não te estribes no teu próprio entendimento. Reconhece-o em todos os teus caminhos, e ele endireitará as tuas veredas" (Pr 3.5,6). Nate Hubley, antigo presidente da Carter lnk Company, disse-me, muitos anos atrás, que ele podia escolher executivos importantes para gerenciar sua companhia somente depois de orar intensamente pela direção de Deus. Pela oração, ele era capaz de efetivamente estar seguro da assistência de Deus.
Um líder que caiu em sério pecado moral já tinha fracassado antes mesmo que escandalosamente pecasse. Sua vida de oração era um fracasso. Seu pecado era um dos que Samuel prometera não cometer. "Quanto a mim, longe de mim que eu peque contra o SENHOR, deixando de orar por vós [...]" (1Sm 12.23). A oração cria a comunhão (koinonia) com Deus e com a sua vontade; o Getsêmani revela esse principio na vida e morte de Jesus. Assim, quem ora se unirá, como o próprio Jesus foi unido, com a perfeita e soberana vontade de Deus. Naquela posição maravilhosa, providenciada por Jesus Cristo, nós podemos orar a Deus em seu nome e, com o seu aval, que nos dá a certeza de sermos ouvidos pelo Autor do universo.
O que é mais importante para um pastor do que a comunhão com Deus? E. Stanley Jones missionário na Índia escreveu: "A oração é a entrega à vontade de Deus e a cooperação com aquela vontade. Se eu jogo para fora do barco uma âncora para alcançar a margem, eu puxo a margem para mim ou eu puxo o meu barco para a margem? A oração não está puxando Deus para fazer a minha vontade, mas ela está acomodando a minha vontade a vontade de Deus".
Mantendo a Coisa Principal como a "Coisa Principal"
As lições da história provam que uma das estradas mais duras para os líderes seguirem é o caminho que mantêm o propósito original e central da organização nos eixos. O propósito original da Universidade de Harvard era treinar homens piedosos para o ministério do Evangelho. Hoje, ela é uma instituição mais conhecida por sua perspectiva secular do que pela sua propagação das Boas Novas. O primeiro presidente da Universidade Princeton foi Jonathan Edwards, sem dúvida alguma, um dos homens mais piedosos que já andou na face da Terra. A Princeton, hoje, é mais notada pela incredulidade e pelo humanismo do que pela piedade. A coisa principal foi descarrilada há muito tempo.
Pedro afirmou claramente que o propósito do Evangelho é produzir o amor fraternal não fingido (IPe 1.22). Se uma igreja não é notada pelo seu amor fraternal, a conclusão é óbvia: a coisa principal deixou de ser a coisa principal. O mesmo princípio é válido para qualquer organização fundada e dirigida por um cristão.
Os líderes na igreja de Corinto agiram como se a coisa principal fosse o dom de línguas. Paulo corrigiu a maneira errada deles pensarem escrevendo o capítulo 13 de sua primeira carta. Nem a língua de anjos, nem a língua de homens, nem as profecias, nem o conhecimento dos mistérios, nem a fé e nem o sacrifício da vida são dignos de coisa alguma, sem o amor. Uma organização cristã ou uma igreja que é omissa em ensinar seus membros como amar a Deus acima de todas as coisas, e ao seu próximo como a si mesmo, está perdendo a sua direção. Um líder que não procura consertar tais desvios, erra tristemente na perspectiva de Deus, embora ele possa ter um sucesso grandioso aos olhos dos homens.
Muitas igrejas poderiam, sem hesitação, declarar que sua "coisa principal" é o evangelismo. Essa prioridade não deve estar longe do centro da vontade de Deus, como sugerido por João 3.16. Se Deus amou o mundo o suficiente para dar o seu único Filho para a sua redenção, os grupos e os indivíduos que não fazem do evangelismo a sua prioridade têm desviado da "coisa principal". A Grande Comissão para levar o Evangelho a todas as nações, e fazer discípulos delas, necessita estar perto da coisa principal para o nosso Senhor Jesus. Quando missões são de menor importância do que o caro e o impressionante prédio de uma igreja, quando o ar condicionado ou o roupa do coral toma o lugar da preocupação pelos necessitados, é difícil escapar da conclusão de que a coisa mais importante tenha sido rebaixada. Quando tais erros são cometidos, na maioria das vezes, os líderes foram os quem falharam.
Conclusão
A decisão de Deus criar o homem a sua imagem e semelhança tinha o objetivo de encher a terra com criaturas inteligentes que pudessem liderar ("tenha domínio”, Gn 1.26) debaixo da soberania geral de Deus. A Queda deturpou o propósito de Deus na criação, pois o homem pecador procurou dominar para a sua própria satisfação egoísta. Essa é a única explicação para todos os males encontradas na sociedade humana. A ganância, a hostilidade e o egoísmo que motiva a liderança sem Deus deixam as suas marcas inconfundíveis em todos os grupos imperfeitos, incluindo nas Igrejas.
Nós temos procurado demonstrar as atitudes piedosas necessárias para a liderança que Deus pode usar. Se as atitudes pecadoras não fossem prevalecentes, o propósito original da criação do homem seria predominante. A liderança que, de alguma forma, inclui domínio sobre as pessoas, pode ser uma boa coisa quando ela é centralizada em Deus e reflete o seu caráter santo e amoroso. Os problemas na liderança podem, na maioria dos casos, ser explicados pelo fracasso na prática de uma liderança piedosa, ou por seguidores pecadores que rejeitam os valores bíblicos que um líder piedoso tem procurado implementar.
A Bíblia proporciona os melhores exemplos de líderes piedosos para serem imitados. Porém, nenhum exemplo pode se comparar com a liderança de Jesus Cristo, o Filho de Deus. Se os cristãos aceitassem o seu convite para tomarem o seu jugo sobre si mesmos e aprenderem dele (Mt 11.29), a liderança piedosa seria algo normal. Juntamente com a pessoa e o ensinamento do nosso Senhor, as Escrituras nos conduzem para a direção de muitas outras lições valiosas e uma liderança segundo o coração de Deus. O leitor deve estar alerta para aproveitar esses exemplos.
(O líder que Deus usa – Russel Shed. Pg.54)
É muito importante para nós considerarmos quais atitudes habituais produzem uma liderança piedosa. Algumas perspectivas bíblicas se sobressaem.
Gratidão
William Law, o famoso escritor do século XVIII, perguntou: "Você saberia qual é o maior santo no mundo? Não é aquele que ora mais ou jejua mais. Não é aquele que dá a maior soma de dinheiro [...] mas é aquele que é sempre grato a Deus, aquele que deseja tudo que Deus deseja, e aquele que recebe tudo como um exemplo da bondade de Deus e tem um coração sempre pronto para louvá-lo por ela”.
A gratidão tem um lugar chave nas cartas de Paulo. Um coração grato cumpre perfeitamente o desejo de Deus para os seus filhos. Veja esta exortação: "Em tudo, dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco" (1Ts 5.18). Esse é apenas um entre muitos dos textos que indicam a importância de uma atitude grata. Para um líder segundo o coração de Deus, ela é essencial.
O dom (charisma, formado por charis, "graça" e ma, "efeito") de liderança é dado por Deus (Rm 12.8, NVI). A palavra "gratidão" é formada da mesma radical, "graça" no latim. Como um dom da graça, esse carisma deve produzir uma reação de gratidão no coração de um líder, que, então, encoraja a mesma atitude nos seus seguidores. A gratidão deve ser a emoção que inunda o coração daquele que Deus tem selecionado para influenciar outros e mostrar-lhes o caminho para uma vida frutífera a Deus.
Paralelamente à gratidão encontra-se a injunção bíblica para "alegrar-se sempre no Senhor" (Fp 4.4). Assim como o corpo humano precisa de um coração batendo, a gratidão necessita da alegria. É impossível sentir a gratidão se o coração de uma pessoa está pesado e triste. Porém, quando uma pessoa vê claramente a bondade de Deus operando providencialmente em todas as circunstâncias para trazer glória a si mesmo, a gratidão se torna algo natural.
Através dos Salmos podem ser vistas múltiplas expressões da gratidão de Davi, o líder amado de Israel. Através de suas músicas e poesias, o rei procurou lembrar à nação que o louvor e a gratidão são respostas que cada um deve oferecer a Deus por toda a sua bondade e por suas obras magníficas.
Humildade
Os líderes cristãos não estão imunes à tentação de misturar a fama pessoal e a ambição com o desejo de fazer a diferença no mundo. "Soren Kierkegaard descreve um homem, ou mulher, segundo o próprio coração de Deus como alguém que é 'selecionado cedo e lentamente educado para a obra’. Moisés foi o instrumento escolhido por Deus para livrar o povo de Israel, mas ele aprendera humildade antes de Deus fazer dele um grande líder. Quarenta anos de experiência no deserto o prepararam para liderar".
Onde há falta de humildade será encontrado um espírito crítico. "Não julgueis, para que não sejais julgados" (Mt 7.1), disse o maior líder de todos os tempos. Muitos líderes são sarcasticamente críticos. ''A crítica é a parte da faculdade ordinária do homem; mas, no âmbito espiritual, nada é realizado pela crítica. O efeito da crítica é a divisão dos poderes daquele que é criticado; o Espírito Santo é o único na posição verdadeira de criticar; ele sozinho é capaz de mostrar o que está errado sem machucar ou ferir".
