quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

O DOM CARISMÁTICO DE CURA

Quando Cristo enviou em missão os Seus doze apóstolos e os setenta discípulos, não somente os instruiu para pregarem, mas também lhes deu poder para expulsar demônios e curar toda sorte de enfermidade, Mt 10.1, 8; Mc 3.15; Lc 9.1, 2; 10.9, 17. Entre os cristãos primitivos havia alguns que tinham o dom de cura e que podiam fazer milagres, 1 Co 12.9, 10, 28, 30; Mc 16.17, 18. Todavia, esta condição extraordinária logo cedeu lugar às condições comuns, nas quais a igreja efetua o seu trabalho pelos meios ordinários. Não há base escriturística para a idéia de que o dom carismático de cura fora dado com a intenção de continuar na igreja de todos os séculos. Evidentemente, os milagres e os sinais miraculosos registrados na Escritura foram dados como marcas ou credenciais da revelação divina, eles próprios faziam parte desta revelação, e serviam para atestar e confirmar a mensagem dos primeiros pregadores do Evangelho. Nestas qualidades, eles cessaram quando terminou o período da revelação especial. É verdade que a igreja de Roma e diversas seitas se arrogam o poder de efetuar cura milagrosa, mas essa pretensão não é demonstrada por evidências comprobatórias. Há em circulação muitas estórias maravilhosas de curas milagrosas, mas, antes de se lhes dar crédito, é preciso provar: (1) que não se relacionam com casos de doença imaginária, mas, sim, com casos de doença real ou de defeitos físicos; (2) que não se referem a pseudocuras, ou a curas imaginárias, mas, sim, a curas reais; e (3) que as curas são de fato produzidas de maneira sobrenatural, e não são apenas resultado do uso de meios naturais, quer materiais quer mentais. *
(Berkhof, L – Teologia Sistemática pg.604)

sábado, 26 de janeiro de 2013

O PODER DA IGREJA - O MINISTÉRIO ORDINÁRIO DE BENEFICÊNCIA DA IGREJA

Claramente o Senhor tencionava que a igreja cuidasse dos pobres. Ele fez alusão a este dever quando disse aos Seus discípulos: “Porque os pobres sempre os tendes convosco”, Mt 26.11; Mc 14.7. Por meio de uma comunhão de bens, a Igreja Primitiva providenciou para que a ninguém faltasse nada do necessário para a vida, At 4.34. não é impossível que os neoteroi (moços) de At 5.6, 10 fossem os precursores dos diáconos posteriores. E quando as viúvas dos gregos estavam sendo negligenciadas na ministração diária, os apóstolos providenciaram para que sete homens bem qualificados fossem encarregados daquele serviço necessário, At 6.1-6. Eles deviam “servir às mesas”, o que parece significar, neste contexto, superintender o atendimento às mesas dos pobres, ou providenciar uma divisão eqüitativa das provisões que eram postas nas mesas. Diáconos e diaconisas são mencionados repetidamente na Bíblia, Rm 16.1; Fp 1.1; 1 Tm 3.8-12. Além disso, o Novo Testamento contém muitas passagens que instam sobre a necessidade de se fazerem ofertas ou coletas para os pobres, At 20.35; 1 Co 16.1, 2; 2 Co 9.1, 6, 7, 12-14; Gl 2.10; 6.10; Ef 4.28; 1 Tm 5.10, 16; Tg 1.27; 2.15, 16; 1 Jo 3.17. Não pode haver dúvida quanto ao dever da igreja nesta questão. E os diáconos são os oficiais incumbidos da responsabilizante e delicada tarefa de realizar o trabalho da beneficência cristã com referência a todos os necessitados da igreja. Cabe-lhes planejar métodos e meios para coletar os necessários fundos, devem responsabilizar-se pelo dinheiro coletado, e devem providenciar a sua prudente distribuição. Contudo, o seu trabalho não se limita a este oferecimento de auxílio material. Eles devem também instruir e consolar os necessitados. Em todo o seu trabalho, eles devem considerar seu dever aplicar os princípios espirituais quando estão dando cumprimento ao seu dever. É de temer que, lamentavelmente, esta função esteja sendo negligenciada em muitas igrejas hoje. Há a tendência de partir da suposição de que se pode deixar que o estado supra as necessidades até dos pobres da igreja. Mas, ao agir com base nesse pressuposto, a igreja negligencia um dever sagrado, empobrece a sua vida espiritual, priva-se da alegria que se experimenta ao atender às necessidades dos que padecem carência, e priva os que estão passando por dificuldades, os que se vêem em condições deprimentes, e os que muitas vezes caem no mais completo desânimo, da consolação, da alegria e do fulgor das ministrações do amor cristão, em regra inteiramente alheias às obras de caridade administradas pelo estado.
(Berkhof, L – Teologia Sistemática, Pg. 603)