Um espírito humilde fomenta a unidade, pois evita a crítica e concentra-se no encorajamento. Sem a unidade, uma organização comete erros e desperdiça tempo e recursos com brigas internas.
Uma Disposição para Aprender
Os pastores-mestres, e líderes em geral, não somente precisam ser aptos para ensinar e mostrar o caminho, mas também precisam ser aptos para aprender. Qualquer líder que pensa ter aprendido tudo o que ele precisa saber, no seminário ou na faculdade, é como uma ostra com a cabeça enterrada na areia. Neste mundo em que tudo muda rapidamente, o aprendizado contínuo pode ser a chave para a liderança bem-sucedida. Charlie Jones enfatizou o seguinte: "Nunca diga 'eu aprendi', mas 'eu estou aprendendo'; pois qualquer que seja o fato que o líder tenha aprendido no passado, ele precisa ser melhorado e aperfeiçoado. Deixando de lado os livros que tenha lido e as pessoas que tenha encontrado, um líder será a mesma pessoa que era quando começou sua carreira.
Interesse no Reino
Um líder cristão, mais do que ninguém, deve entender como a sua visão e os seus objetivos satisfazem os interesses de Deus. Se os alvos de uma organização são orientados para os valores do mundo, um homem de Deus precisará mudá-los. Jesus disse a todos para procurar o Reino de Deus, pois, na verdade, isto significa que as questões eternas são o critério final para avaliar o sucesso.
"Portanto, se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus" (Cl 3.1). A morte e a ressurreição com Cristo, dramaticamente retratadas no batismo, significam que todo o propósito de vida de uma pessoa necessita ser dirigido por alvos celestiais. Não pode ser mais a quantidade de dinheiro que alguém ganha que conta, mas a quantidade de dinheiro que será colocada nas mãos de Deus para promover e manter o seu Reino. Jesus demonstrou essa realidade através da parábola do administrador infiel (Lc 16.1-13). O significado da parábola pode facilmente ser encontrado na própria explicação de Jesus: o trabalho secular e o dinheiro podem ser transformados em valores do Reino quando são usados para o benefício daqueles que deles necessitam. Não é o tamanho de uma igreja que importa, mas a dedicação de seus membros em cumprirem a Grande Comissão (Mt 28.19) e viverem o fruto do Espírito (Gl 5.22).
Da perspectiva de Deus no mundo, isto é, as atividades seculares que não têm nada a ver com o Reino de Deus, muito do que é realizado é mero desperdício de tempo e de esforço. "Vede prudentemente como andais, não como néscios, e sim como sábios, remindo o tempo, porque os dias são maus" (Ef 5.15,16). O não escolher dos alvos do Reino é estupidez, insensatez e má direção. Ser sábio significa fazer tudo para a glória de Deus, quer bebendo ou comendo, quer trabalhando ou brincando (1Co 10.31).
Todos os cristãos são chamados para servir a Deus em tempo integral. A diferença entre um líder religioso, tal como um pastor e um membro da igreja, e um empresário, não é que o "obreiro" serve Deus e o "leigo" a uma empresa secular. Se não há nenhuma ligação entre o trabalho de uma pessoa e o Reino, tal trabalho precisa ser abandonado. Paulo deixou bem claro que o servo cristão no primeiro século não somente servia ao seu mestre pagão, mas, na verdade, estava servindo ao Senhor e seria por ele recompensado (Ef 6.6-8). Na realidade não há nenhuma atividade secular para aqueles que põem o Reino em primeiro lugar e procuram os seus interesses acima de tudo. Tais trabalhadores "seculares" são colaboradores com Deus (1Co 3.9).
Otimismo
Dentre as mais importantes atitudes que um líder cristão pode adquirir encontra-se a habilidade de avaliar tudo o que acontece positivamente. Como um homem de fé, um líder adotará Romanos 8.28 como seu lenitivo. Pode até parecer que tudo que deveria sair errado vai provavelmente acontecer, mas isso não significa que o líder precise ficar desanimado. Deus, certamente, faz todas as coisas cooperarem para o bem daqueles que o amam e que são chamados segundo o seu propósito. Portanto, mesmo as decisões ruins e as pessoas más são forçadas pela onipotência de Deus a contribuir com algum bem para o propósito final de Deus.
Até a crucificação do nosso Senhor, o maior crime já cometido pelas mãos de iníquos, foi transformada por Deus na maior fonte de bênção para a humanidade. Paulo foi impedido de pregar a Palavra na Ásia e em Bitínia (At 16.6,7), mas isso não quis dizer que Deus não era capaz de fazer uma tremenda obra na Europa. Os aprisionamentos de Paulo foram o resultado das decisões tomadas por pessoas más, cheias de inveja e arrogância, mas isso, em hipótese alguma, significava que o sofrimento do apóstolo foi em vão. "[...] peço que não desfaleçais nas minhas tribulações por vós, pois nisso está a vossa glória" (Ef 3.13). É fácil para nós hoje vermos que aqueles aprisionamentos a Paulo ofereceram oportunidades para redigir cartas para cristãos de todas as gerações. Caso o apóstolo Paulo não tivesse sido encarcerado, é possível que Filipenses, Efésios, Colossenses, Filemom e 2 Timóteo não tivessem sido escritas. Com um Deus onipotente e soberano, não deve ser impossível ver algo positivo em tudo o que acontece ao nosso redor.
Oração Perseverante
Um líder que negligencia a oração provavelmente fracassará, enquanto aquele que faz da oração a sua atividade fundamental tem uma boa chance de alcançar o sucesso. Paulo recomendou aos líderes da igreja de Tessalônica "orar sem cessar" (1 Ts 5.19). Quando um líder perguntou ao famoso missionário e autor, J. Oswald Sanders, quais eram as melhores palavras de exortação que ele podia compartilhar, ele respondeu sem hesitação: "Vigie a sua vida devocional. Um ministério abençoado pelo Espírito é alicerçado em uma vida devocional solidária”. Dr. James Houston do Regent College, em Vancouver, no Canadá afirma audazmente que a oração é a vida do líder. Como o ar que respiramos, a oração é o ambiente que a liderança necessita para descobrir a vontade de Deus e realizar uma visão bíblica.
As decisões banhadas em orações são muito mais prováveis de serem corretas do que aquelas que são baseadas exclusivamente na inteligência humana. "Confia no SENHOR de todo o teu coração e não te estribes no teu próprio entendimento. Reconhece-o em todos os teus caminhos, e ele endireitará as tuas veredas" (Pr 3.5,6). Nate Hubley, antigo presidente da Carter lnk Company, disse-me, muitos anos atrás, que ele podia escolher executivos importantes para gerenciar sua companhia somente depois de orar intensamente pela direção de Deus. Pela oração, ele era capaz de efetivamente estar seguro da assistência de Deus.
Um líder que caiu em sério pecado moral já tinha fracassado antes mesmo que escandalosamente pecasse. Sua vida de oração era um fracasso. Seu pecado era um dos que Samuel prometera não cometer. "Quanto a mim, longe de mim que eu peque contra o SENHOR, deixando de orar por vós [...]" (1Sm 12.23). A oração cria a comunhão (koinonia) com Deus e com a sua vontade; o Getsêmani revela esse principio na vida e morte de Jesus. Assim, quem ora se unirá, como o próprio Jesus foi unido, com a perfeita e soberana vontade de Deus. Naquela posição maravilhosa, providenciada por Jesus Cristo, nós podemos orar a Deus em seu nome e, com o seu aval, que nos dá a certeza de sermos ouvidos pelo Autor do universo.
O que é mais importante para um pastor do que a comunhão com Deus? E. Stanley Jones missionário na Índia escreveu: "A oração é a entrega à vontade de Deus e a cooperação com aquela vontade. Se eu jogo para fora do barco uma âncora para alcançar a margem, eu puxo a margem para mim ou eu puxo o meu barco para a margem? A oração não está puxando Deus para fazer a minha vontade, mas ela está acomodando a minha vontade a vontade de Deus".
Mantendo a Coisa Principal como a "Coisa Principal"
As lições da história provam que uma das estradas mais duras para os líderes seguirem é o caminho que mantêm o propósito original e central da organização nos eixos. O propósito original da Universidade de Harvard era treinar homens piedosos para o ministério do Evangelho. Hoje, ela é uma instituição mais conhecida por sua perspectiva secular do que pela sua propagação das Boas Novas. O primeiro presidente da Universidade Princeton foi Jonathan Edwards, sem dúvida alguma, um dos homens mais piedosos que já andou na face da Terra. A Princeton, hoje, é mais notada pela incredulidade e pelo humanismo do que pela piedade. A coisa principal foi descarrilada há muito tempo.
Pedro afirmou claramente que o propósito do Evangelho é produzir o amor fraternal não fingido (IPe 1.22). Se uma igreja não é notada pelo seu amor fraternal, a conclusão é óbvia: a coisa principal deixou de ser a coisa principal. O mesmo princípio é válido para qualquer organização fundada e dirigida por um cristão.