O PODER DA IGREJA - QUESTIONÁRIO PARA PESQUISA

QUESTIONÁRIO PARA PESQUISA: 1. Como diferem as concepções reformada (calvinista) e luterana de Cristo como Cabeça da Igreja? 2. O Velho Testamento contém alguma indicação de que Cristo é o Rei da igreja? 3. Quais sistemas de governo eclesiástico negam ou desacreditam a chefia ou realeza de Cristo? 4. Como a chefia de Cristo afeta a relação da igreja com o estado, a liberdade religiosa e a liberdade de consciência? 5. A Doutrina de que o poder da igreja é exclusivamente espiritual é compatível com o romanismo e com o erastianismo? 6. Como o poder da igreja é superestimado pelos homens da Alta Igreja e subestimado pelos da Baixa Igreja de vários tipos? 7. Como os independentes** vêem o poder dos oficiais? 8. De que modo é limitado o poder da igreja? 9. Qual o fim colimado no exercício do poder da igreja? 10. Que se pretende da igreja em Mt. 18.17? 11. A chave da disciplina proíbe somente a participação nos privilégios externos da igreja , ou também num interesse espiritual, em Cristo? 12. Por quem e como a disciplina é exercida nas igrejas Católica Romana, Anglicana, Metodista e Congregacional? 13. A igreja pode descartar-se da disciplina sem risco?
(Berkhof, L – Teologia Sistemática, Pg. 604)

O PODER DA IGREJA - BIBLIOGRAFIA

BIBLIOGRFIA PARA CONSULTA: Bavinck, Geref. Dogm. IV, p. 425-482; Kuyper, Dict. Dogm., de Ecclesia, p. 268-293; id., Tractaat van de Reformatic der Kerken, p. 41-69; Bannerman, The Church I, p. 187-480; II, p. 186-200; Hodge, Church Polity, cf. Índice; Morris, Ecclesiology, p. 143-151; Wilson, Free Church Principles; McPherson, The Doctrine of the Church in Scottish Theology, p. 129-224; Gillespie, Aarron’s Rod Blossoming; ibid., On Ceremonies; Bouwman, De Kerkelijke Tucht; Jansen, De Kerkelijke Tucht; Biesterveld, Van Lonkhuizen, e Rudolph, Het Diaconaat; Bouwman, Het Ambt der Diakenen; Litton, Introd. To Dogm. Theol., p. 394-419; Schmid, Doct. Theol.of the Ev. Luth. Chruch, p. 607-621; Wilmers, Handbook of the Chr. Rel., p. 77-101; Cunningham, Discussions of Church Principles; ibid., Historical Theology II, p. 514-587; McPherson, Preesbyterianism.
(Berkhof, L – Teologia Sistemática, Pg. 604)