Os líderes na igreja de Corinto agiram como se a coisa principal fosse o dom de línguas. Paulo corrigiu a maneira errada deles pensarem escrevendo o capítulo 13 de sua primeira carta. Nem a língua de anjos, nem a língua de homens, nem as profecias, nem o conhecimento dos mistérios, nem a fé e nem o sacrifício da vida são dignos de coisa alguma, sem o amor. Uma organização cristã ou uma igreja que é omissa em ensinar seus membros como amar a Deus acima de todas as coisas, e ao seu próximo como a si mesmo, está perdendo a sua direção. Um líder que não procura consertar tais desvios, erra tristemente na perspectiva de Deus, embora ele possa ter um sucesso grandioso aos olhos dos homens.
Muitas igrejas poderiam, sem hesitação, declarar que sua "coisa principal" é o evangelismo. Essa prioridade não deve estar longe do centro da vontade de Deus, como sugerido por João 3.16. Se Deus amou o mundo o suficiente para dar o seu único Filho para a sua redenção, os grupos e os indivíduos que não fazem do evangelismo a sua prioridade têm desviado da "coisa principal". A Grande Comissão para levar o Evangelho a todas as nações, e fazer discípulos delas, necessita estar perto da coisa principal para o nosso Senhor Jesus. Quando missões são de menor importância do que o caro e o impressionante prédio de uma igreja, quando o ar condicionado ou o roupa do coral toma o lugar da preocupação pelos necessitados, é difícil escapar da conclusão de que a coisa mais importante tenha sido rebaixada. Quando tais erros são cometidos, na maioria das vezes, os líderes foram os quem falharam.
Conclusão
A decisão de Deus criar o homem a sua imagem e semelhança tinha o objetivo de encher a terra com criaturas inteligentes que pudessem liderar ("tenha domínio”, Gn 1.26) debaixo da soberania geral de Deus. A Queda deturpou o propósito de Deus na criação, pois o homem pecador procurou dominar para a sua própria satisfação egoísta. Essa é a única explicação para todos os males encontradas na sociedade humana. A ganância, a hostilidade e o egoísmo que motiva a liderança sem Deus deixam as suas marcas inconfundíveis em todos os grupos imperfeitos, incluindo nas Igrejas.
Nós temos procurado demonstrar as atitudes piedosas necessárias para a liderança que Deus pode usar. Se as atitudes pecadoras não fossem prevalecentes, o propósito original da criação do homem seria predominante. A liderança que, de alguma forma, inclui domínio sobre as pessoas, pode ser uma boa coisa quando ela é centralizada em Deus e reflete o seu caráter santo e amoroso. Os problemas na liderança podem, na maioria dos casos, ser explicados pelo fracasso na prática de uma liderança piedosa, ou por seguidores pecadores que rejeitam os valores bíblicos que um líder piedoso tem procurado implementar.
A Bíblia proporciona os melhores exemplos de líderes piedosos para serem imitados. Porém, nenhum exemplo pode se comparar com a liderança de Jesus Cristo, o Filho de Deus. Se os cristãos aceitassem o seu convite para tomarem o seu jugo sobre si mesmos e aprenderem dele (Mt 11.29), a liderança piedosa seria algo normal. Juntamente com a pessoa e o ensinamento do nosso Senhor, as Escrituras nos conduzem para a direção de muitas outras lições valiosas e uma liderança segundo o coração de Deus. O leitor deve estar alerta para aproveitar esses exemplos.
(O líder que Deus usa – Russel Shed. Pg.54)
AS RECOMPENSAS DA LIDERANÇA
No mundo, a liderança ganha prêmios de compensação monetária que refletem a importância da posição do líder dentro da companhia ou da organização. A contribuição que ele dá para os lucros da companhia faz justiça proporcional ao prêmio financeiro. Inclusive, nosso Senhor insistiu no fato de que os prêmios celestiais são muito mais valiosos do que as vantagens terrenas. O pouco retorno sobre o investimento de esforço e de sofrimento de um líder na Terra não significa, de forma alguma, que os prêmios devidos aos obreiros de Deus tenham sido esquecidos ou anulados.
Há prêmios que não podem ser medidos financeiramente ou em benefícios materiais. Uma coisa é biblicamente correta: qualquer coisa feita para Deus não será esquecida. Os incentivos de Deus para os serviços com dedicação devem sempre ficar gravados em nossas mentes. O alvo neste último capítulo é refletir sobre algumas das recompensas que os líderes piedosos podem esperar. Paulo acreditava nesses prêmios, como revela o que ele escreveu: "Portanto, meus amados irmãos, sede firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o vosso trabalho não é vão" (1Co 15.58).
Realização
Deus tem implantado um desejo no coração do homem para este ser útil, para que faça uma diferença para melhor. Um aspecto da imagem de Deus em nós envolve o alto valor que a realização tem para nós. Enquanto um animal pode desfrutar do brincar e de outros prazeres que ele pode compartilhar com os seres humanos, somente nós, humanos, podemos antecipar e apreciar a realização. Uma vida vazia é uma vida não realizada.
Sentir-se realizado, significa que a realização traz um prêmio interno, um sentimento de satisfação por podermos alcançar o que esperávamos realizar. A vida é vazia quando o trabalho não vai além da rotina; a tarefa poderia ter sido feita até por uma máquina. Porém, quando a criatividade aparece em cena, e o envolvimento pessoal traz uma alegria constante nas vidas de outras pessoas, todos nós nos sentimos realizados. Por essa razão, os líderes têm o alto potencial para regozijar-se com a realização.
Paulo teve mais do que uma porção no prazer de melhorar a vida de outros. Quando ele diz: "[...] uma porta grande e oportuna para o trabalho se me abriu" (lCo 16.9), ele referiu-se a alegria do trabalho para Deus de uma forma que trouxesse sua própria recompensa. Nenhum dinheiro estava envolvido, nenhum conforto especial ou vantagens carnais sobrevieram a ele. Ele simplesmente reconheceu que em Éfeso, o entusiasmo estava alto. Muitos queriam ouvi-lo pregar e ensinar o "Evangelho da graça de Deus" (At 20.24). O sucesso no ministério de Paulo foi além de suas expectativas. Todos os habitantes da Ásia puderam ouvir o Evangelho e ver os milagres extraordinários que foram operados através de suas mãos (At 19.10,11). Um dos prêmios mais cobiçados que qualquer líder pode desfrutar vem com o sentimento de realização que o sucesso traz. Essa deve ser a base da mensagem da seguinte frase: "contanto que complete a minha carreira" (At 20.24). O apóstolo sabia que o partir e o estar com Cristo eram incomparavelmente melhor do que o viver na Terra, ainda assim ele estava disposto a permanecer na Terra para abençoar a vida dos filipenses (Fl 1.23,24). O crescimento e o progresso da igreja de Filipos foi, para o apóstolo, "sua coroa e alegria" (4.1). Quando Deus dá para um de seus servos a certeza de que conseguirá influenciar outros beneficamente, fazendo tudo aquilo que Deus deseja, ele o recompensa com um senso satisfatório de realização.
Como liderança significa "a influência para uma mudança benéfica", Jesus escolheu seus discípulos-líderes para produzirem o fruto duradouro ("o vosso fruto permaneça”, Jo 15.16). Quando um líder pode ver que Deus o tem usado para melhorar as vidas e que aquelas mudanças positivas são a longo prazo, ele sente a recompensa. Ele tem realizado com êxito a missão que Deus escolhera para ele. Ele pode morrer sem aquele sentimento incômodo de que tem um débito não pago para com a humanidade (cf. Rm 1.14). A satisfação substitui esse sentimento importuno que aparece de uma obrigação não realizada.
As quantidades imensuráveis de esforço e sofrimento gastos são pagos pelo fato de um líder saber que ele tem sido usado por Deus ao máximo do seu potencial. Por isso, o descontentamento destrói as melhores intenções de um líder; ele conclui que Deus não o está usando. Billy Graham, ainda moço, reconheceu os esforços que um ministério evangelístico exigia. Ele orou pela compensação de ver pessoas sendo tocadas por uma fé salvadora em Cristo. "Se o Senhor não salvar pessoas através de mim, deixe-me morrer. Eu não quero viver". Deus muitas vezes responde a uma oração sincera como essa com bênçãos evidentes e sucesso espiritual. Pense no sentimento de realização que o Dr. Graham continua tendo, mesmo durante esses últimos dias de sua vida!
Fama
É comum, para os líderes, atraírem um grupo de seguidores. Isso aconteceu durante o ministério de Jesus. Marcos nos informa que: "Correu célere a fama de Jesus em todas as direções, por toda a circunvizinhança da Galiléia" (Mc 1.28). Quando Jesus deu de comer para as cinco mil pessoas temos uma indicação da extensão da divulgação de sua fama. Sua entrada triunfal em Jerusalém, narrada em todos os Evangelhos, demonstra que Jesus tinha ganhado a boa vontade das pessoas simples. A artimanha para matar Jesus foi causada principalmente pela inveja provocada pela sua fama crescente ao 11.47-50). Quanto mais um líder sobe na escada do sucesso, maior será a sua fama.