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

OS MEIOS DE GRAÇA

I. OS MEIOS E GRAÇA EM GERAL
A. A Idéia dos Meios de Graça
O homem decaído recebe todas as bênçãos da salvação da fonte eterna da graça de Deus, em virtude dos méritos de Cristo e pela operação do Espírito Santo. Conquanto o Espírito possa operar, e nalguns aspectos opera imediatamente na lama do pecador, tem-lhe parecido bem jungir-se ao uso de certos meios para a comunicação da graça divina. A expressão “meios de graça” não se encontra na Bíblia, mas, não obstante, é bom designativo dos meios indicados na Bíblia. Ao mesmo tempo, a expressão não é muito definida e pode ter um sentido muito mais compreensivo que o que comumente tem na teologia. A igreja pode ser descrita como o grande meio de graça que Cristo, agindo mediante o Espírito Santo, usa para reunir os eleitos, edificar os santos e formar o Seu corpo espiritual. Ele a qualifica para esta grande tarefa dotando-a de toda sorte de dons espirituais e instituindo os ofícios para a administração da Palavra e dos sacramentos, que são meios pelos quais leva os eleitos ao seu destino eterno. Toda a direção providencial dos santos, na prosperidade e na adversidade, muitas vezes é um meio pelo qual o Espírito Santo leva os eleitos a Cristo ou a uma comunhão cada vez maior com Ele. É até possível incluir nos meios de graça tudo quanto de requer dos homens para o recebimento e o gozo permanente das bênçãos da aliança, tais como a fé, a conversão, a luta espiritual e a oração. Todavia, não é costumeiro nem desejável incluir tudo isso na expressão “meios de graça”. A igreja não é um meio de graça lado a lado com a Palavra e os sacramentos, porque o seu poder de promover a obra da graça de Deus consiste unicamente na administração deles. Ela não é instrumento de comunicação da graça, exceto por meio da Palavra e dos sacramentos. Além disso, a fé, a conversão e a oração são, antes de tudo, frutos da graça de Deus, embora possam tornar-se instrumentos para o fortalecimento da vida espiritual. Não são ordenanças objetivas, mas condições subjetivas para a posse e o gozo das bênçãos da aliança. Conseqüentemente, é melhor não seguir Hodge quando ele inclui a oração, nem McPherson quando acrescenta à Palavra e aos sacramentos a igreja e a oração. Estritamente falando, somente a Palavra e os sacramentos podem ser considerados como meio de graça, isto é, como os canais objetivos que Cristo instituiu na igreja, e aos quais Ele se prende normalmente para a comunicação da Sua graça. Naturalmente, estes nunca podem dissociar-se de Cristo, nem da poderosa operação do Espírito Santo, nem da igreja, que é o órgão designado para a distribuição das bênçãos da graça divina. Em si mesmos, eles são completamente ineficientes, e só produzem resultados espirituais positivos mediante a eficaz operação do Espírito Santo.
(Berkhof, L – Teologia Sistemática Pg.605)

CARACTERÍSTICAS DA PALAVRA E DOS SACRAMENTOS COMO MEIOS DE GRAÇA

O fato de que se pode falar dos meios de graça num sentido muito geral, torna imperativo indicar as características distintivas dos meios de graça no sentido técnico ou restrito da palavra.