Paulo recebeu uma fama bem merecida devido à sua ousadia. Ele chegara à Tessalônica não como um pregador itinerante desconhecido. Os judeus arrastaram Jasom e alguns dos novos convertidos para levá-los diante das autoridades (eles não tinham encontrado Paulo) declarando: "Estes que têm transtornado o mundo chegaram também aqui" (At 17.6).
Quando um líder tem "boa fama" (cf. FI 4.8), ele se sente rico, não em possessões materiais, mas no caloroso reconhecimento que as pessoas têm por ele. Os políticos honestos e dedicados, sem dúvida alguma, encontram em sua boa reputação o pagamento adequado pela sua auto¬negação e esforço. A gratificação está no fato deles serem reconhecidos nos livros históricos, e que sua fama se estenda além do curto período da vida. Os ensinamentos da Bíblia não concordam com a fama como a motivação para procurar as posições de liderança, mas quando a motivação é correta, a fama que segue não é condenada. Maria da Betânia ungiu Jesus sem pensar em ganhar fama. Jesus, porém, disse: "Em verdade vos digo: onde for pregado em todo o mundo o evangelho, será também contado o que ela fez, para memória sua" (Mc 14.9).
Se olharmos mais de perto na fama, o acompanhante natural da liderança, ficaremos surpresos ao encontrar a advertência de Jesus: "Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós" (Mt 5.11). A perseguição que os líderes cristãos sofrem, da parte de perseguidores mentirosos, é um sinal nítido da "boa fama" deles diante de Deus. "Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós" (v.12). Apesar da esperada oposição diabólica: "[...] é necessário que ele (o pastor/bispo) tenha o bom testemunho dos de fora” (1Tm 3.7). Os primeiros cristãos contaram "com a simpatia de todo o povo" (At 2.47). Essa é uma avaliação positiva que o cristianismo deles estava recebendo da comunidade.
Os líderes também precisam ter uma boa reputação na sociedade (At 6.3; Tt 1.6,7) para estarem aptos para cumprir com suas obrigações. Portanto, se eles tiverem uma maioria significante de seus seguidores falando bem de si, poderão sentir-se bem recompensados por seu esforço sacrificial.
Preenchendo o Que Está Faltando
Paulo escreveu para os colossenses que estava regozijando-se em seus sofrimentos por eles: "E preencho o que resta das aflições de Cristo, na minha carne, a favor do seu corpo, que é a igreja" (1.24). Claramente, os sofrimentos de que Paulo está se referindo são aquelas aflições que resultaram da sua liderança. Os colossenses mesmos não estavam sofrendo, mas as privações e o aprisionamento do apóstolo eram a conseqüência direta da escolha que Deus tinha feito para elevá-lo ao raro cume da liderança. Em Efésios, ele colocou desta forma: "a dispensação da graça de Deus a mim confiada para vós outros [...] a mim, o menor de todos os santos, me foi dada esta graça de pregar aos gentios o evangelho das insondáveis riquezas de Cristo" (Ef 3.2,8).
Em lugar algum, Paulo esconde o fato de que a escolha de Deus para ser um apóstolo-evangelista tinha uma recompensa nesta vida. Ele estava mais do que contente com o seu chamado, apesar do sofrimento intenso que isso acarretou (2Co 11.23-29). A razão para a sua alegria estava no privilégio que Deus lhe tinha concedido para cumprir uma função cen¬tral na história da salvação. Humildemente conhecendo a si mesmo como o menor dos santos, a ele foi dado as chaves do Reino para abrir a porta da salvação para os gentios (compare com as chaves dadas a Pedro, Mt 16.19). Paulo não hesitou em ver a "graça de Deus" nessa designação especial.
Nenhum líder deve rejeitar o estresse, as longas horas, o trabalho intenso e tudo o mais que a sua posição envolve, porquanto ele está confiante de que Deus o tem escolhido para aquela função. Será melhor ainda, se ele, como Paulo, pode ver o significado eterno do privilégio de usar, pelo menos uma, das pequenas chaves do Reino. Ele tem motivo para regozijar-se. Se um líder sabe que está "preenchendo o que está faltando", ele deve sentir-se bem recompensado nesta vida.
Peso de Glória
Os autores do Novo Testamento enfatizam a recompensa futura que será concedida no Céu. Jesus ensinou diretamente e em parábolas que uma pessoa não deve procurar a recompensa em retorno dos investimentos do Reino, nesta vida. Todos aqueles que procuram a aprovação de homens porque eles dão esmolas, ou oram muito, ou jejuam, tiveram suas recompensas pagas completamente aqui. Não há nada mais para se esperar (Mt 6.1-18). Aqueles que, por outro lado, fazem essas coisas secretamente, serão recompensados por Deus. Desse ensino podemos concluir, confiantemente, que a liderança exercida para a glória de Deus será recompensada no mundo por vir.
A base para tal recompensa será o amor e o sacrifício que motivam as boas obras. É possível supor que os líderes fazem mais o bem do que os seguidores por causa das conseqüências benéficas que alcançam mais pessoas. Um copo de água fria oferecida no nome de Jesus para um caminhante sedento não perderá a sua recompensa. A obra precisa ser motivada pelo amor já que a frase "no nome de Jesus" indica isso.
Porém, aqueles que tenham deixado os familiares e suas casas para seguirem a Jesus e pela causa do Evangelho, receberão "o cêntuplo de casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições; e, no mundo por vir, a vida eterna” (Mc 10.30). Muitos que são os primeiros serão os últimos, e os que são últimos serão os primeiros (v.30). Com essas palavras, Jesus outra vez mostra que ele tinha líderes em mente (ter mais do que uma mãe e ganhar cem casas, confirma essa conclusão). Jesus avisa que o mérito aparente pode ser contrário ao mérito verdadeiro perante o Juiz do universo. As motivações e os sentimentos interiores valem mais do que um simples abandono de família e de casa. Há muito mais sacrifício e amor nos corações de alguns servos do que nos de outros. Dois líderes podem, externamente, lidar com uma mesma tarefa debaixo de circunstâncias semelhantes: um será recompensado abundantemente; o outro, não será. Pense nas palavras de Paulo: "E ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará" (1Co 13.3). Deus sabe o tamanho do sacrifício, canto quanto o mérito da motivação (Lc 7.47). Ele recompensará os seus servos na proporção do amor deles.
As parábolas das Minas e dos Talentos (Lc 19.11-27 e Mt 25.14¬30) conduzem para as recompensas futuras reservadas para os líderes que servem bem a seu Senhor nesta vida. O homem que recebera uma mina, e que rendeu dez, foi elogiado por seu mestre: "Muito bem, servo bom; porque foste fiel no pouco, terás autoridade sobre dez cidades" (Lc 19.17). Os servos que dobraram os seus talentos foram reconhecidos pela fidelidade deles sobre as coisas pequenas. Foram prometidos: "Sobre o muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor" (Mt 25.21,23).
Temos pouca informação sobre a natureza da recompensa dada para trabalhadores fiéis. O texto indica que haverá dois tipos de recompensas. Um tipo é a aprovação expressa do Senhor. O segundo refere-se ao exercício da responsabilidade sobre algum tipo de reino. O retrato, embora não claro, focaliza para uma responsabilidade futura sobre outras pessoas, semelhante àquela de um governador benevolente. Isso se encaixa com a promessa dada para aqueles que perseverarem (2Tm 2.12), compartilhando o reinado como reis com Jesus Cristo. Um dos aspectos que líderes fiéis e dedicados podem antecipar é a participação na alegria do próprio Senhor.
Paulo ensina que os líderes da igreja que constroem o templo de Deus (a Igreja) com ouro, prata e pedras preciosas serão recompensados. O trabalho deles não sofrerá o prejuízo destrutivo do "fogo" no dia do juízo (lCo 3.13). Além da beleza e da permanência do trabalho que eles realizaram, esses bons líderes, regozijarão em ver o trabalho honrado. "Manifesta se tornará a obra de cada um", sugere que, a contribuição deles para o programa de construção eterno, de Deus, será um motivo de reconhecimento e a causa de grande regozijo. Os líderes ruins, por outro lado, terão muitas razões para o remorso. O trabalho deles, comparado à madeira, ao feno e ao restolho, será destruído pelo fogo do juízo. Mesmo sendo salvos, serão envergonhados pela perda (v.15). A esperada recompensa deles será transformada em cinzas inúteis.
Pior ainda, segundo Jesus, será o fim do mau líder que passou a "espancar os criados e as criadas, a comer, a beber e a embriagar-se". No lugar da recompensa, ele será castigado: "lançando-lhe a sorte com os infiéis" (Lc 12.45,46). Evidentemente, nessa passagem, Jesus tinha em vista os falsos líderes. Os homens, que como os "mercadejadores da Palavra” (2Co 2.17) têm os objetivos contrários aos do nosso Senhor. A avareza controla o coração deles, em vez do amor.