1. Eles são instrumentos, não da graça comum, mas da graça especial, da graça que remove o pecado e renova o pecador, em conformidade com a imagem de Deus. É verdade que a Palavra de Deus pode enriquecer, e nalguns aspectos realmente enriquece os que vivem sob o Evangelho com algumas das mais seletas bênçãos da graça comum, no sentido estrito da expressão; mas ela, e também os sacramentos, entram em consideração aqui somente como meios de graça no sentido técnico da expressão. E, neste sentido, os meios de graça sempre estão relacionados com a operação inicial e com a operação progressiva da graça especial de Deus, que é a graça redentora, nos corações dos pecadores.
2. Não em virtude da sua relação com as coisas neles incluídas, mas em si mesmos, eles são meios de graça. Experiências notáveis podem ser, e sem dúvida às vezes são, úteis para o fortalecimento da obra nos corações dos crentes, mas isto não faz delas meios de graça no sentido técnico, visto que só podem realizar isso na medida em que estas experiências são interpretadas à luz da Palavra de Deus, pela qual o Espírito Santo opera. A Palavra e os sacramentos são, em si mesmos, meios de graça; sua eficácia depende unicamente da operação do Espírito Santo.
3. Eles são instrumentos contínuos da graça de Deus, e não excepcionais, em nenhum sentido desta palavra. Quer dizer que não estão associados com a operação da graça de Deus apenas ocasionalmente ou de maneira mais ou menos acidental, mas são os meios ordenados normalmente para a graça salvadora de Deus e, como tais, têm valor perpétuo. O Catecismo de Heidelberg, na Pergunta 65, indaga: “Então, desde que somente pela fé nos tornamos participantes de Cristo e de todos os Seus benefícios, donde vem esta fé?” E a resposta é: “Do Espírito Santo, que age em nossos corações pela pregação do santo Evangelho, e a confirma pelo uso dos santos sacramentos”.
4. Eles são os meios oficiais da igreja de Jesus Cristo. A pregação da Palavra (ou, a Palavra pregada) e a administração dos sacramentos (ou, os sacramentos administrados) são os meios oficialmente instituídos na igreja de Cristo, pelos quais o Espírito Santo produz e confirma a fé nos corações dos homens. Alguns teólogos reformados (calvinistas) limitam ainda mais a idéia dos meios de graça, dizendo que eles só são administrados dentro da igreja visível, e que eles pressupõem a existência do princípio da nova vida na alma. Shedd e Dabney falam deles, sem nenhuma condição, como “meios de santificação”. Diz o primeiro: “Quando se diz que o mundo dos não regenerados tem os meios de graça, o que se tem em mira são os meios de convicção debaixo da graça comum, e não de santificação sob a graça especial de Deus”. Honig também distingue entre a Palavra de Deus como meio de graça e a Palavra como contendo o chamamento para a conversão e servindo para chamar os gentios para o serviço do Deus vivente. O dr. Kuyper também está pensando nos meios de graça como apenas meios para o fortalecimento da nova vida, quando diz: “Os media gratiae são meios instituídos por Deus, dos quais Ele se utiliza para revelar, tanto pessoal como socialmente, à nossa consciência e por meio dela, a recriação que Ele firmou imediatamente em nossa natureza”. Há, por certo, uma verdade nesta apresentação. O princípio da nova vida é produzido imediatamente na alma, isto é, sem a mediação da Palavra pregada. Mas, na medida em que a originação da nova vida também inclui o novo nascimento e a vocação interior, também se pode dizer que o Espírito Santo produz o início da nova vida ou da fé, como diz o Catecismo de Heidelberg, “pela pregação do santo Evangelho”.
(Berkhof, L – Teologia Sistemática Pg.607)

CONCEITOS HISTÓRICOS A RESPEITO DOS MEIOS DE GRAÇA

Tem havido considerável diferença de opinião na igreja de Jesus Cristo, a respeito dos meios de graça. A Igreja Primitiva nada nos oferece de definido sobre este ponto. Havia muito maior ênfase aos sacramentos que à Palavra de Deus. O batismo era mui geralmente considerado como o meio pelo qual os pecadores são regenerados, enquanto que a eucaristia sobressaía como o sacramento da santificação. Com o correr do tempo, porém, certos conceitos se desenvolveram.
1. CONCEITO CATÓLICO ROMANO. Embora os católicos romanos considerassem até as relíquias e as imagens como meios de graça, distinguiam particularmente a Palavra e os sacramentos. Ao mesmo tempo, não davam a devida proeminência à Palavra, e só lhe atribuíam significação preparatória, na obra da graça. Comparados com a Palavra, os sacramentos eram considerados os verdadeiros meios de graça. No sistema que de desenvolveu gradativamente, a igreja de Roma reconhece um meio até superior aos sacramentos. A própria igreja é considerada como o primordial meio de graça. Nela Cristo continua a Sua vida divino-humana na terra, realiza a Sua obra profética, sacerdotal e real e, por intermédio dela, comunica a plenitude da Sua graça e verdade. Esta graça serve especialmente para elevar o homem, da ordem natural para a sobrenatural. É uma gratia elevans (graça que eleva), um poder físico sobrenatural infundido no homem natural por meio dos sacramentos agindo ex opere operato (por seu próprio poder). Nos sacramentos os sinais visíveis e a graça invisível estão interligados inseparavelmente. De fato, segundo este conceito, a graça de Deus está contida nos meios como uma espécie de substância, é transmitida mediante o canal dos meios e, portanto, está absolutamente atada aos meios. O batismo regenera o homem ex opere operato, e a eucaristia, mais importante ainda, eleva a sua vida espiritual a um nível superior. Fora de Cristo, da igreja e do sacramento não há salvação.
2. CONCEITO LUTERANO. Com a Reforma, a ênfase foi transferida dos sacramentos para a Palavra de Deus. Lutero deu grande proeminência à Palavra de Deus como o primordial meio de graça. Ele assinalava que os sacramentos nada significam sem a Palavra e que, na verdade, eles são apenas a Palavra visível. Lutero não conseguiu corrigir inteiramente o erro católico romano quanto à conexão inseparável entre os meios externos e a graça interna comunicada por intermédio deles. Ele também concebia a graça de Deus como uma espécie de substância contida nos meios, e não a ser obtida sem os meios. A Palavra de Deus em si mesma sempre é eficaz e efetua uma mudança espiritual no homem, a menos que este ponha uma pedra de tropeço no caminho. E o corpo e o sangue de Cristo estão “nos, com os e sob os” elementos do pão e do vinho, de sorte que quem come e bebe estes últimos, também recebe aqueles, conquanto isto só lhe traga proveito se os receber de maneira apropriada. Foi especialmente sua oposição ao subjetivismo dos anabatistas que levou Lutero a acentuar o caráter objetivo dos sacramentos e a tornar a sua eficácia dependente da sua instituição divina, e não da fé exercida pelos participantes. Nem sempre os luteranos escaparam da idéia de que os sacramentos funcionam ex opere operato.
3. CONCEITO DOS MÍSTICOS. Lutero teve que discutir muito com os místicos anabatistas, e foi principalmente sua reação contra as idéias deles que determinaram o seu conceito final sobre os meios de graça. Os anabatistas e outras seitas místicas da época da Reforma e de tempos posteriores à Reforma negavam virtualmente que Deus sempre se serve de meios para a distribuição da Sua graça. Eles salientavam que Deus é absolutamente livre para comunicar a Sua graça, e, portanto, dificilmente se pode conceber que Ele está preso a tais meios externos. Afinal de contas, esses meios pertencem ao mundo natural, e nada têm em comum com o mundo espiritual. Deus, ou Cristo, ou o Espírito Santo, ou a luz interior, age diretamente no coração, e tanto a Palavra como os sacramentos só podem servir para indicar ou simbolizar esta graça interna. Toda esta concepção é determinada por uma idéia dualista da natureza da graça.
4. CONCEITO RACIONALISTA. Os socinianos do tempo da Reforma, por outro lado, foram muito longe na direção oposta. O próprio Socino nem sequer considerava o batismo como um rito destinado a ser permanente na igreja de Jesus Cristo, mas os seus seguidores não chegaram a esse extremo. Reconheciam o batismo e a Ceia do Senhor como ritos de validade permanente, mas lhe atribuíam apenas uma eficácia moral. Significa que eles entendiam que os meios de graça operam somente através da persuasão moral, e não os associavam de modo algum com nenhuma operação mística do Espírito Santo. De fato, davam mais ênfase ao que o homem faz com os meios de graça do que ao que Deus realiza por meio deles, quando falavam deles como simples insígnias da profissão de fé e (quanto aos sacramentos) como memoriais. Os arminianos do século dezessete e os racionalistas do século dezoito compartilhavam este conceito.
5. CONCEITO REFORMADO (CALVINISTA). Enquanto a reação aos anabatistas levou os luteranos a mover-se em direção a Roma e a ligar a graça de Deus aos meios no sentido mais absoluto – posição assumida também pelos anglicanos da Igreja Alta – as igrejas reformadas (calvinistas) deram continuidade ao conceito originário da Reforma. Elas negam que os meios de graça podem, por si mesmos, conferir graça, como se fossem dotados de poder mágico para produzir santidade. Deus, e Deus somente, é a causa eficiente da salvação. E, na distribuição e comunicação da Sua graça, Ele não está atado absolutamente aos meios divinamente ordenados pelos quais Ele age ordinariamente, mas os utiliza para atenderem aos propósitos da Sua graça, de acordo com o Seu livre arbítrio. Mas, apesar de não considerarem os meios de graça como absolutamente necessários e indispensáveis, elas se opõem fortemente à idéia de que estes meios podem ser tratados como puramente acidentais e indiferentes e podem ser negligenciados impunemente. Deus os designou para serem os meios ordinários por meio dos quais Ele aciona a Sua graça nos corações dos pecadores, e negligenciá-los voluntariamente só pode redundar em prejuízo espiritual.
(Berkhof, L – Teologia Sistemática Pg.609)