Em 2 Coríntios, Paulo vai além para descrever a recompensa do líder sofredor e piedoso como um "incomparável, eterno peso de glória (4.17). Em comparação com essa recompensa, todos os sofrimentos presentes tornam-se insignificantes. Como a pena de um passarinho em um prato de uma balança, e uma barra enorme de ouro no outro lado, não há como comparar o peso de um com o outro. A palavra "glória" no Antigo Testamento significa "peso" (kabod) indicando que, na cultura hebraica antiga, as riquezas e os valores eram vistos em termos do "peso" deles. A riqueza eterna, então, do bom servo que tem sofrido para ser apto a liderar outros para Deus, será recompensada com infindável e intensa alegria. Bem-aventurados, certamente, são aqueles que não fugiram da dor, nem negligenciaram o cuidado dos seus seguidores (Fp 2.20).
A nossa visão incerta do futuro de glória, prometido para os servos fiéis, pode receber um pouco de luz da oração sacerdotal de Jesus. Ele orou: "Eu lhes tenho transmitido a glória que me tens dado, para que sejam um, como nós o somos" (Jo 17.22). A glória dada por Jesus aos seus discípulos foi o privilégio de um relacionamento íntimo com ele. Por causa da conexão deles com ele, puderam manter um relacionamento próximo uns com os outros. A união imperfeita (por causa do pecado e da carne) que o Corpo de Cristo agora experimenta, através da presença do Espírito Santo (1Co 12.13; Ef 4.3), antecipa a união perfeita que aguarda os santos glorificados quando Jesus Cristo voltar. O apóstolo declarou que "o amor jamais acaba" (1Co 13.8). O amor divino perfeito que une todos os santos a Deus e, uns aos outros, é o que a glória futura representa. Agora, nós podemos entender a razão pela qual Jesus incluiu em sua oração a petição para os discípulos estarem com Cristo para ver a sua glória: "porque me amaste antes da fundação do mundo" (Jo 17.24). Outra vez, olhando para o futuro: "[...] farei conhecer (o nome do Pai) mais, para que o amor com que me tens amado esteja neles, e eu neles esteja" (Jo 17.26). A unidade futura com Deus e com os irmãos e irmãs remidos será a recompensa mais gloriosa que qualquer líder pode receber.
Há ainda uma outra questão. Como será esse futuro de glória, mais ou menos, na proporção da dedicação e sacrifício dos servos de Deus? Alguns líderes cristãos vivem basicamente de forma egoísta, com pouca preocupação com Deus e com as pessoas. Outros líderes vivem de forma dedicada e abnegada de maneira que um incomparável peso de glória não parece ser uma recompensa grande demais.
A melhor conclusão parece ser a seguinte: Deus vê esta vida como um tipo de escola ou vestibular para a eternidade. Os anos que temos o privilégio de viver nesta Terra não são realmente um tempo para ganhar mérito, mas para aumentar a nossa capacidade para amar a Deus e alegremente servi-lo, influenciando outras pessoas.
De alguma forma, somos como aqueles que se dedicaram à recreação, à diversão, ao esporte ou qualquer outra atividade prazerosa. À medida que uma pessoa vai dedicando-se a uma atividade específica, ela aumenta a sua capacidade de desfrutar daquilo. Permita-me tentar ilustrar essa idéia. Há alguns anos, a Orquestra Filarmônica de Nova Iorque veio a São Paulo. Um dos músicos era um cristão que decidiu convidar a minha família para o ensaio da orquestra no Anhembi, em São Paulo. Imagine, por um momento, que tivéssemos conosco um caipira do interior do Amazonas; uma pessoa que nunca tivesse ouvido qualquer música clássica. Imagine que nós o convidássemos para nos acompanhar e desfrutar dessa apresentação gratuita. Não precisaria nem dizer que após alguns minutos da apresentação o nosso convidado ficaria completamente entediado. Ele procuraria qualquer desculpa para fazer algo mais interessante e emocionante. O hobby do líder cristão é de deleitar-se no Senhor e de influenciar outros para Deus. Não creio que alguém, na eternidade, será capaz de determinar o quanto um outro santo estará se deleitando em Deus. Porém, não é provável que aqueles que têm investido mais no relacionamento deles com Deus e pago um alto preço no exercício de sua liderança piedosa, serão os que gozarão mais das recompensas da eternidade.
O apóstolo Pedro abre uma janela para o futuro no dia do retorno do nosso Senhor. Nossa herança futura, recebida pela graça através da morte e ressurreição de Cristo, é incorruptível, sem mácula e imarcescível. Ela não pode ser tocada pela decomposição da morte, tampouco pela mancha do pecado ou do definhamento que uma bela flor tem. Uma vez que a nossa fé está confirmada, "mesmo apurada pelo fogo", ela é destinada a redundar "em louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo" (1Pe 1.4-7). Tudo isso é a causa para nos alegrarmos agora, mas muito mais no futuro quando o veremos face a face (1Co 13.12).
Quanto mais um líder ama o seu Senhor, maior será a sua alegria na vinda deste. Essa é a verdadeira e incomparável recompensa de todos aqueles que têm humilde e sacrificialmente servido a Deus nesta vida.
A visão celestial de João nos informa que aqueles que têm saído de grandes tribulações, tendo lavado suas vestimentas no sangue do cordeiro, ficarão de pé diante do trono de Deus e servirão a ele no seu santuário dia e noite. Deus estenderá sobre eles o seu tabernáculo. Não haverá mais fome e sede, e nem o calor do Solos incomodará mais. O cordeiro será o pastor que os guiará para as fontes de água viva. Nem haverá mais lágrimas em seus olhos (Ap 7.14-17). Claramente, o mais desejável aspecto da recompensa futura de qualquer líder está na sua proximidade de Deus Pai e do Filho. Como base desse maravilhoso retrato das recompensas futuras, podemos ver a recompensa para a liderança abnegada, pois, quem derrama mais lágrimas do que o pastor que ama seu rebanho intensamente (At 20.19,31)? Quem será o mais apreciativo da função pastoral, apascentando e guiando as ovelhas para as fontes de água viva, senão aquele que durante a sua vida na Terra esforçou-se, sobremaneira, para fazer isso para o seu rebanho?
Considerações Finais
Procuramos esclarecer a natureza e a importância da liderança piedosa. Muito daquilo que se refere à direção secular e ao gerenciamento aplica-se à liderança cristã, com uma diferença significante. As motivações que dirigem o desejo do homem do mundo a liderar, precisam ser contrastados com aqueles de um homem de Deus. A forma que uma pessoa lidera na política ou nos negócios do mundo e a forma que um homem piedoso lidera podem ser muito parecidos, mas as motivações devem ser bem diferentes.
No mundo, as riquezas, a fama e o reconhecimento motivam os líderes a persistir e serem os melhores. Porém, esses benefícios são temporários, restritos totalmente a esta vida curta. Mark Twain, um famoso autor americano, colocou essa realidade em sua autobiografia da seguinte forma: "Uma miríade de homens nascem; eles trabalham, suam e batalham pelo pão; eles reclamam, xingam e brigam; eles lutam pelas poucas vantagens de um sobre o outro. A velhice move-se lentamente em suas vidas e as enfermidades se seguem; vergonhas e humilhações abaixam o orgulho e a vaidade deles. Aqueles que eles amam lhes são tirados, e a alegria da vida é transformada em uma dolorosa mágoa. O peso da dor, do cuidado e da miséria crescem mais pesados a cada ano. Finalmente, a ambição está morta, o orgulho está morto, a vaidade está morta; o desejo de liberdade está no lugar deles. Ela vem finalmente - o único presente não envenenado que a Terra jamais teve para eles- e eles são banidos de um mundo onde eles não foram de importância alguma; onde eles não realizaram nada, onde eles eram um erro, e um fracasso, e uma tolice; onde eles não deixaram sinal algum de que tivessem existido -um mundo que os lamentará um dia e os esquecerá para sempre".
Como se contrasta a perspectiva de um homem em Cristo. Um líder nega a si mesmo, sofre e pode até morrer para ajudar ao próximo por causa do constrangimento do amor de Cristo (2Co 5.14). A realização, a fama e a recompensa que acompanham a liderança nesta vida, são secundárias. Como Moisés, um líder servil prefere "ser maltratado junto com o povo de Deus a usufruir prazeres transitórios do pecado", porque "contempla o galardão" (Hb 11.25,26).
A natureza da liderança que caracteriza os líderes mundanos e os líderes cristãos pode ser semelhante na aparência externa, mas, os efeitos nas vidas de seus seguidores necessitam ser distintos. Henry Ford idealizou um carro com a marca Ford em cada garagem americana para beneficiar a economia e facilitar a locomoção humana para o trabalho e o lazer. Porém, um líder como George Muller de Bristol, na Inglaterra, ou Oswald J. Smith da Igreja do Povo, em Toronto, serviram incansavelmente para o benefício de órfãos e promoveram o avanço do Evangelho através do mundo. Ford concentrou a sua visão nos benefícios desta vida. Muller e Smith focalizaram suas visões na eternidade.