ELEMENTOS CARACTERÍSTICOS DA DOUTRINA REFORMADA DOS MEIOS DE GRAÇA

Para um bom entendimento da doutrina reformada (calvinista) dos meios de graça, os seguintes pontos merecem ênfase especial:
1. A graça especial de Deus opera somente na esfera em que os meios de graça funcionam. Esta verdade deve ser mantida contrariamente aos místicos, que negam a necessidade dos meios de graça. Deus é Deus de ordem que, na operação da Sua graça, emprega ordinariamente os meios que Ele mesmo ordenou. Isto, naturalmente, não significa que Ele se tornou subserviente aos meios ordenados e que não teria a menor possibilidade de agir sem eles na comunicação da Sua graça, mas somente que Lhe aprouve obrigar-se, exceto no caso das crianças, ao uso destes meios.
2. Num único ponto, a saber, na implantação da nova vida, a graça de Deus age imediatamente, isto é, sem o uso destes meios como instrumentos. Mas, mesmo assim, ela age somente na esfera dos meios de graça, desde que há absoluta exigência deles na indução e na nutrição da nova vida. Esta é uma direta negação da posição do racionalismo, que descreve a regeneração como resultado da persuasão moral.
3. Embora a graça de Deus em geral opere mediatamente, ela não é inerente aos meios como se fosse um depósito divino, mas acompanha a utilização destes. Deve-se defender isto em oposição aos católicos romanos, aos anglicanos da Igreja Alta e aos luteranos, que partem da pressuposição de que os meios de graça sempre operam em virtude de um poder inerente, embora a sua operação possa tornar-se ineficaz pela condição ou atitude do participante.
4. Nunca a Palavra de Deus deve separar-se dos sacramentos, mas sempre deve acompanha-los, visto que, virtualmente, são apenas uma representação visível da verdade que nos é transmitida pela Palavra. Na igreja de Roma a Palavra fica na retaguarda, como se tivesse apenas uma significação preparatória, ao passo que os sacramentos, considerados isoladamente, sem a Palavra, são considerados como os verdadeiros meios de graça.
5. Todo o conhecimento obtido por quem recebe a graça divina é produzido nele por meio da Palavra e da Palavra é derivado. Esta posição deve ser sustentada em oposição a todas as classes de místicos, que alegam revelações especiais e um conhecimento espiritual não mediado pela Palavra, e que, com isso, nos levam a um oceano de ilimitado subjetivismo.
(Berkhof, L – Teologia Sistemática Pg.610)

A PALAVRA COMO MEIO DE GRAÇA

A. Sentido da Expressão “Palavra de Deus” Neste Contexto.
Dificilmente se pode dizer que os católicos romanos consideram a Palavra de Deus como meio de graça. Na opinião deles, a igreja é o grande e todo-suficiente canal da graça para os pecadores, e todos os demais meios lhe estão subordinados. E os dois mais poderosos meios que Deus colocou à disposição da igreja são a oração e os sacramentos. As igrejas da Reforma, porém, tanto as luteranas como as reformadas (calvinistas), honram a Palavra de Deus nessa qualidade, e até a consideram superior aos sacramentos. É verdade que teólogos reformados mais antigos, tais como os professores de Leyden (Synopsis), Mastricht, a Marck, Turretino e outros, e mesmo alguns de data mais recente, como Dabney e Kyper, não tratam separadamente da Palavra como meio de graça, mas isto se deve, em grande parte, ao fato de que já a consideraram noutros contextos. Eles falam francamente dela como meio de graça. E quando consideram a Palavra de Deus como meio de graça, não estão pensando no Logos, a Palavra pessoal, Jo 1.1-14. Tampouco têm em mente alguma palavra procedente da boca de Jeová, Sl 33.6; Is 55.11; Rm 4.17, ou alguma palavra de revelação direta, como a recebida pelos profetas, Jr 1.4; 2.1; Ez 6.1; Os 1.1. É a Palavra de Deus inspirada, a Palavra da Escritura, que eles consideram como meio de graça. E ainda quando falam desta como meio de graça, visualizam-na de um ponto de vista especial. As Escrituras inspiradas constituem o principium cognoscendi (princípio do conhecimento), o manancial de todo o nosso conhecimento teológico, mas não é esse aspecto que temos em mente quando falamos da Palavra de Deus como meio de graça. A Bíblia não é somente o principium cognoscendi de teologia; é também o meio que o Espírito Santo emprega para a propagação da igreja e para a edificação e nutrição dos santos. Ela é preeminentemente a palavra da graça de Deus, e, daí, também o meio de graça mais importante. Estritamente falando, é a Palavra pregada em nome de Deus, e em virtude de um comissionamento divino, que é considerada como meio de graça no sentido técnico da palavra, ao lado dos sacramentos, que são administrados em nome de Deus. Naturalmente, a Palavra de Deus também pode ser considerada como meio de graça num sentido mais geral. Ela pode ser uma bênção real quando levada ao homem de muitas maneiras adicionais: Quando é lida em casa, quando é ensinada na escola ou quando circula por meio de folhetos. Como os meios de graça oficiais, colocados à disposição da igreja, a Palavra e os sacramentos só podem ser administrados pelos oficiais da igreja, legítimos e propriamente qualificados. Mas, diversamente dos sacramentos, a Palavra pode ainda ser levada ao mundo por todos os crentes, e opera de numerosos e diferentes modos.
(Berkhof, L – Teologia Sistemática Pg.613)

A RELAÇÃO DA PALAVRA COM O ESPÍRITO SANTO

Há, desenvolvida no transcurso da história, uma grande diferença de opiniões a respeito da eficácia da Palavra, e, conseqüentemente, quanto à ligação existente entre a efetiva operação da Palavra e a obra do Espírito Santo.
1. O nomismo, em suas várias formas, tais como o judaísmo, o pelagianismo, o semipelagianismo, o arminianismo, o neonomismo e o racionalismo imaginam a influência intelectual, moral e estética da Palavra como a única influência que se lhe pode atribuir. O nomismo não crê na operação sobrenatural do Espírito Santo mediante a Palavra. A verdade revelada na Palavra de Deus age somente pela persuasão moral. Nalgumas de suas formas, como nas do pelagianismo e do racionalismo, o nomismo nem sequer sente necessidade de uma operação especial do Espírito Santo na obra de redenção, mas em suas formas mais moderadas, como nas do semipelagianismo, do arminianismo e do neonomismo, ele considera a influência moral da Palavra insuficiente, de modo que precisa ser suplementada pela obra do Espírito Santo.
2. De outro lado, o antinomismo não considera a Palavra externa necessária, de modo nenhum, e ostenta um misticismo que espera que tudo da palavra interior ou da luz interior ou da operação imediata do Espírito Santo. Seu lema è, “A letra mata, mas o espírito vivifica”. A palavra externa pertence ao mundo natural, não está à altura do homem verdadeiramente espiritual e não pode produzir resultados espirituais válidos. Embora os antinômios de todas as categorias revelem uma tendência para menosprezar, senão para ignorar totalmente os meios de graça, essa tendência recebeu sua mais clara expressão das mãos de alguns anabatistas.
3. Em oposição a estes dois conceitos, os Reformadores sustentavam que a Palavra, sozinha, não é suficiente para produzir a fé e a conversão; que o Espírito Santo pode agir sem a Palavra, mas ordinariamente não o faz; e que, portanto, na obra de redenção a Palavra e o Espírito trabalham juntos. Embora a princípio houvesse pouca diferença sobre este ponto entre os luteranos e os reformados, aqueles desde o início davam ênfase ao fato de que o Espírito age por meio da Palavra como Seu instrumento (per verbum, pela palavra), ao passo que estes preferiam dizer que a operação do Espírito Santo acompanha a Palavra (cum verbo, com a Palavra). Com o tempo, os teólogos luteranos desenvolveram a doutrina realmente luterana, de que a Palavra de Deus contém poder convertedor do Espírito Santo como um depósito divino, que agora se acha tão inseparavelmente ligado a ela, que está presente mesmo quando a Palavra não é utilizada, ou não é utilizada legitimamente. Mas, com o fim de explicar os diferentes resultados da pregação da Palavra no caso de pessoas diferentes, eles tiveram que recorrer, ainda que de forma branda, à doutrina do livre arbítrio do homem. Os reformados, na verdade, consideravam a Palavra de Deus como poderosa sempre, quer como sabor de vida para a vida, quer como sabor de morte para a morte, mas afirmavam que ela se torna eficaz na condução à fé e à conversão somente pela conjunta operação do Espírito Santo nos corações dos pecadores. Eles se recusavam a considerar esta eficácia como um poder impessoal residente na Palavra.
(Berkhof, L – Teologia Sistemática Pg.613)