Não podemos ignorar o insight na liderança que os não cristãos têm ganhado. Contudo, somente Deus e as Escrituras podem nos dar a verdadeira medida da liderança e o fim que toda a influência benéfica deve almejar. Mais de trezentos anos atrás, os escritores do Catecismo Menor Westminster responderam à questão mais crucial de todas: "Qual é o fim para o qual o homem foi criado"? A resposta é: "Para glorificar a Deus e gozar dele para sempre".
A Deus toda a glória!
Outros livros escritos pelo autor publicados pela
EDIÇÕES VIDA NOVA
* A Felicidade Segundo Jesus: Reflexões sobre as bem-aventuranças, 1998.
* Fundamentos Bíblicos da Evangelização, 1996.
* Nos Passos de Jesus: Uma Exposição de 1 Pedro, 1993.
* O Mundo, a Carne e o Diabo, 1991.
* Lei, Graça e Santificação, 1990.
* Adoração Bíblica, 1987.
* Justiça Social e a Interpretação da Bíblia, 1984.
* Alegrai-vos no Senhor: Uma Exposição de Filipenses, 1984. * A Escatologia do Novo Testamento, 1983.
* Disciplina na Igreja, 1983.
* Andai Nele: Exposição Bíblica de Colossenses, 1979.
* Tão Grande Salvação: Uma exposição Bíblica de Efésios, 1978.
* A Solidariedade da Raça: O Homem em Adão e em Cristo,1964.
O líder que Deus usa
Resgatando a Liderança Bíblica
para a Igreja no Novo Milênio
RUSSELL P. SHEDD
Você sabe qual é o caráter do líder que Deus usa? Você sabe o que procurar nos líderes chamados ao ministério? Qual foi a prática da liderança de Jesus? Quais são os possíveis impedimentos à liderança efetiva? O que é uma liderança equilibrada? Quais são as atitudes que fazem a liderança bíblica bem-sucedida? Você sabe quais são as recompensas da liderança?
Estas e outras perguntas são alguns dos principais temas abordados pelo Dr. Shedd. Ele usa de sua rica experiência para discorrer sobre estes temas de forma estimulante e desafiadora. Certamente, pastores, leigos e futuros líderes se beneficiarão ricamente na leitura deste livro.
(O líder que Deus usa – Russel Shed. Pg.59)
Há prêmios que não podem ser medidos financeiramente ou em benefícios materiais. Uma coisa é biblicamente correta: qualquer coisa feita para Deus não será esquecida. Os incentivos de Deus para os serviços com dedicação devem sempre ficar gravados em nossas mentes. O alvo neste último capítulo é refletir sobre algumas das recompensas que os líderes piedosos podem esperar. Paulo acreditava nesses prêmios, como revela o que ele escreveu: "Portanto, meus amados irmãos, sede firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o vosso trabalho não é vão" (1Co 15.58).
Realização
Deus tem implantado um desejo no coração do homem para este ser útil, para que faça uma diferença para melhor. Um aspecto da imagem de Deus em nós envolve o alto valor que a realização tem para nós. Enquanto um animal pode desfrutar do brincar e de outros prazeres que ele pode compartilhar com os seres humanos, somente nós, humanos, podemos antecipar e apreciar a realização. Uma vida vazia é uma vida não realizada.
Sentir-se realizado, significa que a realização traz um prêmio interno, um sentimento de satisfação por podermos alcançar o que esperávamos realizar. A vida é vazia quando o trabalho não vai além da rotina; a tarefa poderia ter sido feita até por uma máquina. Porém, quando a criatividade aparece em cena, e o envolvimento pessoal traz uma alegria constante nas vidas de outras pessoas, todos nós nos sentimos realizados. Por essa razão, os líderes têm o alto potencial para regozijar-se com a realização.
Paulo teve mais do que uma porção no prazer de melhorar a vida de outros. Quando ele diz: "[...] uma porta grande e oportuna para o trabalho se me abriu" (lCo 16.9), ele referiu-se a alegria do trabalho para Deus de uma forma que trouxesse sua própria recompensa. Nenhum dinheiro estava envolvido, nenhum conforto especial ou vantagens carnais sobrevieram a ele. Ele simplesmente reconheceu que em Éfeso, o entusiasmo estava alto. Muitos queriam ouvi-lo pregar e ensinar o "Evangelho da graça de Deus" (At 20.24). O sucesso no ministério de Paulo foi além de suas expectativas. Todos os habitantes da Ásia puderam ouvir o Evangelho e ver os milagres extraordinários que foram operados através de suas mãos (At 19.10,11). Um dos prêmios mais cobiçados que qualquer líder pode desfrutar vem com o sentimento de realização que o sucesso traz. Essa deve ser a base da mensagem da seguinte frase: "contanto que complete a minha carreira" (At 20.24). O apóstolo sabia que o partir e o estar com Cristo eram incomparavelmente melhor do que o viver na Terra, ainda assim ele estava disposto a permanecer na Terra para abençoar a vida dos filipenses (Fl 1.23,24). O crescimento e o progresso da igreja de Filipos foi, para o apóstolo, "sua coroa e alegria" (4.1). Quando Deus dá para um de seus servos a certeza de que conseguirá influenciar outros beneficamente, fazendo tudo aquilo que Deus deseja, ele o recompensa com um senso satisfatório de realização.
Como liderança significa "a influência para uma mudança benéfica", Jesus escolheu seus discípulos-líderes para produzirem o fruto duradouro ("o vosso fruto permaneça”, Jo 15.16). Quando um líder pode ver que Deus o tem usado para melhorar as vidas e que aquelas mudanças positivas são a longo prazo, ele sente a recompensa. Ele tem realizado com êxito a missão que Deus escolhera para ele. Ele pode morrer sem aquele sentimento incômodo de que tem um débito não pago para com a humanidade (cf. Rm 1.14). A satisfação substitui esse sentimento importuno que aparece de uma obrigação não realizada.
As quantidades imensuráveis de esforço e sofrimento gastos são pagos pelo fato de um líder saber que ele tem sido usado por Deus ao máximo do seu potencial. Por isso, o descontentamento destrói as melhores intenções de um líder; ele conclui que Deus não o está usando. Billy Graham, ainda moço, reconheceu os esforços que um ministério evangelístico exigia. Ele orou pela compensação de ver pessoas sendo tocadas por uma fé salvadora em Cristo. "Se o Senhor não salvar pessoas através de mim, deixe-me morrer. Eu não quero viver". Deus muitas vezes responde a uma oração sincera como essa com bênçãos evidentes e sucesso espiritual. Pense no sentimento de realização que o Dr. Graham continua tendo, mesmo durante esses últimos dias de sua vida!
Fama
É comum, para os líderes, atraírem um grupo de seguidores. Isso aconteceu durante o ministério de Jesus. Marcos nos informa que: "Correu célere a fama de Jesus em todas as direções, por toda a circunvizinhança da Galiléia" (Mc 1.28). Quando Jesus deu de comer para as cinco mil pessoas temos uma indicação da extensão da divulgação de sua fama. Sua entrada triunfal em Jerusalém, narrada em todos os Evangelhos, demonstra que Jesus tinha ganhado a boa vontade das pessoas simples. A artimanha para matar Jesus foi causada principalmente pela inveja provocada pela sua fama crescente ao 11.47-50). Quanto mais um líder sobe na escada do sucesso, maior será a sua fama.
Paulo recebeu uma fama bem merecida devido à sua ousadia. Ele chegara à Tessalônica não como um pregador itinerante desconhecido. Os judeus arrastaram Jasom e alguns dos novos convertidos para levá-los diante das autoridades (eles não tinham encontrado Paulo) declarando: "Estes que têm transtornado o mundo chegaram também aqui" (At 17.6).
Quando um líder tem "boa fama" (cf. FI 4.8), ele se sente rico, não em possessões materiais, mas no caloroso reconhecimento que as pessoas têm por ele. Os políticos honestos e dedicados, sem dúvida alguma, encontram em sua boa reputação o pagamento adequado pela sua auto¬negação e esforço. A gratificação está no fato deles serem reconhecidos nos livros históricos, e que sua fama se estenda além do curto período da vida. Os ensinamentos da Bíblia não concordam com a fama como a motivação para procurar as posições de liderança, mas quando a motivação é correta, a fama que segue não é condenada. Maria da Betânia ungiu Jesus sem pensar em ganhar fama. Jesus, porém, disse: "Em verdade vos digo: onde for pregado em todo o mundo o evangelho, será também contado o que ela fez, para memória sua" (Mc 14.9).
Se olharmos mais de perto na fama, o acompanhante natural da liderança, ficaremos surpresos ao encontrar a advertência de Jesus: "Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós" (Mt 5.11). A perseguição que os líderes cristãos sofrem, da parte de perseguidores mentirosos, é um sinal nítido da "boa fama" deles diante de Deus. "Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós" (v.12). Apesar da esperada oposição diabólica: "[...] é necessário que ele (o pastor/bispo) tenha o bom testemunho dos de fora” (1Tm 3.7). Os primeiros cristãos contaram "com a simpatia de todo o povo" (At 2.47). Essa é uma avaliação positiva que o cristianismo deles estava recebendo da comunidade.
Os líderes também precisam ter uma boa reputação na sociedade (At 6.3; Tt 1.6,7) para estarem aptos para cumprir com suas obrigações. Portanto, se eles tiverem uma maioria significante de seus seguidores falando bem de si, poderão sentir-se bem recompensados por seu esforço sacrificial.
Preenchendo o Que Está Faltando
Paulo escreveu para os colossenses que estava regozijando-se em seus sofrimentos por eles: "E preencho o que resta das aflições de Cristo, na minha carne, a favor do seu corpo, que é a igreja" (1.24). Claramente, os sofrimentos de que Paulo está se referindo são aquelas aflições que resultaram da sua liderança. Os colossenses mesmos não estavam sofrendo, mas as privações e o aprisionamento do apóstolo eram a conseqüência direta da escolha que Deus tinha feito para elevá-lo ao raro cume da liderança. Em Efésios, ele colocou desta forma: "a dispensação da graça de Deus a mim confiada para vós outros [...] a mim, o menor de todos os santos, me foi dada esta graça de pregar aos gentios o evangelho das insondáveis riquezas de Cristo" (Ef 3.2,8).
Em lugar algum, Paulo esconde o fato de que a escolha de Deus para ser um apóstolo-evangelista tinha uma recompensa nesta vida. Ele estava mais do que contente com o seu chamado, apesar do sofrimento intenso que isso acarretou (2Co 11.23-29). A razão para a sua alegria estava no privilégio que Deus lhe tinha concedido para cumprir uma função cen¬tral na história da salvação. Humildemente conhecendo a si mesmo como o menor dos santos, a ele foi dado as chaves do Reino para abrir a porta da salvação para os gentios (compare com as chaves dadas a Pedro, Mt 16.19). Paulo não hesitou em ver a "graça de Deus" nessa designação especial.
Nenhum líder deve rejeitar o estresse, as longas horas, o trabalho intenso e tudo o mais que a sua posição envolve, porquanto ele está confiante de que Deus o tem escolhido para aquela função. Será melhor ainda, se ele, como Paulo, pode ver o significado eterno do privilégio de usar, pelo menos uma, das pequenas chaves do Reino. Ele tem motivo para regozijar-se. Se um líder sabe que está "preenchendo o que está faltando", ele deve sentir-se bem recompensado nesta vida.
Peso de Glória
Os autores do Novo Testamento enfatizam a recompensa futura que será concedida no Céu. Jesus ensinou diretamente e em parábolas que uma pessoa não deve procurar a recompensa em retorno dos investimentos do Reino, nesta vida. Todos aqueles que procuram a aprovação de homens porque eles dão esmolas, ou oram muito, ou jejuam, tiveram suas recompensas pagas completamente aqui. Não há nada mais para se esperar (Mt 6.1-18). Aqueles que, por outro lado, fazem essas coisas secretamente, serão recompensados por Deus. Desse ensino podemos concluir, confiantemente, que a liderança exercida para a glória de Deus será recompensada no mundo por vir.
A base para tal recompensa será o amor e o sacrifício que motivam as boas obras. É possível supor que os líderes fazem mais o bem do que os seguidores por causa das conseqüências benéficas que alcançam mais pessoas. Um copo de água fria oferecida no nome de Jesus para um caminhante sedento não perderá a sua recompensa. A obra precisa ser motivada pelo amor já que a frase "no nome de Jesus" indica isso.
Porém, aqueles que tenham deixado os familiares e suas casas para seguirem a Jesus e pela causa do Evangelho, receberão "o cêntuplo de casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições; e, no mundo por vir, a vida eterna” (Mc 10.30). Muitos que são os primeiros serão os últimos, e os que são últimos serão os primeiros (v.30). Com essas palavras, Jesus outra vez mostra que ele tinha líderes em mente (ter mais do que uma mãe e ganhar cem casas, confirma essa conclusão). Jesus avisa que o mérito aparente pode ser contrário ao mérito verdadeiro perante o Juiz do universo. As motivações e os sentimentos interiores valem mais do que um simples abandono de família e de casa. Há muito mais sacrifício e amor nos corações de alguns servos do que nos de outros. Dois líderes podem, externamente, lidar com uma mesma tarefa debaixo de circunstâncias semelhantes: um será recompensado abundantemente; o outro, não será. Pense nas palavras de Paulo: "E ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará" (1Co 13.3). Deus sabe o tamanho do sacrifício, canto quanto o mérito da motivação (Lc 7.47). Ele recompensará os seus servos na proporção do amor deles.
As parábolas das Minas e dos Talentos (Lc 19.11-27 e Mt 25.14¬30) conduzem para as recompensas futuras reservadas para os líderes que servem bem a seu Senhor nesta vida. O homem que recebera uma mina, e que rendeu dez, foi elogiado por seu mestre: "Muito bem, servo bom; porque foste fiel no pouco, terás autoridade sobre dez cidades" (Lc 19.17). Os servos que dobraram os seus talentos foram reconhecidos pela fidelidade deles sobre as coisas pequenas. Foram prometidos: "Sobre o muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor" (Mt 25.21,23).
Temos pouca informação sobre a natureza da recompensa dada para trabalhadores fiéis. O texto indica que haverá dois tipos de recompensas. Um tipo é a aprovação expressa do Senhor. O segundo refere-se ao exercício da responsabilidade sobre algum tipo de reino. O retrato, embora não claro, focaliza para uma responsabilidade futura sobre outras pessoas, semelhante àquela de um governador benevolente. Isso se encaixa com a promessa dada para aqueles que perseverarem (2Tm 2.12), compartilhando o reinado como reis com Jesus Cristo. Um dos aspectos que líderes fiéis e dedicados podem antecipar é a participação na alegria do próprio Senhor.
Paulo ensina que os líderes da igreja que constroem o templo de Deus (a Igreja) com ouro, prata e pedras preciosas serão recompensados. O trabalho deles não sofrerá o prejuízo destrutivo do "fogo" no dia do juízo (lCo 3.13). Além da beleza e da permanência do trabalho que eles realizaram, esses bons líderes, regozijarão em ver o trabalho honrado. "Manifesta se tornará a obra de cada um", sugere que, a contribuição deles para o programa de construção eterno, de Deus, será um motivo de reconhecimento e a causa de grande regozijo. Os líderes ruins, por outro lado, terão muitas razões para o remorso. O trabalho deles, comparado à madeira, ao feno e ao restolho, será destruído pelo fogo do juízo. Mesmo sendo salvos, serão envergonhados pela perda (v.15). A esperada recompensa deles será transformada em cinzas inúteis.
Pior ainda, segundo Jesus, será o fim do mau líder que passou a "espancar os criados e as criadas, a comer, a beber e a embriagar-se". No lugar da recompensa, ele será castigado: "lançando-lhe a sorte com os infiéis" (Lc 12.45,46). Evidentemente, nessa passagem, Jesus tinha em vista os falsos líderes. Os homens, que como os "mercadejadores da Palavra” (2Co 2.17) têm os objetivos contrários aos do nosso Senhor. A avareza controla o coração deles, em vez do amor.
Em 2 Coríntios, Paulo vai além para descrever a recompensa do líder sofredor e piedoso como um "incomparável, eterno peso de glória (4.17). Em comparação com essa recompensa, todos os sofrimentos presentes tornam-se insignificantes. Como a pena de um passarinho em um prato de uma balança, e uma barra enorme de ouro no outro lado, não há como comparar o peso de um com o outro. A palavra "glória" no Antigo Testamento significa "peso" (kabod) indicando que, na cultura hebraica antiga, as riquezas e os valores eram vistos em termos do "peso" deles. A riqueza eterna, então, do bom servo que tem sofrido para ser apto a liderar outros para Deus, será recompensada com infindável e intensa alegria. Bem-aventurados, certamente, são aqueles que não fugiram da dor, nem negligenciaram o cuidado dos seus seguidores (Fp 2.20).
A nossa visão incerta do futuro de glória, prometido para os servos fiéis, pode receber um pouco de luz da oração sacerdotal de Jesus. Ele orou: "Eu lhes tenho transmitido a glória que me tens dado, para que sejam um, como nós o somos" (Jo 17.22). A glória dada por Jesus aos seus discípulos foi o privilégio de um relacionamento íntimo com ele. Por causa da conexão deles com ele, puderam manter um relacionamento próximo uns com os outros. A união imperfeita (por causa do pecado e da carne) que o Corpo de Cristo agora experimenta, através da presença do Espírito Santo (1Co 12.13; Ef 4.3), antecipa a união perfeita que aguarda os santos glorificados quando Jesus Cristo voltar. O apóstolo declarou que "o amor jamais acaba" (1Co 13.8). O amor divino perfeito que une todos os santos a Deus e, uns aos outros, é o que a glória futura representa. Agora, nós podemos entender a razão pela qual Jesus incluiu em sua oração a petição para os discípulos estarem com Cristo para ver a sua glória: "porque me amaste antes da fundação do mundo" (Jo 17.24). Outra vez, olhando para o futuro: "[...] farei conhecer (o nome do Pai) mais, para que o amor com que me tens amado esteja neles, e eu neles esteja" (Jo 17.26). A unidade futura com Deus e com os irmãos e irmãs remidos será a recompensa mais gloriosa que qualquer líder pode receber.
Há ainda uma outra questão. Como será esse futuro de glória, mais ou menos, na proporção da dedicação e sacrifício dos servos de Deus? Alguns líderes cristãos vivem basicamente de forma egoísta, com pouca preocupação com Deus e com as pessoas. Outros líderes vivem de forma dedicada e abnegada de maneira que um incomparável peso de glória não parece ser uma recompensa grande demais.
A melhor conclusão parece ser a seguinte: Deus vê esta vida como um tipo de escola ou vestibular para a eternidade. Os anos que temos o privilégio de viver nesta Terra não são realmente um tempo para ganhar mérito, mas para aumentar a nossa capacidade para amar a Deus e alegremente servi-lo, influenciando outras pessoas.
De alguma forma, somos como aqueles que se dedicaram à recreação, à diversão, ao esporte ou qualquer outra atividade prazerosa. À medida que uma pessoa vai dedicando-se a uma atividade específica, ela aumenta a sua capacidade de desfrutar daquilo. Permita-me tentar ilustrar essa idéia. Há alguns anos, a Orquestra Filarmônica de Nova Iorque veio a São Paulo. Um dos músicos era um cristão que decidiu convidar a minha família para o ensaio da orquestra no Anhembi, em São Paulo. Imagine, por um momento, que tivéssemos conosco um caipira do interior do Amazonas; uma pessoa que nunca tivesse ouvido qualquer música clássica. Imagine que nós o convidássemos para nos acompanhar e desfrutar dessa apresentação gratuita. Não precisaria nem dizer que após alguns minutos da apresentação o nosso convidado ficaria completamente entediado. Ele procuraria qualquer desculpa para fazer algo mais interessante e emocionante. O hobby do líder cristão é de deleitar-se no Senhor e de influenciar outros para Deus. Não creio que alguém, na eternidade, será capaz de determinar o quanto um outro santo estará se deleitando em Deus. Porém, não é provável que aqueles que têm investido mais no relacionamento deles com Deus e pago um alto preço no exercício de sua liderança piedosa, serão os que gozarão mais das recompensas da eternidade.
O apóstolo Pedro abre uma janela para o futuro no dia do retorno do nosso Senhor. Nossa herança futura, recebida pela graça através da morte e ressurreição de Cristo, é incorruptível, sem mácula e imarcescível. Ela não pode ser tocada pela decomposição da morte, tampouco pela mancha do pecado ou do definhamento que uma bela flor tem. Uma vez que a nossa fé está confirmada, "mesmo apurada pelo fogo", ela é destinada a redundar "em louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo" (1Pe 1.4-7). Tudo isso é a causa para nos alegrarmos agora, mas muito mais no futuro quando o veremos face a face (1Co 13.12).
Quanto mais um líder ama o seu Senhor, maior será a sua alegria na vinda deste. Essa é a verdadeira e incomparável recompensa de todos aqueles que têm humilde e sacrificialmente servido a Deus nesta vida.
A visão celestial de João nos informa que aqueles que têm saído de grandes tribulações, tendo lavado suas vestimentas no sangue do cordeiro, ficarão de pé diante do trono de Deus e servirão a ele no seu santuário dia e noite. Deus estenderá sobre eles o seu tabernáculo. Não haverá mais fome e sede, e nem o calor do Solos incomodará mais. O cordeiro será o pastor que os guiará para as fontes de água viva. Nem haverá mais lágrimas em seus olhos (Ap 7.14-17). Claramente, o mais desejável aspecto da recompensa futura de qualquer líder está na sua proximidade de Deus Pai e do Filho. Como base desse maravilhoso retrato das recompensas futuras, podemos ver a recompensa para a liderança abnegada, pois, quem derrama mais lágrimas do que o pastor que ama seu rebanho intensamente (At 20.19,31)? Quem será o mais apreciativo da função pastoral, apascentando e guiando as ovelhas para as fontes de água viva, senão aquele que durante a sua vida na Terra esforçou-se, sobremaneira, para fazer isso para o seu rebanho?
Considerações Finais
Procuramos esclarecer a natureza e a importância da liderança piedosa. Muito daquilo que se refere à direção secular e ao gerenciamento aplica-se à liderança cristã, com uma diferença significante. As motivações que dirigem o desejo do homem do mundo a liderar, precisam ser contrastados com aqueles de um homem de Deus. A forma que uma pessoa lidera na política ou nos negócios do mundo e a forma que um homem piedoso lidera podem ser muito parecidos, mas as motivações devem ser bem diferentes.
No mundo, as riquezas, a fama e o reconhecimento motivam os líderes a persistir e serem os melhores. Porém, esses benefícios são temporários, restritos totalmente a esta vida curta. Mark Twain, um famoso autor americano, colocou essa realidade em sua autobiografia da seguinte forma: "Uma miríade de homens nascem; eles trabalham, suam e batalham pelo pão; eles reclamam, xingam e brigam; eles lutam pelas poucas vantagens de um sobre o outro. A velhice move-se lentamente em suas vidas e as enfermidades se seguem; vergonhas e humilhações abaixam o orgulho e a vaidade deles. Aqueles que eles amam lhes são tirados, e a alegria da vida é transformada em uma dolorosa mágoa. O peso da dor, do cuidado e da miséria crescem mais pesados a cada ano. Finalmente, a ambição está morta, o orgulho está morto, a vaidade está morta; o desejo de liberdade está no lugar deles. Ela vem finalmente - o único presente não envenenado que a Terra jamais teve para eles- e eles são banidos de um mundo onde eles não foram de importância alguma; onde eles não realizaram nada, onde eles eram um erro, e um fracasso, e uma tolice; onde eles não deixaram sinal algum de que tivessem existido -um mundo que os lamentará um dia e os esquecerá para sempre".
Como se contrasta a perspectiva de um homem em Cristo. Um líder nega a si mesmo, sofre e pode até morrer para ajudar ao próximo por causa do constrangimento do amor de Cristo (2Co 5.14). A realização, a fama e a recompensa que acompanham a liderança nesta vida, são secundárias. Como Moisés, um líder servil prefere "ser maltratado junto com o povo de Deus a usufruir prazeres transitórios do pecado", porque "contempla o galardão" (Hb 11.25,26).
A natureza da liderança que caracteriza os líderes mundanos e os líderes cristãos pode ser semelhante na aparência externa, mas, os efeitos nas vidas de seus seguidores necessitam ser distintos. Henry Ford idealizou um carro com a marca Ford em cada garagem americana para beneficiar a economia e facilitar a locomoção humana para o trabalho e o lazer. Porém, um líder como George Muller de Bristol, na Inglaterra, ou Oswald J. Smith da Igreja do Povo, em Toronto, serviram incansavelmente para o benefício de órfãos e promoveram o avanço do Evangelho através do mundo. Ford concentrou a sua visão nos benefícios desta vida. Muller e Smith focalizaram suas visões na eternidade.
Não podemos ignorar o insight na liderança que os não cristãos têm ganhado. Contudo, somente Deus e as Escrituras podem nos dar a verdadeira medida da liderança e o fim que toda a influência benéfica deve almejar. Mais de trezentos anos atrás, os escritores do Catecismo Menor Westminster responderam à questão mais crucial de todas: "Qual é o fim para o qual o homem foi criado"? A resposta é: "Para glorificar a Deus e gozar dele para sempre".
A Deus toda a glória!
Outros livros escritos pelo autor publicados pela
EDIÇÕES VIDA NOVA
* A Felicidade Segundo Jesus: Reflexões sobre as bem-aventuranças, 1998.
* Fundamentos Bíblicos da Evangelização, 1996.
* Nos Passos de Jesus: Uma Exposição de 1 Pedro, 1993.
* O Mundo, a Carne e o Diabo, 1991.
* Lei, Graça e Santificação, 1990.
* Adoração Bíblica, 1987.
* Justiça Social e a Interpretação da Bíblia, 1984.
* Alegrai-vos no Senhor: Uma Exposição de Filipenses, 1984. * A Escatologia do Novo Testamento, 1983.
* Disciplina na Igreja, 1983.
* Andai Nele: Exposição Bíblica de Colossenses, 1979.
* Tão Grande Salvação: Uma exposição Bíblica de Efésios, 1978.
* A Solidariedade da Raça: O Homem em Adão e em Cristo,1964.
O líder que Deus usa
Resgatando a Liderança Bíblica
para a Igreja no Novo Milênio
RUSSELL P. SHEDD
Você sabe qual é o caráter do líder que Deus usa? Você sabe o que procurar nos líderes chamados ao ministério? Qual foi a prática da liderança de Jesus? Quais são os possíveis impedimentos à liderança efetiva? O que é uma liderança equilibrada? Quais são as atitudes que fazem a liderança bíblica bem-sucedida? Você sabe quais são as recompensas da liderança?
Estas e outras perguntas são alguns dos principais temas abordados pelo Dr. Shedd. Ele usa de sua rica experiência para discorrer sobre estes temas de forma estimulante e desafiadora. Certamente, pastores, leigos e futuros líderes se beneficiarão ricamente na leitura deste livro.
(O líder que Deus usa – Russel Shed. Pg.59)
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